|
Uma revolução na
filosofia (3)
“A análise
crítica dos sistemas filosóficos deve ter um objetivo. As opiniões e ideias
filosóficas há bastante tempo derrotadas e enterradas não merecem muita atenção.
Pelo contrário, com particular rigor devem ser criticados os sistemas e ideias
filosóficas que, apesar de seu reacionarismo, ainda têm curso e são utilizados
pelos atuais inimigos do marxismo”, afirmou Zhdanov sobre o livro “História da
Filosofia Ocidental”, de Georgy Alexándrov, na parte do texto que publicamos
hoje
ANDREI ZHDANOV
Continuação da edição anterior
Sobre quase todos os
velhos filósofos o camarada Alexándrov encontra oportunidade de dizer palavras
amáveis. Quanto maior é o filósofo burguês, mais incenso lhe oferece. Tudo isso
leva o camarada Alexándrov, possivelmente mesmo sem o suspeitar, a tornar-se
cativo dos historiadores burgueses da filosofia, os quais partem do princípio de
ver em cada filósofo, antes de tudo, um aliado de profissão, logo depois um
adversário. Tais concepções, se se desenvolvessem entre nós, inevitavelmente nos
conduziriam ao objetivismo, ao servilismo em face dos filósofos burgueses e à
exaltação de seus méritos, privando nossa filosofia de seu espírito combativo e
agressivo. Mas isto significaria o abandono do princípio fundamental do
materialismo, isto é, do seu ponto de vista de partido. Entretanto, Lenin nos
ensinou que:
“o materialismo encerra em si, por assim
dizer, uma posição de partido que nos obriga, em qualquer apreciação de um
acontecimento, a tomar direta e abertamente o ponto do vista de um determinado
grupo.” (V. I. Lenin, Obr. Compl., T. I, pág. 276, em russo).
A exposição das concepções filosóficas no
livro é feita abstratamente, objetivamente, neutramente. As escolas filosóficas
são expostas no livro, uma depois da outra, ou uma ao lado da outra, mas não em
luta uma contra a outra. Isto é também “concessão à tendência” acadêmica e
professoral. Não é por acaso, como veem, que, nessa ligação, a tese do princípio
de partido em filosofia não foi, absolutamente, adotada pelo autor. Na qualidade
de exemplo do partidarismo em filosofia, o autor apresenta a filosofia de Hegel
e descreve a luta das filosofias inimigas como sendo a luta entre os princípios
reacionários e progressistas... dentro da própria filosofia de Hegel. Tal método
de demonstração é não somente ecletismo objetivista, mas também uma clara
condescendência para com Hegel, porquanto por esse método pretende provar que
sua filosofia contém tanto de progressismo quanto também de reacionarismo. Para
finalizar esta questão, acrescento também que o método aconselhado pelo camarada
Alexándrov de apreciação dos diferentes sistemas filosóficos - “igualmente com
méritos existem também defeitos” (vide pág. 7 do livro de Alexándrov) ou
“importante significação tem do mesmo modo tal e tal teoria” - sofre de extrema
falta de determinação, é metafísico, e somente é capaz de emaranhar o assunto. É
incompreensível porque o camarada Alexándrov necessitou fazer concessões às
tradições científicas acadêmicas das velhas escolas burguesas e esquecer a tese
fundamental do materialismo, que exige a irreconciliabilidade na luta contra os
seus adversários.
MÉTODO
MATERIALISTA DIALÉTICO
Ainda uma observação. A análise crítica dos
sistemas filosóficos deve ter um objetivo. As opiniões e ideias filosóficas há
bastante tempo derrotadas e enterradas não merecem muita atenção. Pelo
contrário, com particular rigor devem ser criticados os sistemas e ideias
filosóficas que, apesar de seu reacionarismo, ainda têm curso e são utilizados
pelos atuais inimigos do marxismo. Aqui, referimo-nos particularmente ao
neo-kantismo, às teologias, às velhas e novas edições do agnosticismo, às
tentativas de introduzir Deus, sub-repticiamente, de contrabando, nas ciências
naturais contemporâneas, e também de qualquer outra mixórdia que tenha por
finalidade retocar e colorir a mofada mercadoria idealista para consumo do
mercado. Enfim, a todas as ideias desse conhecido estoque, que, na época
contemporânea, os lacaios filosóficos do imperialismo põem em circulação para
apoiar seus amos assustados.
