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O assalto do grupo
Abril aos cofres públicos na venda de livros ao MEC
Nenhum outro grupo
editorial do país recebeu tantos recursos do Ministério da Educação pela compra
de livros didáticos nos últimos cinco anos como o grupo Abril, segundo fontes do
“Portal da Transparência”, do governo federal
CARLOS LOPES
Nos últimos cinco anos, o Ministério da Educação
repassou para o grupo Abril a quantia de R$ 719.630.139,55 (719 milhões, 630
mil, 139 reais e 55 centavos) por conta da compra de livros didáticos. Foi o
maior repasse de recursos públicos destinados a livros didáticos dentre todos os
grupos editoriais do país. Nenhum outro recebeu, nesse período, tanto dinheiro
do MEC - desde 2004, o grupo da “Veja” ficou com mais de um quinto dos recursos
(22,45%) do MEC para compra de livros didáticos. Nem mesmo o grupo espanhol
Santillana (dono das editoras Moderna e Objetiva), que teve suas vendas ao MEC
turbinadas a partir de 2006, conseguiu emparelhar com os americano-afrikaners
que têm o sr. Bob Civita por seu representante. O máximo que conseguiram foi
chegar a 17,50% dessa verba.

Todos os dados
expostos nesta página têm como fonte o “Portal da Transparência” do governo
federal, mantido pela Controladoria Geral da República. A tabela que
apresentamos mostra o que a Abril recebeu do MEC – e, para comparação, o que
receberam as principais editoras ou grupos editoriais desse ramo. A editora
Globo, por exemplo, recebeu 0,21% dos recursos destinados pelo MEC à compra de
livros didáticos. A Melhoramentos, de vasta história nessa área, recebeu 0,17%.
A Brasiliense, que dispensa maiores (e até menores) apresentações, recebeu
0,20%. A José Olympio, 0,22%. E a Companhia Editora Nacional, outra que todos
conhecem na área de livros didáticos, ficou com 0,30%.
Enquanto isso, a Abril ficou com 22,45%. O
espantoso é que até 2004 o grupo Civita não atuava no setor de livros didáticos.
Nesse ano, o grupo adquiriu duas editoras – a Ática e a Scipione. Por que essa
súbita decisão de passar a explorar os cofres públicos com uma inundação de
livros didáticos? Evidentemente, porque existe dinheiro nos cofres públicos.
O FNDE (Fundo
Nacional de Desenvolvimento da Educação), é uma das principais dotações
orçamentárias do MEC, quando não a maior. Mais da metade dos recursos do FNDE
são gastos na compra de livros didáticos. Assim, 72,64% da verba efetivamente
gasta desse fundo, em 2004, foram para essas compras; em 2005: 72,76%; em 2006:
81,51%; em 2007: 63,68%; e em 2008: 63,47%. A diminuição do percentual nos
últimos dois anos não se deveu a uma redução dos livros comprados. Pelo
contrário, foi consequência de uma maior verba destinada ao FNDE pelo governo
Lula.
Naturalmente, esses recursos, que são do
Estado e do povo brasileiro, têm que ser, não somente fiscalizados, mas
dispendidos de acordo com uma política que contemple os interesses e as
necessidades dos seus donos. Caso contrário, é inevitável que monopólios,
parasitas, aventureiros, para não falar de vigaristas sem qualquer sofisticação,
armem seus expedientes para se apossar do que não é deles.
Quando não há nada que se aproxime de uma
política nacional para o livro didático, não é espantoso que os picaretas do
tipo Civita, e até os de além-mar, sejam os beneficiados na compra de livros
didáticos pelo MEC.
O leitor poderá
conferir na tabela: apenas quatro editoras ou grupos editoriais (Abril,
Santillana, FTD e Saraiva) ficaram com 70,63% dos recursos do FNDE destinados à
compra de livros didáticos.
