|
Censo Agropecuário do IBGE expõe consequências do agro-negocismo
Kátia Abreu (DEM/CNA) e Ibope discordam
A senadora Kátia Abreu está inconformada com a realidade. Mas, segundo ela, é
tudo culpa do IBGE e do Incra. Se fosse o Ibope a realizar as pesquisas no campo
brasileiro, logo se veria que essa história de reforma agrária só serve para
deixar o trabalhador rural passando fome. Já com o latifúndio, todo mundo come
bem e fica satisfeito...
Não, leitor, não é brincadeira - nós, como você sabe, não somos dados a tais
liberdades. A questão é que a ilustre pecuarista e paladina do “agro-negócio”
usou a tribuna do Senado, na terça-feira, para reclamar dos resultados da última
Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (PNAD) do IBGE, que, no fundamental,
confirma os resultados do último Censo Agropecuário, recentemente divulgados.
Como prova de que estava falando a verdade, sacou uma pesquisa do Ibope, paga
pela organização que preside, a CNA. Segundo a pesquisa do Montenegro, a
situação dos que conseguiram terra com a política de reforma agrária é uma
desgraça. De onde se conclui que só o latifúndio e o “agro-negócio” pode salvar,
não mais a lavoura, que isso eles já salvaram, mas o país.
Para quem quer conhecer as odes da senadora ao “agro-negócio”, recomendamos o
último número da isenta revista internética “Monsanto em campo” (setembro, 2009,
edição XXIX, ano IV), onde ela estrela como entrevistada da transgênica
publicação multinacional.
Mas, eis aqui alguns resultados do Censo Agropecuário – que não é uma pesquisa,
mas um levantamento in loco dos 5.175.489 estabelecimentos agropecuários do
país:
1) Em 2006 (ano-base do Censo), os estabelecimentos rurais com menos de 10
hectares somavam uma área de 7,7 milhões de hectares - menos de 2,7% da área
total ocupada pelos estabelecimentos rurais no país. No entanto, esses
estabelecimentos com menos de 10 hectares são mais de 47% dos estabelecimentos
rurais do Brasil - e neles vivem 2,5 milhões de famílias. Uma observação
importante: mais de 2 milhões de estabelecimentos dessa dimensão deixaram de
existir entre 1996 (ano-base do Censo anterior) e 2006.
2) A área ocupada pelos estabelecimentos com mais de 1.000 hectares é de 48
milhões de hectares - mais de 43% da área total dos estabelecimentos rurais.
Porém, esses estabelecimentos são apenas 0,91% dos estabelecimentos rurais do
país e pertencem a somente 31.899 proprietários.
3) Dos 5.175.489 estabelecimentos agropecuários, 4.254.808 não obtiveram
qualquer financiamento no ano-base. Portanto, em mais de 5 milhões de
estabelecimentos, apenas 920.681 conseguiram algum tipo de financiamento. Os
estabelecimentos com área total inferior a 100 hectares integraram o maior grupo
dos que não obtiveram financiamento (3.634.351 unidades, correspondendo a
85,4%).
4) Os estabelecimentos com área total igual ou superior a 1.000 hectares (0,91%
do total de estabelecimentos) obtiveram 43,6% dos recursos de financiamento
rural. O agrônomo Gerson Freitas, ex-presidente da Associação Brasileira de
Reforma Agrária (Abra), em entrevista ao “Brasil De Fato”, considera que “isso
é reflexo do apoio direto do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e
Social (BNDES) no investimento para a criação de empresas nacionais globais,
especialmente na área do agronegócio, a exemplo dos casos recentes da
Sadia/Perdigão e da JBS/Bertin”.
5) Apesar dessa desigualdade no financiamento, o Censo revela que a agricultura
familiar gerou um valor de R$ 677 por hectare contra R$ 358 por hectare dos
outros estabelecimentos agrícolas.
6) A “monocultura da soja ou do binômio soja-milho, além do algodão, fez por
reforçar a desigualdade que marcava a propriedade da terra em uma região
historicamente ocupada por uma pecuária ultra-extensiva”.
7) A produção voltada para a exportação de somente três produtos - soja, milho e
cana - ocupa 32 milhões de hectares. A soja, desde o Censo de 1996, “apresentou
um aumento de 88,8% na produção, alcançando 40,7 milhões de toneladas em 15,6
milhões de hectares, um aumento de 69,3% na área colhida. Em termos absolutos,
representa um aumento de 6,4 milhões de hectares, caracterizando a soja como a
cultura que mais se expandiu na última década”.
8) O arroz, feijão, mandioca e trigo, com produção voltada para o mercado
interno, ocupam apenas 7 milhões de hectares.
9) Os estabelecimentos agropecuários, em 2006, geraram uma receita total de R$
122.632.154.000. Porém, os estabelecimentos com área menor que 100 hectares
geraram 47,13% da receita total (R$ 57.799.470.000) contra 26,62% dos grandes
(R$ 32.647.235.000).
10) No campo, o analfabetismo atinge 35% dos homens e 45% das mulheres. Apenas
7% da população rural completou o ensino fundamental.
11) Por último, a produção do “agro-negócio” é não somente cada vez mais
dependente das multinacionais - desde a Monsanto, seus agro-tóxicos e
transgênicos até as tradings que compram a produção - como as próprias
multinacionais entraram diretamente no ramo: 20 empresas, a maioria
estrangeiras, controlam o “agro-negócio”.
Não é difícil concluir que o papel dos bobos alegres do “agro-negócio” nesse
modelo é vender sua produção às multinacionais pelo preço que estas
determinarem, usando as sementes ou matrizes animais também compradas pelo preço
que as empresas estrangeiras determinarem, com demais insumos e equipamentos
adquiridos nas mesmas condições. O que explica alguns dos achados do Censo (p.
ex., o item 5 de nossa lista).
Certamente, se fosse o Ibope, ao invés do IBGE, a fazer o Censo, o resultado
seria outro. Só nos resta concordar com o deputado Brizola Neto (PDT-RJ) sobre a
pesquisa assacada pela senadora, que “o incorruptíssimo Ibope diz ter feito
em uma semana, entrevistando mil assentados em terras de reforma agrária. Deste
‘profundo estudo’, apresentado por ela, chega-se à afirmação de que quase três
quartos dos assentados não produzem nada, produzem só o ‘de comer’ ou tão pouco
que não conseguem sobreviver com a terra. São, portanto, masoquistas. Não é
assim que se resolve a questão agrária, uma forma mais adequada é casar-se com
um pecuarista e - não se nega sua capacidade de negócios - tocar as propriedades
depois de enviuvar”.
CARLOS LOPES |