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O
censo e o bom senso: hora de investir na agricultura familiar
ELISÂNGELA
ARAÚJO*
“No
Censo Agropecuário 2006, foram identificados 4.367.902 estabelecimentos da
agricultura familiar, o que representa 84,4% dos estabelecimentos
brasileiros. Este numeroso contingente de agricultores familiares ocupava
uma área de 80,25 milhões de hectares, ou seja, 24,3% da área ocupada pelos
estabelecimentos agropecuários brasileiros. Estes resultados mostram uma
estrutura agrária ainda concentrada no País: os estabelecimentos não
familiares, apesar de representarem 15,6% do total dos estabelecimentos,
ocupavam 75,7% da área ocupada. A área média dos estabelecimentos familiares
era de 18,37 hectares, e a dos não familiares, de 309,18 hectares”
“A
agricultura familiar é responsável por garantir boa parte da segurança
alimentar do País, como importante fornecedora de alimentos para o mercado
interno”
A
estrutura produtiva da agricultura familiar, Censo Agropecuário do IBGE
O
recém-divulgado Censo Agropecuário do IBGE estampa com amostragens,
estatísticas e números que falam por si, o que a nossa Federação dos
Trabalhadores da Agricultura Familiar (Fetraf) afirma, com razão e orgulho,
há muito tempo: somos as mãos que alimentam o Brasil.
Apesar
da falta de estímulo, da escassez de crédito e da limitada assessoria
técnica, são os agricultores familiares os responsáveis pela segurança
alimentar e nutricional do povo brasileiro, servindo mais de 70% da
população, apesar de contar com financiamento de R$ 15 bilhões, enquanto o
agronegócio, multiplicador de mazelas, conta com polpudos R$ 93 bilhões.
Conforme o IBGE, enquanto os estabelecimentos rurais inferiores a 10
hectares ocupam menos de 2,7% da área total ocupada pelos estabelecimentos
rurais, os com mais de mil hectares concentram mais de 43% da área total.
Vale
lembrar que guiado unicamente pelos cifrões, o agronegócio prioriza produção
de grãos para o mercado externo, sendo altamente contaminador do meio
ambiente com seus pesticidas e irresponsavelmente poupador de mão de obra.
Ainda assim, abocanha a maior parte dos investimentos públicos, sendo
premiado pelo financiamento a monoculturas como soja - cujo plantio cresceu
88% entre 1996 e 2006 -, cana de açúcar ou eucalipto, numa completa inversão
de qualquer lógica, atentando contra a justiça distributivista.
É do
nosso suor que, faça chuva sol ou chuva, enfrentando de seca a inundação, se
origina 87% da produção nacional de mandioca, 77% do feijão-preto, 84% do
feijão-fradinho, caupi de corda ou macáçar e 54% do feijão de cor, 46% do
milho, 38% do café, 34% do arroz, 58% do leite de vaca e 67,0% do leite de
cabra. Não é à toa que a cultura com menor participação da agricultura
familiar foi a da soja (16%), um dos principais produtos da pauta de
exportação brasileira.
Auxiliando no combate ao êxodo rural e afirmando um novo modelo de
desenvolvimento, auto-sustentável e baseado em laços de solidariedade e
complementaridade, utilizando predominantemente mão-de-obra da própria
família, em áreas inferiores a 40 hectares em áreas próximas a grandes
densidades urbanas, ou até 100 em áreas de vocação rural, somos os
responsáveis por 59% do plantel de suínos, 50% do plantel de aves e 30% dos
bovinos.
Com a
autoridade dos que fazem muito com pouco, combatendo as limitações, mas
reconhecendo os avanços do último período, realizaremos nos próximos dias
28, 29 e 30, em Luziânia-Goiás, o II Congresso da Agricultura Familiar, com
o objetivo de consolidar nossa organização, com unidade e mobilização,
fortalecendo esta luta, que é de todos os brasileiros. Precisamos efetivar
de uma vez por todas a reforma agrária, superar os problemas da legislação e
os entraves jurídicos que emperram os processos que se arrastam por anos a
fio até que uma área seja liberada.
O que
os reacionários e neoliberais veem como entrave demonstramos - e comprovamos
nos resultados e pelo próprio censo - que é uma alternativa viável,
palpável, concreta. Daí a importância de sensibilizarmos a sociedade e o
governo para aumentar o volume de recursos ao setor, investindo na ampliação
de geração de emprego e renda, particularmente no Norte e no Nordeste, onde
ainda dependem de programas de transferência de renda.
A
visão preconceituosa e machista em relação ao setor também é desmentida pelo
censo: “as pessoas experientes com dez anos ou mais de direção nos trabalhos
eram a maioria (62%) na condução da atividade produtiva da agricultura
familiar, enquanto os estabelecimentos dirigidos por pessoas com menos de
cinco anos de experiência representam apenas 20%”. Há um outro aspecto que
revela a importância de se dar maior atenção à questão feminina: “pouco mais
de 600 mil estabelecimentos familiares (13,7%) eram dirigidos por mulheres,
enquanto na agricultura não familiar esta participação não chegava a 7%”.
Uma
bandeira de luta bastante cara à Fetraf é o limite da propriedade da terra e
da atualização dos índices de produtividade, já que perpetuando os atuais
não se consegue mais desapropriar, mantendo o latifúndio improdutivo
intocável, assim como suas mazelas econômicas, sociais e ambientais. É
preciso pôr fim à irracional destruição da natureza, à transformação de
florestas em pastagens, à devastação que, em somente uma década, cresceu
75,8% em Rondônia, torrando - literalmente - 1,9 milhão de hectares e outros
55,3% no Pará, com a queima de 3,2 milhões de hectares.
Finalmente, mas não menos importante, está a nossa mobilização contra a
ameaça, terrível e devastadora, da estrangeirização, principalmente na
Amazônia. É impossível pensar em um projeto de desenvolvimento sustentável
sem soberania nacional, com a entrega do controle sobre parcelas
substanciais do nosso território, onde se garante o acesso e uso de porções
das nossas melhores terras e das nossas águas a estrangeiros.
Neste
momento extremamente rico, afirmamos o papel do Estado como indutor do
desenvolvimento sustentado e sustentável, centrado na valorização do
trabalho, na distribuição de renda, na geração de emprego, no acesso à terra
a quem nela mora e trabalha, no direito das gerações presentes e futuras a
construírem, coletivamente, um novo tempo sem exploração, precarização nem
concentração de riqueza. Que possamos contribuir, mais uma vez, para
aproximar esta primavera dos povos, garantindo a todos os frutos do seu
trabalho.
*Coordenadora da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf) |