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Os desejos ocultos dos donos da terra
GILSON CARONI FILHO*
A nova operação da direita para viabilizar a
instalação de uma CPI para investigar supostos repasses de recursos públicos a
entidades vinculadas ao Movimento dos Sem Terra (MST) nada mais é que um embuste
com objetivos nítidos: a criminalização dos movimentos sociais e, com um claro
viés eleitoreiro, o desgaste do governo visando ao processo eleitoral de 2010.
O eixo central da ação da senadora Kátia
Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil
(CNA) e do deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), ex-presidente da UDR, é retroceder
o processo democrático a níveis anteriores ao do governo petista. Com apoio da
grande imprensa, o que se pretende é o estabelecimento de uma agenda que aceite
a imposição dos que gritam mais forte e que por mais de 500 anos mandaram no
país.
Um projeto de poder que abandone o país
moderno, dos segmentos novos da cidade, do operariado urbano e rural, dos
pequenos e médios proprietários das classes médias, dos empresários modernos e
progressistas para abraçar uma opção pelo passado. No que ele tem de mais
retrógrado, no que ele garante a preservação de práticas clientelistas e
oligárquicas.
A pesquisa do Ibope, encomendada pela CNA,
“que constata a favelização dos assentamentos rurais do INCRA” não vai de
encontro apenas aos dados do Censo Agropecuário de 2006 que demonstram que a
agricultura familiar é mais produtiva do que a tradicional e em grande escala.
Vai além. Vai contra todas as classes e frações que sabem que sua sobrevivência
depende de um país igualitário, solidário, a ser construído por uma intervenção
decidida na questão da terra. Uma estrutura social equânime é o inferno de
Caiado e Kátia Abreu. Para eles, o paraíso é o Estado Patrimonial que, como no
tempo do Império, funcione como repassador de terras e do dinheiro do setor
público para o privado. É com essa restauração que sonham diariamente.
Sob os holofotes da CPI o que se quer manter
é a luta contra a Reforma Agrária por parte de pecuaristas e dos que ganham com
monoculturas extensas. Nos casos de desapropriações já decididas, apela-se, como
sempre, para os amigos cartoriais, transferindo gado de uma fazenda para outra
enquanto se pede revisão dos processos.
O “aggiornamento” da imprensa é peça
fundamental dessa estratégia. Há mais de duas décadas, durante a eleição de
Caiado para a presidência da UDR, o então vice-presidente da entidade, Altair
Veloso, garantia que “os jornalistas da imprensa escrita são todos vermelhos. Os
da televisão são todos homossexuais”
Hoje prevalece a afinidade de classe, e os
“vermelhos” carregam nas tintas contra movimentos organizados, enquanto os
“homossexuais” divulgam, no horário nobre de uma emissora paulista, “editoriais”
contra Lula e o MST. O amadurecimento de pessoas e instituições é surpreendente.
Revela pulsões que nunca ousaram dizer o nome.
Em entrevista para a Agência Ibase, o líder
sindical José Francisco da Silva, ex-presidente da Contag, disse que “houve
avanços com o governo Lula, justiça seja feita. Fernando Henrique investiu R$
2,3 bilhões no Pronaf. Lula já alcançou R$ 13 bilhões no decorrer de seis anos.
Foi um bom investimento, mas é bom que se diga que o agronegócio recebe quase R$
70 bilhões do governo e é a agricultura familiar que abastece o país, que gera
empregos”. É uma distorção a ser corrigida.
Para Kátia e Caiado a correção aponta para
outra direção: a da redução dramática da população rural, da formação de um
contingente de semicidadãos entregues à própria sorte. Para eles, essa é a
democracia possível. O padrão estético é coerente com a história dos antigos
donos do poder.
Eldorado de Carajás é uma imagem a ser
esquecida. Pés de laranja arrancados, um crime imperdoável.
* Gilson Caroni Filho é
professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio
de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador da Hora do Povo e do
Observatório da Imprensa. |