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Os Sinos Dobram
pelo Dólar
“O dólar já
deixou de ser a reserva monetária de todos os Estados, pelo contrário, seus
possuidores desejam afastar-se dele, embora evitando, no que for possível, que
se desvalorize antes que possam desprender-se dele”, afirma o líder cubano Fidel
Castro em sua reflexão do dia 9 de outubro
FIDEL CASTRO
O império dominou o
mundo mais pela economia e pela mentira do que pela força. Obteve o privilégio
de imprimir as divisas conversíveis no fim da Segunda Guerra Mundial,
monopolizava a arma nuclear, dispunha de quase todo o ouro do mundo e era o
único produtor em grande escala de equipamentos produtivos, bens de consumo,
alimentos e serviços a nível mundial. Tinha, apesar disso, um limite à
impressão de papel-moeda: o lastro em ouro, ao preço constante de 35 dólares por
onça-troy. Assim aconteceu durante mais de 25 anos, até que, no dia 15 de agosto
de 1971, por meio de uma ordem presidencial de Richard Nixon, os Estados Unidos
romperam unilateralmente esse compromisso internacional, roubando o mundo. Não
me cansarei de repeti-lo. Dessa forma, lançaram sobre a economia mundial suas
despesas de rearmamento e aventuras bélicas, em especial a guerra do Vietnã que,
segundo cálculos conservadores, custou não menos de 200 bilhões de dólares e a
vida de mais de 45 mil jovens norte-americanos.
Sobre esse pequeno país do Terceiro Mundo
foram lançadas mais bombas do que as utilizadas na última guerra mundial.
Milhões de pessoas morreram ou foram mutiladas. Ao suspender a conversão, o
dólar passou a ser uma moeda que podia ser impressa à vontade pelo governo
norte-americano, sem o lastro de um valor constante.
Os títulos e notas continuaram circulando
como moedas conversíveis; as reservas dos Estados continuaram nutrindo-se dessas
notas que, por um lado, serviam para adquirir matérias-primas, propriedades,
bens e serviços em qualquer parte do mundo e, por outro, privilegiavam as
exportações dos Estados Unidos em relação às demais economias do planeta. Os
políticos e acadêmicos mencionam uma vez ou outra o custo real daquela guerra
genocida, admiravelmente descrita no filme de Oliver Stone. As pessoas tendem a
fazer cálculos como se os milhões fossem iguais. Não costumam perceber que os
milhões de dólares de 1971 não são iguais aos milhões de 2009.
Um milhão de dólares hoje, quando o ouro - um
metal cujo valor tem sido o mais estável ao longo dos séculos - tem um preço que
ultrapassa mil dólares por onça-troy, vale cerca de 30 vezes o que valia quando
Nixon suspendeu a conversão. Duzentos bilhões em 1971 equivalem a seis trilhões
de dólares em 2009. Se não se tem em conta isso, as novas gerações não terão uma
ideia da barbárie imperialista.
Da mesma forma, quando se fala dos 20 bilhões
investidos na Europa depois do fim da Segunda Guerra Mundial - em virtude do
Plano Marshall, para reconstruir e controlar a economia das principais potências
europeias, que possuíam a força de trabalho e a cultura técnica necessárias para
o rápido desenvolvimento da produção e dos serviços - as pessoas costumam
ignorar que o valor real do que foi então investido pelo império equivale ao
valor internacional atual de 600 bilhões de dólares. Não percebem que, hoje, 20
bilhões dariam apenas para construir três grandes refinarias de petróleo,
capazes de fornecer 800 mil barris diários de gasolina, além de outros derivados
do petróleo.
As sociedades de consumo, o desperdício
absurdo e caprichoso de energia e de recursos naturais que hoje ameaça a
sobrevivência da espécie, não seriam explicáveis, em tão breve período
histórico, se não é conhecida a forma irresponsável pela qual o capitalismo
desenvolvido, em sua fase superior, tem regido o destino do mundo.
Tão assombroso desperdício explica por que os
dois países mais industrializados do mundo, os Estados Unidos e o Japão, estão
endividados em aproximadamente 20 trilhões de dólares.
Certamente que a economia dos Estados Unidos
tem um Produto Interno Bruto anual de, aproximadamente, 15 trilhões de dólares.
As crises do capitalismo são cíclicas, como demonstra irretorquivelmente a
história do sistema, mas desta vez se trata de algo mais: uma crise estrutural,
como explicava o Ministro do Planejamento e Desenvolvimento da Venezuela,
professor Jorge Giordani, a Walter Martinez em seu programa, ontem à noite, pela
Telesul.
