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Observações do
presidente Lula sobre o “tchó cultural”
Não se pode dizer
que o presidente Lula esteja exultante com os resultados da atuação do
Ministério da Cultura, ao longo de seus dois governos.
No discurso feito
por ocasião do anúncio do programa Vale Cultura (SP – 23/07/2009, ver ao lado)
ele não poderia ter sido mais explícito ao abordar alguns dos principais
problemas que foram agravados pela insistência das autoridades da área em
reforçar o tirânico controle de meia dúzia de monopólios externos sobre o que
passa e o que toca nos cinemas, televisões e rádios do país.
O presidente afirma
que “o bom filme brasileiro fica peregrinando sem nunca entrar à porta da
rede verdadeira de cinema”, mas poderia ter dito o mesmo em relação à
produção musical das gravadores brasileiras, que enfrenta dificuldades
semelhantes para chegar ao público.
Warner, FOX, Sony
(Columbia e Metro), Disney, Paramount e Universal controlam 90% do que chega às
telas de cinema - e mais quando se fala de TV aberta e TV por assinatura.
Sem se tratar de
mera coincidência, 90% do que toca no rádio e na televisão (música americana e
brasileira de baixa qualidade) são lançamentos da Warner, Universal, Sony e Emi.
As quatro gravadoras
controlam o espaço de exibição pública dentro do nosso país pagando jabá para
que as suas produções sejam tocadas e repetidas à exaustão pelas rádios e canais
de televisão. Mas sonham com “melhores dias” em que possam monopolizar, sem
intermediários, toda a cadeia que vai da gravação à exibição.
No caso do cinema,
os grandes estúdios montaram mega-distribuidoras, responsáveis pelas cópias e
pela publicidade milionária dos lançamentos. Estas absorvem a produção dos
estúdios menores, enquanto aperfeiçoam diuturnamente a arte de seduzir os
exibidores. Por exemplo: “te dou o Homem Aranha, mas você vai ter que levar
também um pacote de filmes do nosso catálogo, que eu mesmo vou selecionar,
pessoalmente”.
Como se não bastasse
tamanha gentileza, 28,2% das salas de cinema do Brasil – as que concentram 42%
do público - estão nas mãos de duas corporações norte-americanas, Cinemark e
National Amusent, que não se instalaram aqui movidas pelo interesse de reforçar
o cinema brasileiro, ainda que essas salas tenham sido montadas em grande parte
com recursos do BNDES. Em 2003 as duas redes controlavam 21,1% das salas e 30,5%
do público.
Assim como as
grandes gravadoras são cada vez mais simples departamentos de algum conglomerado
do entertainment, estes, por sua vez, vão se transformando em partes integrantes
de grandes trustes que atuam simultaneamente nas áreas de mídia, informática,
operação e produção de equipamentos de telecomunicações, bancos e o que mais se
queira imaginar.
Os quatro maiores
canais de televisão dos EUA - CBS, ABC, NBC e FOX - estão incorporados a esses
conglomerados, assim como os principais canais de TV por assinatura, grandes
estúdios cinematográficos e gravadoras.
A convergência
digital e mais do que ela a concentração do capital empurram “produtores de
conteúdo” a buscarem o controle dos meios de exibição, e produtores de
equipamentos, prestadores de serviços e controladores dos meios de exibição a
tentarem monopolizar a “produção de conteúdo”.
Nessa briga de
foice, seis mega-corporações ocupam o topo da cadeia alimentar. Uma rápida e
incompleta panorâmica sobre seus domínios dá idéia da razão pela qual, como diz
o presidente Lula, o bom filme brasileiro quase não aparece nas telas dos
cinemas e das televisões que existem no Brasil.
Time Warner Inc:
Além da Warner Bros., integram o conglomerado o provedor de serviços de internet
AOL, o Netscape, o ICQ, os canais de televisão CNN, HBO, Cinemax, TCM, TNT,
Cartoon Network (Hanna Barbera), a rede de televisão aberta The CW, a Time
Warner Cable, as revistas Time, People, Sports Illustrated, Mad, Fortune e a DC
Comics.
NBC Universal Inc:
Controlada pela General Eletric, é integrada pela rede de televisão NBC,
estúdios da Universal, 10 canais de TV a cabo, entre os quais USA Network, Sci
Fi, Bravo e Kids.
Viacom:
Controla a Paramount, a DreamWorks e 30 emissoras de TV aberta nos EUA, entre as
quais a CBS, além da MTV, VH1, M2, Nickelodeon, Showtime, TV Land, o canal
Comedy Central e a Blockbuster - cadeia de venda e locação de dvds, com
8.200 lojas em 26 países. Seu proprietário Summer Redstone também é dono da
National Amusements, empresa que possui 1.600 salas de cinema, inclusive as 148
da UCI no Brasil.
