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Os principais
trechos do discurso
Do projeto das
Casas de Cultura ao “tchó”
Eu brinco sempre que fiz a campanha
prometendo, em cada cidade, uma Casa de Cultura... está lembrado? Depois, nós
fizemos o primeiro projeto da Casa de Cultura, era para ser financiado por
algumas empresas. A Petrobras se propôs a financiar as primeiras 50. Imaginem se
ela tivesse financiado, os que querem CPI iam querer saber se as Casas de
Cultura estavam gastando demais ou gastando de menos. Mas o dado concreto é que
não deu certo, porque o arquiteto que queria construir era o nosso companheiro
da Bahia, o Lelé. E aí teve uma briga e não conseguimos fazer. Bom, da Casa de
Cultura foram surgindo outras coisas, outras coisas, até chegar ao Ponto [de
Cultura].
Aí eu conto uma história para vocês, que é
fantástica: um cidadão tinha achado uma mola grande, daquelas de caminhão, que
todo cara quer ter para fazer um facão. Ele, então, pegou a mola e queria fazer
uma espada. Levou no ferreiro, o ferreiro acendeu lá o forno, ficou vermelho o
aço, meteu a marreta no aço para fazer a espada. Aí, quando o cara veio buscar,
o ferreiro falou: “Olhe, não deu para fazer a espada, eu acho que bati demais, o
ferro encolheu. Mas eu vou fazer para você um facão”. E aí colocou o ferro no
fogo, esquentou, bateu a marreta na bigorna. O cara voltou para buscar o
facão... “olha, estraguei, não deu, eu posso fazer um punhal?” “Pode”. O cara
foi embora. O outro meteu o ferro no fogo, esquentou, meteu na bigorna, meteu a
marreta, meteu na água. O cara voltou e ele falou: “Olhe, não deu. Eu posso
fazer um “tchó”? O cara não perguntou, o cara falou: “Bom, eu já perdi toda
minha mola. Pode fazer um “tchó”. E aí o cara falou: “Pode esperar aí que o
“tchó” vai sair já”. Meteu o ferro no fogo, e quando estava vermelho pôs na água
e fez “tchó”.
Distribuição
monopolizada exclui filmes brasileiros
Eu estou dizendo isso porque imaginava uma
Casa de Cultura... eu imaginava quase que um quarteirão, viu, Juca? Imaginava um
quarteirão com cinema, com teatro, com sala de computador, com pista de dança,
com lugar para tomar cerveja, eu imaginava... com gente tomando conta, eu
imaginava. E nós terminamos fazendo o Ponto de Cultura, que não tem o mesmo
tamanho da minha Casa de Cultura, mas tem uma importância extraordinária para a
cultura brasileira e para a periferia deste país. Possivelmente, o “tchó” fosse
a minha Casa de Cultura. Mas a verdade é que vocês sabem que não é possível este
país continuar tendo o nosso cinema produzindo coisas de tão boa qualidade e a
distribuição ser de tão má qualidade, porque nós não temos sala de cinema. E as
distribuidoras, normalmente, são grandes distribuidoras, e muitas vezes o bom
filme brasileiro fica peregrinando sem nunca entrar à porta da rede verdadeira
de cinema. Essa é uma deficiência, Juca, que nós vamos precisar fazer um debate
muito forte, de como é que vamos reativar essa atividade extraordinária.
Vale cultura
não resolve o problema principal
Aí vale para o teatro também. Ou seja, o
pobre, na medida em que é escorraçado – porque eu não sei se vocês perceberam, a
cada metro de asfalto que se faz na periferia, o pobre vai sendo escorraçado um
pouco mais para trás – cada vez fica mais difícil ir para o cinema.
Agora, em vez de a gente querer trazer a
pessoa da periferia para vir ao centro de São Paulo para ver um filme, seria
melhor levar um cinema para a periferia, seria melhor construir.
O centro está virando cada vez mais
escritórios, os poucos seres humanos que moram no centro vão cada vez subindo um
pouco mais, porque cada vez o apartamento vai ficando mais alto, e o pobre vai
sendo espalhado. Então, como é que a gente faz para levar esses benefícios
culturais lá? Imaginar que um cidadão vai se levantar lá nos confins do Judas,
pegar um ônibus, dois ônibus, para vir ao centro de São Paulo ver um filme é, no
mínimo, não saber o conforto de ficar sentado na frente de uma televisão sem
fazer nada. Como é que a gente vai criar esse incentivo de fazer com que... não
vamos esperar que os empresários vão fazer ou que o governo vai estatizar. O
governo não vai estatizar cinema, nem vai fazer salas de cinema públicas. O que
nós precisamos é tentar descobrir uma política de incentivar a construção das
coisas lá, desde que a gente tenha uma legislação que obrigue os bons filmes
também a chegarem lá naquela sala e que não haja monopólio da distribuição de
filmes neste país.
A cultura tem
de ir aonde o povo está
Agora, o que fazer? É ver o que eu posso
fazer nesse programa que a Dilma coordena, Minha Casa, Minha Vida, 1 milhão de
casas. Daqui a pouco vai ter conjunto habitacional de 10 mil casas, 5 mil casas.
Ali pode ter uma salinha para um cinema? Porque, senão, as pessoas vão morar a
quilômetros da cidade e nunca vão poder ir ao cinema.
Eu lembro no tempo do CinemaScope, eu ia na
Avenida São João, no Cine Comodoro, estão lembrados? Era o Cine Comodoro, não
era, que tinha? Nós não temos mais isso. Os cinemas estão cada vez mais lotados,
mas cada vez menores.
Um cineminha, Barreto, pelo menos para quando
você terminar o meu filme, a gente ter onde ver, meu filho! Pelo amor de Deus!
Ou você vai querer fazer a estréia em um cineminha de 30 lugares? Não dá nem
para os convites oficiais que eu vou fazer. E se a Zezé Motta começar a duplicar
a nominata, aí é que não vai caber gente mesmo.
Da pouca
eficácia dos incentivos fiscais
Então, esse é um desafio para nós. Eu
confesso a vocês que não sei como fazer. Mas penso que nós temos que pensar.
Está cheio de empresário aí, cheio de boa vontade. Está cheio de empresários
que, com a Lei Rouanet, produzem aqueles livros... Eu não sei, são uns livros de
fotografia que ninguém vê. Uns livros “dessa grossura”, pesados para “desgrama”,
e ainda dizem que são eles que produzem. Eu, de vez em quando, vejo o Centro
Cultural Itaú, não sei das quantas... nem sabem que fomos nós que fizemos aquilo
lá, que nós pagamos aquilo lá, porque as pessoas se apoderam das coisas dos
outros e falam: “É meu”. Aquilo não tem um centavo do lucro do Itaú, é tudo
dedução do Imposto de Renda do povo brasileiro...
Outro dia, nós fizemos uma lei que isentava as
editoras de pagar imposto sobre os livros. Depois de um ano e pouco, me
avisaram: “Olha, Presidente, não diminuiu o preço do livro”. Ou seja, os
impostos que foram retirados não passaram ainda para o comprador de livros. Esse
é um problema que a sociedade precisa acompanhar porque às vezes você faz a
coisa, mas na ponta ela não acontece. |