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NAFTA afundou mais 4,5 milhões
na pobreza no ano de 2008*
HEDELBERTO LÓPEZ BLANCH**
Um velho provérbio diz que “guerra avisada
não mata soldado”, mas os governantes mexicanos, por mais que alertados,
continuaram adiante com o Tratado de Livre Comércio da América do Norte
(NAFTA) que tem impulsionado a desigualdade e a pobreza do povo.
Em dezembro de 1992 o presidente Carlos
Salinas assinou o TLCAN, (integrado também pelos EUA e o Canadá), que entrou
em vigor em janeiro de 1994, e os sucessivos chefes de Estado Ernesto
Zedillo, Vicente Fox e Felipe Calderón continuaram impulsionando-o.
Duas entidades apologéticas do NAFTA como o
Grupo de Diários América (GDA) e o Fundo Monetário Internacional (FMI)
ofereceram um panorama desalentador para o México ao apontar que a economia
retrocederá este ano em 7,2 % em relação a 2008.
Porém, o mais significativo é que os dois
entes acrescentaram que o país está pagando com acréscimos sua dependência
do comercio com os Estados Unidos, que desabou por conta da recessão que
enfrenta.
Enquanto o FMI acrescenta que outro dos
fatores foi a queda nas entradas pelas exportações de petróleo, que provocou
uma deterioração drástica nos balanços fiscais, o GDA diz que nos primeiros
sete meses do ano o gasto total em investimento físico foi de 20, 7 bilhões
de dólares, a metade do previsto inicialmente.
O Banco Mundial (BM) informou que a recessão
econômica afundou este ano na pobreza a outros 4,5 milhões de pessoas,
somados aos quase 6 milhões que tinham passado a esse patamar entre 2006 e
2008.
Dados do oficial Conselho Nacional de
Avaliação da Política de Desenvolvimento Social (Coneval) indicam que em
2008 existiam no país 50,6 milhões de pessoas na pobreza, que ao se
acrescentar os 4,5 milhões deste ano, alcançam a cifra de 55,1 milhões, ou
seja, 51,3 % do total da população, estimada em 107,4 milhões de habitantes.
O Coneval, que se encarrega de analisar o
estado de pobreza, avaliou os anos 2007 e 2008, marcados por um aumento
internacional nos preços dos alimentos e registra que no México afetou o
consumo de bens básicos da população em produtos como milho, grãos e carnes
que antes se produziam no país e agora depende das importações dos EUA.
Desde a assinatura do NAFTA, o México tem se
convertido em apêndice do vizinho do norte, que o utiliza para obter mão de
obra barata, extrair seu petróleo a preços preferenciais, exportar os
excessos de produções norte-americanas e, ao mesmo tempo, contar com um
governo afim a seus interesses.
Calcula-se que cerca de 80 % das importações
mexicanas provêm do Norte, enquanto que 60 % de suas exportações vão para
esse mercado, que as têm limitado pela grave crise que padece.
Os acordos de livre comércio tripartites
abriram as portas às companhias transnacionais e ao capital privado, que têm
comprado a baixos preços empresas produtivas, de serviços, minas e terras
agrícolas em troca de um suposto investimento e criação de empregos.
De forma imediata, o desenvolvimento desigual
entre as três nações ficou manifesto e a dependência econômica do México em
relação aos Estados Unidos se ampliou progressivamente em todos os ramos da
indústria, a agricultura e os serviços.
Sem criticar o NAFTA, os prognósticos
negativos do FMI para o México se baseiam em que a debilidade da recuperação
econômica nos Estados Unidos limitará a criação de empregos nesse país e a
demanda de produtos de importação será exígua, o que limitará ainda mais as
exportações astecas, além de uma forte contração nas remessas dos mexicanos
que trabalham na União Americana.
O FMI acrescenta uma frase sóbria: “Isto joga
pela borda os prognósticos de recuperação, que implica em um
desproporcionado aumento da pobreza”.
FALÊNCIA DE AGRICULTORES
O NAFTA provocou a falência dos agricultores
nacionais que não podem concorrer com a entrada ao mercado mexicano de
mercadorias norte-americanas muito mais baratas, devido aos grandes
subsídios que essa nação outorga a seus produtores.
Os camponeses abandonam suas terras e junto com a família vão para as
cidades em busca de um idílico trabalho muito difícil de encontrar, pois
dados de organizações não governamentais indicam que nas urbes, 70 % da
População Economicamente Ativa (PEA) está desempregada ou em empregos
informais como vendedores ambulantes.
Antes do Tratado, os agricultores astecas abasteciam a nação de arroz,
feijão, leite e milho, entre outros produtos, mas na atualidade essas
mercadorias, que entram procedentes dos Estados Unidos livres de impostos,
dominaram em mais de 80 % o mercado nacional.
Recentemente, o ex-candidato presidencial
pelo Partido da Revolução Democrática (PRD) Andrés López Obrador, denunciou
que “têm se privatizado mais de mil empresas públicas importantes, entre
elas Telefones do México, ferrovias nacionais, os portos, os aeroportos, as
minas, os bancos, estão entregando a indústria elétrica nacional e agora o
que mais ambicionam é ficar com a renda petroleira”.
Apesar que a Constituição mexicana estabelece
que “em se tratando do petróleo ... ou de minérios radiativos, não se
outorgarão concessões nem contratos, e a Nação levará a cabo a exploração e
distribuição desses produtos”, a pesquisadora Nancy Flores, em trabalho
intitulado “Contratos à margem da lei de PEMEX”, assinala que mais de 3 000
contratos beneficiam a 23 transnacionais principalmente norte-americanas.
Os lucros pelas atividades petroleiras, o
recurso mais rico e importante da economia mexicana, também viajam para os
EUA.
O FMI, organismo que impulsionou, junto ao
Banco Mundial, as medidas neoliberais e de privatizações nas nações em
desenvolvimento, não teve mais remédio que reconhecer em seu informe que
devido à dependência da nação asteca com os Estados Unidos, “o desabamento
da economia mexicana será o mais grave a ser registrado pelos países
latino-americanos”.
*Matéria
originalmente intitulada México: o enorme custo do Tratado de Livre Comércio
da América do Norte
**Hedelberto López é jornalista cubano
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