News Corporation
Inc:
Inclui as operadoras de TV por assinatura SKY e Direct TV, o estúdio de cinema
20th Century Fox, a rede de TV FOX, a Dow Jones, o Wall Street Journal. Diz a
lenda que seu proprietário, Rupert Murdoch, possui 789 empresas em 52 países.
Disney Corporate:
É proprietária da Walt Disney Pictures, da Miramax Films, da distribuidora Buena
Vista, da ABC - maior rede de televisão dos EUA. Também controla o Disney
Channel, Jetix, History Channel, A&E Television, E! e a família de canais de
esporte ESPN. Adquiriu a Marvel Entertainment por US$ 4 bilhões.
Sony: Fabrica produtos eletrônicos, é proprietária
dos estúdios da Columbia Tri-Star, da Metro-Goldwyn-Mayer e United Artists -
ambos em parceria com a operadora de TV a cabo Comcast Corporation -, das
gravadoras Sony Music e BMG, além dos canais de TV por assinatura Sony
Entertainment Television e AXN. Em 2001 formou com a sueca Ericsson uma holding
para a produção de telefones celulares com o nome Sony-Ericsson.
Com uma cota de tela
de apenas 28 dias de exibição obrigatória de filmes brasileiros nos cinemas, por
ano – a da França é cinco vezes maior -, de nenhum dia na televisão e sem
qualquer apoio do Estado na esfera da distribuição, como havia na época da
Embrafilme, o produtor nacional não tem chance alguma de encarar os monstrengos
e garantir que seus filmes possam ser vistos pelo público.
A situação é tão
calamitosa que se considerarmos o ano de 2009, até o final do mês de agosto,
período em que a participação do cinema brasileiro no mercado saltou para 16,4%,
apenas quatro dos 52 filmes lançados ficaram com 82,6% dos 12.809.731
espectadores que assistiram a filmes nacionais. Os 48 filmes restantes ficaram
com 17,4% do público, ou seja, menos de 50 mil espectadores, em média, por
filme, o que em matéria de indústria cinematográfica significa um resultado
igual a zero.
A participação do
cinema brasileiro cresceu 163,7%, em relação ao mesmo período de 2008, mas a
exclusão aumentou. Como é possível?
Há quem diga, mal
disfarçando o riso, que o problema está nos filmes - uns interessam mais, outros
menos. Os bem sucedidos seriam aqueles capazes de sintonizar o “gosto do
público”. Porém, como é possível aferir o interesse do público quando há filmes
lançados em 300 salas, com vasta campanha publicitária, e filmes lançados em
três salas, sem nenhuma publicidade?
A combinação
perversa entre uma cota de tela irrisória, isenções fiscais às distribuidoras
estrangeiras para entrarem na produção de filmes nacionais – o famigerado artigo
3º da Lei do Audiovisual - e alto preço do ingresso só poderia produzir um
aleijão desse tipo.
Graças ao Minc e à
Ancine, os seis pobres trustes internacionais estão podendo, desde 2005,
produzir filmes brasileiros a custo zero para ocupar o espaço que a lei reserva
à exibição obrigatória de filmes nacionais. Esta foi a solução das ditas
autoridades para que o cinema brasileiro chegue às telas: ser produzido por
estrangeiros, com o nosso dinheiro - e pela Globo, que segue, à vista de todos,
se valendo de laranjas para morder recursos da Lei do Audiovisual.
O resultado é que
nos quatro filmes nacionais que absorveram 82,6% dos espectadores, de janeiro a
agosto, estão respectivamente carimbadas as marcas da FOX, da Warner, da Globo
e da Sony.
O presidente afirma
ser necessário que “não haja monopólio da distribuição de filmes neste país” e
diz também que “o governo não vai estatizar cinema, nem vai fazer salas de
cinema públicas”.
A única forma de
impedir que os seis trustes continuem monopolizando a distribuição de filmes no
Brasil é o Estado criar uma grande distribuidora.
Não existe nenhuma
outra solução, e o presidente ganharia um tempo precioso se batesse um papo com
os ministros Celso Amorim e Samuel Pinheiro, que estão ali do lado e são do
ramo.
O cerne da questão
está na distribuição. Mas dado o grau de desnacionalização do setor de exibição
não se pode descartar a possibilidade desta distribuidora estatal ser forçada a
entrar também na área da exibição. Por que só a Viacom deveria ter esse direito?
Tomando esta
providência, só faltaria ao presidente Lula não esquecer - quando a Ancine
levar-lhe a proposta do número de dias para a cota de tela de 2010 - que em 2004
ela era de 63 dias, ao invés de 28.
Seria um bom começo.
SÉRGIO RUBENS |