Na introdução é tratada, igualmente de forma
incorreta, a concepção sobre as ideias reacionárias e progressistas e os
sistemas filosóficos. Embora o autor também faça restrições em torno das
questões sobre o reacionarismo ou o caráter progressista desta ou daquela ideia
ou sistema filosófico, elas devem ser resolvidas de forma concreta e histórica.
O autor, porém, persistentemente, ignora a conhecida tese do marxismo de que uma
mesma ideia, em diferentes condições históricas e concretas, pode ser
reacionária ou progressista. Tergiversando nesta questão, o autor abre brecha
para a introdução, de contrabando, da concepção idealista das ideias que são
colocadas acima da história.
O autor, mais adiante, corretamente assinala
que o desenvolvimento do pensamento filosófico, em última análise, é determinado
pelas condições materiais de vida da sociedade e que o desenvolvimento do
pensamento filosófico tem somente uma relativa independência. Mas, ao mesmo
tempo, repetidamente, viola essa tese fundamental do materialismo científico, e
frequentemente se esquece, na sua exposição dos diferentes sistemas filosóficos,
da tese das condições históricas e concretas e das raízes sociais de classe
desta ou daquela filosofia.
Tal é o caso, por exemplo, da exposição sobre
os pontos de vista de Sócrates, Demócrito, Spinoza, Leibnitz, Feuerbach e
outros, que, certamente, não é científica, e dá motivo à suposição de que o
autor, confundindo-se, passou a adotar o ponto de vista da independência do
desenvolvimento das ideias filosóficas, que pairam acima da história, o que
constitui, aliás, a característica distintiva da filosofia idealista.
A ausência de ligação orgânica entre este ou
aquele sistema filosófico e as condições concretas e históricas verifica-se
constantemente, mesmo nos trechos em que o autor tenta analisar essas condições.
Como resultado disso, temos uma ligação puramente mecânica, e não uma ligação
orgânica e essencial. Partes e capítulos em que são interpretadas as concepções
filosóficas de época, correspondentes a partes e capítulos dedicados à exposição
das condições históricas, giram em torno de um mesmo ponto de vista, mas a
própria exposição dos dados históricos, as ligações causais entre a base e a
superestrutura, como cânone, é apresentada de forma científica, mas
desordenadamente, e não oferece material para análise, antes representa uma má
investigação.
Tais são, por exemplo, a introdução e o
capítulo VI, sob o título “A França no Século XVIII”, que são um cúmulo de
ininteligibilidade e de nenhuma forma esclarecem a fonte das ideias da filosofia
francesa do século XVIII e início do século XIX. Como consequência disso, as
ideias dos filósofos franceses perdem suas ligações com a época e começam a
figurar como um certo fenômeno independente. Permitam-me recordar esta passagem
do livro:
“Começou a França, nos séculos XVI-XVII,
depois da Inglaterra, gradualmente, a entrar no caminho do desenvolvimento
burguês. As fundamentais transformações na economia, na política e na ideologia
levaram um século para se realizar. O país, embora ainda estivesse também
completamente atrasado, já começava, porém, a libertar-se de seu consolidado
feudalismo. Da mesma forma que muitos outros Estados europeus daquele tempo, a
França também entrava no período da acumulação capitalista primitiva.
“Em todos os setores da vida social,
rapidamente se formava a nova ordem social-burguesa, surgia nova ideologia, nova
cultura. Por esse tempo, se inicia na França o rápido crescimento das cidades,
como Paris e Lyon, Marselha e Havre; constrói-se poderosa frota marítima. Uma
depois da outra, organizam-se as companhias comerciais, internacionais, que
preparam expedições armadas, com o que conquistaram numerosas colônias.