Os despachos de agências de notícias
divulgados hoje, sexta-feira, 9 de outubro, acrescentam dados que são
incontestáveis. Um despacho da AFP, procedente de Washington, precisa que o
déficit orçamentário dos Estados Unidos, no ano fiscal de 2009, eleva-se a 1,4
trilhões de dólares, 9,9% do PIB, “algo nunca visto desde 1945, quando terminou
a Guerra Mundial”, acrescenta.
O déficit no ano de 2007 já havia sido um
terço dessa magnitude. Esperam-se elevadas somas de caráter deficitário nos anos
de 2010, 2011 e 2012. Esse enorme déficit foi causado, fundamentalmente, pelo
Congresso e pelo governo dos Estados Unidos para salvar os grandes bancos desse
país, impedir que o desemprego se eleve acima de 10% e tirar os Estados Unidos
da recessão. É lógico que, se inundam a nação de dólares, as grandes redes
comerciais venderão mais mercadorias, as indústrias aumentarão a produção, menos
cidadãos perderão suas casas, a maré de desemprego deixará de crescer, e as
ações de Wall Street aumentarão seu valor. Foi a forma clássica de resolver a
crise. Apesar disso, o mundo já não voltará a ser o mesmo. Paul Krugman,
prestigiado Prêmio Nobel de Economia, acaba de afirmar que o comércio
internacional sofreu sua maior queda, pior ainda que a da Grande Depressão, e
expressou dúvidas quanto à rápida recuperação.
Não se pode inundar o mundo de dólares e
também pensar que esses papéis sem lastro em ouro manterão o seu valor. Outras
economias, hoje mais sólidas, surgiram. O dólar já deixou de ser a reserva
monetária de todos os Estados, pelo contrário, seus possuidores desejam
afastar-se dele, embora evitando, no que for possível, que se desvalorize antes
que possam desprender-se dele.
O euro da União Européia, o yuan chinês, o
franco suíço, o yen japonês - apesar das dívidas desse país -, até a libra
esterlina, junto a outras moedas, passaram a ocupar o lugar do dólar no comércio
internacional. O ouro metálico volta a converter-se em importante moeda de
reserva internacional.
Não se trata de uma opinião pessoal
caprichosa, nem desejo caluniar essa moeda.
Outro Prêmio Nobel de Economia, Joseph
Stiglitz, expressou, segundo os despachos: “‘o mais provável é que a nota verde
continue em decadência. Os políticos não decidem os tipos de câmbio e os
discursos também não o fazem”. Isso foi declarado no dia 6 de outubro, na
Assembleia Anual Conjunta do FMI e Banco Mundial, realizada em Istambul. Nessa
cidade pôde-se ver uma violenta repressão. O evento foi saudado com vitrines
quebradas e incêndios produzidos por coquetéis-molotov.
Outras notícias falavam que os países
europeus temiam o efeito negativo da debilidade do dólar frente ao euro e suas
consequências sobre as exportações europeias. O Secretário do Tesouro dos
Estados Unidos declarou que ao seu país “interessava um dólar forte”. Stiglitz
zombou da declaração oficial e expressou, segundo a EFE, que “no caso dos
Estados Unidos o dinheiro foi dissipado e a causa foi o resgate multimilionário
dos bancos e o custo de guerras como a do Afeganistão”. Segundo a agência, o
Prêmio Nobel “insistiu em que, em vez de investir 700 bilhões em ajuda aos
banqueiros, os EUA poderiam ter destinado parte desse dinheiro para ajudar os
países em desenvolvimento, o que, por sua vez, teria estimulado a demanda
global”.
Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial,
deu a voz de alarme dias antes, e advertiu que o dólar não podia manter
indefinidamente seu status como moeda de reserva.
Um eminente professor de economia da
Universidade de Harvard, Kenneth Rogoff, afirmou que a próxima grande crise
financeira será a “dos déficits públicos”.
O Banco Mundial declarou que “o Fundo
Monetário Internacional (FMI) mostrou que os bancos centrais do mundo acumularam
menos dólares durante o segundo semestre de 2009 do que em nenhum outro momento
durante os últimos 10 anos e aumentaram sua posse de euros”.
No mesmo dia 6 de outubro, a AFP publicou que
o ouro chegou ao preço recorde de 1.045 dólares por onça, impulsionado pelo
debilitamento do dólar e o temor à inflação.
O jornal “Independent”, de Londres, publicou
que um grupo de países produtores de petróleo estudava substituir o dólar nas
transações comerciais por uma cesta de moedas que incluirão o yen, o yuan, o
euro, o ouro e uma futura moeda comum.