É verdade que a FTD,
pertencente aos Irmãos Maristas, tem uma longa – e benfazeja – tradição em
livros didáticos e o mesmo pode-se dizer da Saraiva. Mas, o grupo do Civita? Que
tradição tem, que não seja de ignorância, estupidez, amesquinhamento da
cidadania (isto é, golpismo) e sensacionalismo difamatório? O fato de comprar a
Ática e a Scipione não o transforma no campeão dos livros didáticos. Pelo
contrário, transforma a Ática e a Scipione numa sucursal da “Veja” - ou daquela
revista de história (?) dos Civita, que, há alguns anos, ensinava que a
diferença entre os gregos e os persas que no século V a.C. lutaram nas
Termópilas e em Salamina é que os primeiros eram capitalistas ao estilo
americano, enquanto que os segundos ainda estavam no feudalismo...
Não há dúvida que
existem dezenas de editoras neste país em muito melhores condições e com mais
vontade (ou, pelo menos, alguma vontade) de educar as crianças e jovens
brasileiros do que essa trupe que nem sabe falar português correntemente (já
viram o Bob Civita discursando?), que tem como valores morais o
qualquer-coisa-por-dinheiro e, como espírito cívico, o golpismo fascista. Por
que os inimigos do povo deveriam receber dinheiro do povo? E por que o MEC
deveria cevar o monopólio desses elementos?
Mas vá lá, apesar
disso tudo, que o MEC faça alguma média com essa quadrilha. Entretanto, estamos
falando de quase um bilhão de reais – e do açambarcamento da maior parcela da
verba para livros didáticos, o maior negócio editorial do país, mantido com
dinheiro público, dinheiro dos impostos, dinheiro nosso.
Evidentemente, cabe
ao MEC decidir que editoras deseja fortalecer e quais aquelas que, por nocivas
ou patogênicas, têm que ser mantidas sob quarentena. É a isso que se chama uma
política. No momento, nessa questão da compra de livros didáticos, o MEC,
infelizmente, está adotando a política de fornecer dinheiro público para que o
Civita sustente o seu panfleto – pois a “Veja” não é uma revista, meramente é um
panfleto, há quase oito anos voltado contra o Estado e o governo do país, e há
muito voltado contra o povo, que espera que seus filhos estudem em livros
didáticos decentes, não em deformados arremedos para ganhar dinheiro às nossas
custas.
Em suma, as atividades anti-sociais do grupo
Civita são abastecidas com dinheiro público – e nem falamos na publicidade de
órgãos estatais que flui prodigamente para suas revistas. Ficamos apenas nos
livros didáticos, por enquanto.
Exatamente essa
malta, cínica e pendurada no dinheiro público, acusa o MST de ter recebido, de
2003 a 2007, R$ 43 milhões em alguns convênios com o governo federal. O MST, se
é que recebeu esse parco dinheiro, o recebeu para trabalhar, pois é isso o que
significa um convênio – uma parceria com o Estado para realizar tarefas
necessárias à população. O dinheiro de um convênio não é entesourado, mas gasto
no trabalho conveniado com o Estado, de acordo com regras estritas – e o que não
faltam são órgãos, instâncias e mecanismos de fiscalização para verificar como o
dinheiro é gasto, além de ser obrigatória (e pública) a prestação de contas.
Já o Civita,
recebeu, só do MEC, entre 2004 e 2008, R$ 719.630.139,55 – isto é, 17 vezes mais
do que o MST – e não foi para trabalhar, mas para empurrar livros didáticos
duvidosos, e a preço de ouro, pela goela do Estado e no embornal das crianças e
dos jovens. Não há ninguém para fiscalizar o modo como a Abril, ou o seu
preposto, vai gastar o dinheiro ganho com esse empurra-negócio. Se alguém da
cúpula da Abril quiser gastar o dinheiro com um harém – feminino ou masculino –
pode fazê-lo, apesar da origem do dinheiro ser pública. “Ora”, dirá o Civita,
“foi uma venda, e o dinheiro é meu”. Na verdade, não – foi um achaque sobre o
Estado e o dinheiro público.
Diz a senadora Kátia Abreu, com o
brilhantismo que lhe caracteriza, que os supostos R$ 43 milhões em cinco anos
dariam para comprar uma infinidade de cestas básicas e sabe-se lá quantas casas
populares. Parece que ela pesquisou um bocado para saber o preço de uma cesta
básica...
Pois nós, também. Descobrimos o que a senadora
compraria com os 700 milhões que o Civita recebeu do MEC: um escravo de boa
qualidade, uma mucama prendada e dez terninhos de grife. |