Rapidamente cresce o comércio. Nos anos de 1784-1788, o movimento do comércio
externo atingiu 1.011,6 milhões de libras, excedendo mais do que quatro vezes o
dos anos de 1716-1720. O desenvolvimento do comércio foi ajudado pelo pacto de
Aachen (1748), e também pelo tratado de Paris (1763). Particularmente
demonstrativo é o comércio de livros. Assim, por exemplo, no ano de 1774, o
movimento do comércio de livros na França chegou a ser de 45 milhões de francos,
enquanto na Inglaterra era de somente 12-13 milhões de francos. Nas mãos da
França, encontrava-se cerca da metade do estoque de ouro que possuía a Europa.
Entretanto, a França permaneceu ainda como país agrário. A imensa maioria de sua
população se ocupava com a agricultura” (págs. 315-316)”.
Isto, certamente, não é uma análise, mas uma
simples catalogação de alguns fatos, expostos, não em ligação de uns com outros,
mas, simplesmente, uns ao lado de outros. Isto, por si mesmo, evidencia que
estes dados sobre a “base” não continham, é verdade, e não podiam conter,
quaisquer características da filosofia francesa, cujo desenvolvimento se realiza
como que separado das condições históricas na França daquele tempo.
Tomemos, mais adiante, a título de exemplo, a
descrição do aparecimento da filosofia idealista alemã, tal como é apresentada
no livro de Alexándrov. Ele escreveu:
“No século XVIII e primeira metade do século
XIX, a Alemanha era um país atrasado, com um regime político reacionário. Nela,
dominavam as relações de servidão feudal e corporações de ofícios. No fim do
século XVIII, a população das cidades não alcançava 25%, e os ofícios ocupavam
somente 4% de toda a população. A corveia, as taxas, a servidão, os privilégios
das corporações impediam o desenvolvimento das relações capitalistas, que
começavam a surgir. Acrescente-se, ainda, que no país reinava uma excessiva
divisão política”.
Encontra-se, na citação de Alexándrov, a
percentagem da população citadina da Alemanha, que deve, segundo sua opinião,
ilustrar o atraso desse país e o reacionarismo de seu governo e de seu regime
político-social. No entanto, nesse tempo a população citadina da França se
compunha de menos 10% do que a da Alemanha, embora a França não fosse um
atrasado país feudal, como era a Alemanha, e sim o centro do movimento
revolucionário burguês na Europa. Por consequência, a percentagem da população
citadina, por si mesma, nada esclarece ainda; mais do que isso, ela própria deve
ser esclarecida pelas condições históricas e concretas. Isto, do mesmo modo, é
exemplo do insucesso do autor na utilização do material histórico para a
elucidação do nascimento e desenvolvimento destas ou daquelas formas de
ideologia.
Mais adiante, Alexándrov escreve:
“Os mais conhecidos ideólogos da burguesia
alemã daquele tempo — Kant, depois Fichte e Hegel —, nos sistemas filosóficos
idealistas que criaram, exprimiram de forma abstrata, condicionada pela
limitação da realidade alemã, a ideologia da burguesia alemã daquela época”.
Comparemos esta exposição dos fatos, fria,
indiferente e objetivista, por meio da qual não se podem compreender as causas
do nascimento do idealismo germânico, com a análise marxista das condições
daquele tempo na Alemanha, exposta num estilo vivo, combativo, que comove e
convence o leitor. Eis, como Engels caracterizava essas condições na Alemanha:
“Esta era uma massa em estado de putrefação,
e que se corrompia. Ninguém se sentia bem. Os ofícios, o comércio, a indústria e
a agricultura estavam reduzidos ao mínimo. Os camponeses, os comerciantes e
artesãos sofriam dupla opressão: governo sanguinário e más condições para o
comércio. A nobreza e os príncipes achavam que seus lucros, apesar de todos eles
arrancados de seus súditos, não deveriam diminuir em face de suas despesas
crescentes. Tudo era ruim e no país dominava um descontentamento geral. Não
havia instrução, meios de influência sobre a inteligência das massas, liberdade
de imprensa, opinião pública, nem havia qualquer comércio importante com outros
países; em toda parte, somente sujeira e egoísmo, por consequência todo o povo
foi impregnado por um espírito mercantil baixo, servil e odioso; corrompia-se,
vacilava, pronto para ruir; e não se poderiam esperar mudanças benéficas, porque
o povo já não possuía a força com que poderia varrer os cadáveres putrefatos das
instituições mortas”. (K. Marx-F. Engels, Obras Comp., T. V, págs. 6-7, em
russo).