A notícia, filtrada ou deduzida com
impressionante lógica, foi desmentida por alguns dos países presumivelmente
interessados nessa medida de proteção. Não desejam que o dólar entre em colapso,
mas tampouco continuar acumulando uma moeda que perdeu 30 vezes o seu valor em
menos de três décadas.
Não posso deixar de registrar um despacho da
agência EFE, que não pode ser acusada de anti-imperialista, e que nas atuais
circunstâncias transmite opiniões de especial interesse:
“Especialistas em economia e finanças
coincidiram hoje, em Nova Iorque, em afirmar que a pior crise desde a Grande
Depressão levou esse país a jogar um papel menos significativo na economia
mundial”.
“A recessão fez com que o mundo mudasse a
forma com que se olha os Estados Unidos. Agora nosso país é menos significativo
do que antes e isso é algo que devemos reconhecer’, afirmou David Rubenstein,
presidente e fundador do Carlyle Group, a maior empresa de capital de risco do
mundo, em sua intervenção no World Business Forum”.
“O mundo financeiro vai estar menos centrado
nos Estados Unidos (...) Nova Iorque não será nunca mais a capital financeira
mundial e esse papel será dividido com Londres, Xangai, Dubai, São Paulo e
outras cidades’, asseverou”.
“(....) debulhou os problemas que serão
enfrentados pelos EUA quando saírem de ‘uma grande recessão’ na qual ainda
ficarão ‘um par de meses pela frente’”.
“(....) ‘o enorme endividamento’ público, a
inflação, o desemprego, a perda de valor do dólar como moeda de reserva, os
preços da energia (....)”.
“O governo deve diminuir o gasto público para
enfrentar o problema da dívida e fazer algo de que gosta pouco: subir os
impostos”.
“O economista da Universidade de Columbia e
assessor especial da ONU, Jeffrey Sachs, coincidiu com Rubenstein em que o
predomínio econômico e financeiro dos Estados Unidos ‘está se apagando’”.
“Deixamos um sistema centrado nos EUA por um
‘multilateral’ (....)”.
“(....) ‘vinte anos de irresponsabilidade,
primeiro por parte da administração de Bill Clinton e depois por parte da
administração de George W. Bush’, cederam às pressões de Wall Street (....)”.
“(....) ‘os bancos negociavam com ‘ativos
tóxicos’ para conseguir dinheiro fácil’, explicou Sachs”.
“‘O importante agora é reconhecer o desafio
sem precedentes que supõe conseguir um desenvolvimento econômico sustentável e
consequente com as regras físicas e biológicas básicas deste planeta’(....)”.
Por outro lado, as notícias que chegavam
diretamente de nossa delegação em Bangkok, capital da Tailândia, não eram de
forma alguma alentadoras:
“O essencial que se discute - informou
textualmente nosso Ministério das Relações Exteriores - é a ratificação ou não
do conceito responsabilidades comuns, mas diferenciadas, entre os países
industrializados e as chamadas economias emergentes, basicamente China, Brasil,
Índia, África do Sul, e os países subdesenvolvidos.
“A China, o Brasil, a Índia, a África do Sul,
o Egito, Bangladesh, o Paquistão e a ALBA são os mais ativos. Em geral o Grupo
dos 77, em sua maioria, mantém-se em posições firmes e corretas.
“As magnitudes de redução das emissões de
carbono que estão sendo negociadas não têm correspondência com as que são
calculadas pelos cientistas para manter o aumento da temperatura a um nível
inferior a 2 graus Celsius, 25-40%. Neste momento, a negociação se move em torno
de uma redução de 11-18%.
“Os Estados Unidos não estão fazendo nenhum
esforço real. Só estão aceitando uns 4% de redução em relação a 1990”.
Na manhã de hoje, sexta-feira, dia 9, o mundo
acordou com a notícia de que “o Obama bom” do enigma, explicado pelo presidente
bolivariano Hugo Chávez nas Nações Unidas, recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Nem
sempre compartilho as posições dessa instituição, mas me vejo obrigado a
reconhecer que, nestes instantes, foi, a meu juízo, uma medida positiva.
Compensa o revés sofrido por Obama em Copenhague, ao ser escolhido o Rio de
Janeiro, e não Chicago, para sede das Olimpíadas de 2016, o que provocou irados
ataques de seus adversários de extrema direita.
Muitos opinarão que ele ainda não ganhou o
direito a receber tal distinção. Desejamos ver na decisão, mais que um prêmio ao
presidente dos Estados Unidos, uma crítica à política genocida que seguiram não
poucos presidentes desse país, os quais conduziram o mundo à encruzilhada onde
hoje se encontra: uma exortação à paz e à busca de soluções que conduzam à
sobrevivência da espécie.
Fidel Castro
Ruz
Outubro, 9 de
2009 - 18h11 |