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Goldman Sachs distribui
os maiores bônus em 140 anos
O Goldman amealhou
US$ 3 bilhões de lucro apostando com dinheiro do Tesouro no 3º trimestre em
que o desemprego seguiu aumentando, a tomada de casas pelos bancos bateu
novo recorde e mais de um milhão de pessoas foram à falência
Os banqueiros dos EUA agraciados com mais US$ 700 bilhões de bailout e
vários trilhões em garantias a títulos podres decidiram afrontar o povo
norte-americano e se auto-concederem os maiores bônus da história, que,
considerando apenas 23 dos maiores bancos e corretoras, chega a US$ 140
bilhões este ano. A cifra foi registrada, na semana passada, pelo “Wall
Street Journal”, após consulta aos barões ladrões. Apenas o Goldman Sachs
destinou, nos nove primeiros meses do ano, US$ 16,7 bilhões, valor que
segundo a revista “Fortune” deverá chegar a US$ 21 bilhões até o final do
ano. O bônus do ano passado, menor, já havia causado extensa indignação nos
EUA contra os bancos, e inclusive a condenação por parte do presidente
Barack Obama.
Em relação ao ano passado, o bônus do Goldman quadruplicou. Um escárnio tal,
que até mesmo conhecidos porta-vozes da banca preferiram aparentar certa
distância. Assim, o “New York Times”, estampou que “enquanto muitos
americanos comuns ainda estão esperando pela recuperação da economia, o
Goldman e seus funcionários estão desfrutando de um dos períodos mais ricos
na história de 140 anos do banco”. À guisa de álibi para o Goldman, o NYT
citou antes uma máxima de um dos executivos do banco, “ganância, mas
ganância de longo termo”.
Em outras palavras, assim até para o NYT fica difícil defender a ganância.
Mesmo a revista “Fortune” teve de disfarçar suas preferências, e seu artigo
sobre a farra dos bônus recebeu o título de “Goldman Sachs: os dólares dos
seus impostos, e os gordos bônus deles”. Quanto à ganância, nada de “longo
prazo”. Conforme a revista, o Goldman “foi um dos nove grandes bancos que
receberam empréstimos do Tesouro no outono passado” – no caso, US$ 10
bilhões. “Recebeu US$ 13 bilhões na vultosa, largamente questionada salvação
da seguradora AIG em setembro de 2008” (episódio que ficou conhecido como
‘bailout pela porta dos fundos’, em que o Goldman recebeu 100% do valor de
face dos papéis podres da AIG). “Vendeu US$ 22 bilhões em débitos com
garantias federais” sob um plano “para restaurar a atividade dos mercados de
capital”. “E tem sido um dos maiores beneficiários pelos baixos juros que o
governo adotou”; aliás, juros negativos.
Concluindo, a revista assinalou ao leitor mais adiante, lembrando os lucros
recordes deste ano, “provavelmente não vai servir de conforto, mas o Goldman
Sachs não teria feito isso sem a sua ajuda”. E o que o Goldman e demais
abutres fizeram foi pegar dinheiro público bem barato, e usá-lo para
especular com ações, títulos do governo e “carry trade” – a farra no
exterior, no diferencial de juros.
Desse jeito, a casa cai, o que levou o vice-diretor de um fundo de
especulação, Tim Smith, a advertir que “a indignação sobre os bônus precisa
ser entendida num contexto mais amplo, de perdas de empregos e despejos” em
massa. No terceiro trimestre em que o Goldman amealhou US$ 3 bilhões de
lucro, apostando com dinheiro impresso pelo Federal Reserve, “a economia
sangrou 768 mil empregos” – o número verdadeiro é pelo menos o dobro. A
tomada de casas pelos bancos “bateu novo recorde”. Mais de um milhão de
pessoas tiveram sua falência decretada este ano, de acordo com o Instituto
Americano de Falências. Com a queda de arrecadação, o déficit orçamentário
no conjunto dos 50 estados atingiu US$ 168 bilhões, enquanto o Goldman “está
sentado em US$ 167 bilhões em dinheiro”.
“INSULTO”
Por sua intimidade com os círculos do poder em Washington, e a rotina de
presidentes do Goldman que viram secretários do Tesouro, e secretários do
Tesouro que viram presidentes do Goldman, costuma ser chamado, ironicamente,
de “Government Sachs”. A situação levou o presidente do Comitê de Bancos do
Senado, o democrata Christopher Dodd, a declarar à rede de TV NBC que o que
os grandes bancos estão fazendo é um “escândalo” e um “insulto” aos
norte-americanos. Note-se que até aqui nem o Comitê, nem o Senado,
conseguiram aprovar uma linha de lei para enquadrar banqueiro ou para
regulamentar o sistema financeiro.
“Os bônus são ofensivos”, afirmou à rede ABC o assessor de Obama, David
Axelrod. “O que é mais ofensivo é que não vimos até agora aumento do crédito
que deveríamos ter”, completou. Ao contrário, dos bônus para banqueiro, o
crédito ao consumidor vem caindo seguidamente. Há pelo menos sete meses,
segundo Mike Withney. Em julho, o total de empréstimos despencou US$ 19
bilhões, seguido por US$ 12 bilhões em agosto. O agravamento do arrocho de
crédito pode ser visto pelos dados de MarketWatch: ... “os bancos dos EUA
estão reduzindo seus empréstimos à mais veloz taxa já registrada ... o total
de empréstimos nos bancos comerciais nos últimos três meses caiu a uma taxa
anualizada de 19%; os empréstimos às empresas despencaram [no período] a um
passo anualizado de 28%. Sem falar que bancos e operadoras de cartão de
crédito tornaram mais rígidos os padrões para empréstimo, e o crédito para
as pequenas empresas secou.
ANTONIO PIMENTA
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