Comparem esta caracterização de Engels,
clara, penetrante, exata, profundamente científica, com a caracterização que
fornece Alexándrov, e vereis como o camarada Alexándrov se utiliza mal do
material de inesgotável riqueza que nos foi deixado pelos fundadores do
marxismo.
Desse modo, o autor não resolveu o problema
da utilização do método materialista para a exposição da história da filosofia,
e isto tira do livro o seu caráter científico e transforma-o, em considerável
medida, numa descrição biográfica dos filósofos e de seus sistemas filosóficos,
considerados fora das condições históricas. O que é resultado de ter o autor
infringido o princípio do materialismo histórico, que ensina:
“É preciso investigar em detalhe as condições
de existência das diferentes formações sociais, antes de tentar extrair delas as
correspondentes concepções políticas, de direito privado, estéticas,
filosóficas, religiosas, etc.” (Carta de F. Engels a Schmidt, 5 de agosto de
1890, Karl Marx e F. Engels, Cartas Escolhidas, 1947, pág. 421).
Também obscura e insuficientemente, o autor
formula os objetivos do estudo da história da filosofia. Em parte alguma do
livro, o autor sublinha que um dos problemas fundamentais da filosofia e de sua
história é o ulterior desenvolvimento da filosofia como ciência, o descobrimento
de novas leis de desenvolvimento, a verificação de suas teses na prática, a
substituição das teses, que se tornam caducas, por novas. O autor toma como
ponto de partida, principalmente, a significação pedagógica-educativa da
história da filosofia; baseia-se nos problemas instrutivo-culturais, para dar,
dessa forma, a todo o estudo da história da filosofia um caráter passivamente
contemplativo, acadêmico. Isto, certamente, não corresponde à definição
marxista-leninista da ciência filosófica, que, tal como qualquer outra ciência,
deve ininterruptamente desenvolver-se, aperfeiçoar-se e enriquecer-se com novas
teses, rejeitando as caducas.
O autor, concentrando a sua atenção sobre o
aspecto instrutivo do livro, com isso limita o desenvolvimento da ciência, como
se o marxismo-leninismo já tivesse atingido o seu teto, donde o problema do
desenvolvimento de nossa doutrina já não constitui a principal tarefa. Tal
raciocínio contradiz o espírito do marxismo-leninismo, visto que ele começa por
apresentar o marxismo metafisicamente, como doutrina acabada e completa, e isso
só pode conduzir ao esgotamento dos vívidos e perquiridores pensamentos
filosóficos.
FILOSOFIA E
CIÊNCIAS NATURAIS
Assim, vai completamente mal o problema de
esclarecer as questões do desenvolvimento das ciências naturais. Não se pode
expor a história da filosofia, sem cometer uma injúria direta ao espírito
científico, fora de suas ligações com as conquistas das ciências naturais. O
livro do camarada Alexándrov não fornece possibilidade de esclarecer, por força
disso, as condições de nascimento e desenvolvimento do materialismo científico,
que cresceu sobre o fundamento granítico das conquistas contemporâneas das
ciências naturais.
Expondo a história da filosofia, o camarada
Alexándrov conseguiu desligá-la da história das ciências naturais. É
característico que na introdução, onde expõe as bases da orientação do livro, o
autor, nem com uma palavra, se refere à inter-relação da filosofia com as
ciências naturais. Ele silencia sobre as ciências naturais, mesmo quando isso
pareceria completamente impossível. Assim, na pág. 9, o autor escreveu “Lenin,
em seus trabalhos, e particularmente em Materialismo e Empirocriticismo,
elaborou de forma completa e impulsionou bem para a frente essa doutrina
marxista sobre a sociedade”. O camarada Alexándrov conseguiu, falando sobre
Materialismo e Empirocriticismo, passar por cima dos problemas das ciências
naturais e de suas ligações com a filosofia.
Continua na próxima edição. |