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Negroponte merece um Nobel da Paz?
GILSON CARONI FILHO
Qual a melhor maneira de superar um golpe? Fazer exatamente o que
pretendem os seus autores. É dessa forma, na melhor tradição da realpolitik
reaganiana, que John Negroponte, subsecretário de Estado no governo George
W.Bush, vislumbra a saída para a crise hondurenha. Eleições presidenciais na
data programada, sem restituição do presidente deposto Manuel Zelaya,
seguindo à risca os planos do líder dos golpistas, Roberto Micheletti.
Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, edição de domingo, 11 de outubro,
Negroponte ressurge como personagem de uma tela negra de Goya, empenhado em
legitimar a truculência, esconjurando a memória histórica por saber que é
dela que se elaboram projetos de soberania na América Latina. Ao dizer que
”durante o período em que eu estava lá, a democracia foi restaurada”,
falseia o passado para mascarar o presente.
O que tenta esconder o atual presidente do Americas Society/Council of the
Americas, “cuja meta é defender livre comércio, democracia e mercados
abertos no continente?” Qual foi o seu real papel na América Central? O
exército hondurenho, segundo reconheciam os próprios norte-americanos nos
anos 1980, foi treinado e aparelhado pelos Estados Unidos, a fim de ajudar a
conter os movimentos de libertação nacional na região.
O projeto político das eleições que os EUA promoveram em El Salvador, em
março de 1982, não resolveu a crítica situação da convulsionada nação
centro-americana. Ao contrário, serviu para mostrar que crise alguma pode
ser resolvida por solução eleitoreira que ignore estruturas injustas de uma
sociedade capitalista periférica, que ainda tinha remanescentes feudais. A
partir das eleições, a comunidade internacional observou um aumento das
violações dos direitos humanos por parte dos aparatos militares e dos bandos
paramilitares controlados pelo estado-maior das forças armadas e um
incremento no número de refugiados nos países centro-americanos. Operações
de extermínio foram levadas a cabo contra as zonas rurais e comunidades
camponesas.
Após uma fraca resistência, o ditador da Guatemala, Rios Montt, foi deposto
no dia 8 de agosto de 1983. Em seu lugar, subiu o general Oscar Mejia,
responsável direto por massacres de populações indígenas no interior do
país. A participação estadunidense no golpe foi cristalina. Mejia era
criatura do Pentágono e, dias antes de tomar o poder, participou de uma
reunião, em Honduras com o general Paulo Gorman, chefe do comando-sul
norte-americano no Panamá. Negroponte foi o anfitrião do encontro. Não por
acaso Honduras e El Salvador foram os primeiros países a reconhecer o novo
governo gualtemateco.
Para a Nicarágua, os planos de Reagan eram de intervenção militar direta. O
bloqueio naval ao regime sandinista funcionava a pleno vapor. Um cargueiro
soviético, com 842 toneladas de medicamentos e máquinas destinadas à
agricultura e à construção de estradas, foi interditado por navios
norte-americanos sob a alegação de que carregava armas e helicópteros
militares. De Honduras, como recorda Atílio Boron, Negroponte “monitorou
pessoalmente as operações terroristas realizadas contra o governo sandinista
e promoveu a criação do esquadrão da morte, mais conhecido como o Batalhão
316, que sequestrou, torturou e assassinou centenas de pessoas, enquanto nos
seus relatórios para Washington negava que houvesse violações dos direitos
humanos nesse país.”
Ao diário paulista, John Negroponte é taxativo: “Obviamente, por conta da
situação vizinha, nós aumentamos nossa ajuda, não só militar, mas
humanitária. Penso que adotamos as políticas certas, que foi justificado o
que fizemos, e eu certamente não me arrependo de nada.”
A se dar crédito ao diplomata norte-americano, estudaremos a história como
se visita um museu de cera. Embevecidos com a fraude disfarçada de arte,
mentiremos sobre o passado para continuar mentindo sobre o presente. Esse
tem sido o papel da imprensa ao fabricar o que a direita lhe solicita: a
nostalgia da barbárie como tempo de boas colheitas.
É para esse imaginário que boa parte da oposição brasileira daria, se
pudesse, um Nobel da Paz. Seria uma primeira página perfeita.
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