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Uma revolução na
filosofia (1)
Começamos nesta
edição a publicar a intervenção final de Andrei Zhdanov na conferência que em
1947 reuniu, de 16 a 25 de junho, a maior parte dos filósofos soviéticos para
discutir o livro “História da Filosofia Ocidental”, de Georgy Alexándrov. Depois
de sua publicação, este livro havia sido incensado na imprensa soviética da
época, adotado como livro-texto nas escolas e indicado ao prêmio mais
prestigiado do país, o Prêmio Stalin. Como relata Zhdanov, foi o próprio Stalin
quem, no Comitê Central do PCUS, chamou a atenção para as deficiências do livro.
Decidiu-se convocar uma reunião mais ampla para a discussão dessas deficiências
e de suas causas. Nesta reunião, Zhdanov representou o Comitê Central.
Não deixa de ser
interessante – no sentido de perceber como a mera propaganda é servida como
historiografia – a versão que meia dúzia de “sovietólogos”, bastante bem
remunerados em seus cargos nas universidades norte-americanas, deram dessa
conferência. Sempre Alexándrov é retratado como um pobre “professor” e
“filósofo”, supostamente vítima da truculência de Zhdanov. No entanto,
Alexándrov era membro-suplente do Comitê Central, chefe do Departamento de
Agitação e Propaganda, membro do Birô de Organização e diretor da Escola
Superior do PCUS; era, além disso, membro da Academia de Ciências da URSS.
Depois da discussão de seu livro, continuou membro do Birô de Organização, foi
diretor do Instituto de Filosofia da Academia de Ciências e ministro da Cultura.
Somente foi afastado de funções dirigentes no partido e no Estado soviéticos
pelo herói dos “sovietólogos”, Nikita Kruschev.
Na íntegra da
intervenção de Zhdanov, os leitores terão oportunidade de tomar contato com algo
muito diferente das versões difamatórias dos “sovietólogos”. Zhdanov, um
operário que quando jovem teve seu papel na organização do trabalho voluntário
(“sábados comunistas”) destacado por Lenin, e que, durante a II Guerra Mundial,
dirigiu Leningrado durante o cerco mais longo da História, era um pensador
profundo, que detestava o rame-rame escolástico e burocrático, e que exigia
rigor – sobretudo em questões de princípio. Além disso, tinha um estilo rico e
um humor refinado. Naturalmente, não nos deve surpreender que o verdadeiro
Zhdanov seja o oposto daquele da propaganda reacionária.
C.L.
ANDREI ZHDANOV
Camaradas: A discussão sobre o livro do camarada
Alexándrov não se limita ao quadro dos temas em debate. Ela se desenvolve em
todas as direções, levantando também as questões mais gerais sobre a situação da
frente filosófica. A discussão se transforma, deste modo, numa espécie de
conferência de toda a União sobre a questão das condições dos trabalhos
científicos filosóficos. Isto, sem dúvida, é perfeitamente natural e de acordo
com as leis do desenvolvimento do pensamento. A elaboração do livro de história
da filosofia, o primeiro livro marxista dessa ordem, representa tarefa de imensa
significação científica e política. Não é casual, pois, a atenção dada a essa
questão pelo Comitê Central, organizando a presente discussão.
Elaborar um bom
livro de história da filosofia significa fornecer à nossa intelectualidade, aos
nossos quadros, à nossa juventude, novas e poderosas armas ideológicas e ao
mesmo tempo dar um grande passo adiante na estrada do desenvolvimento da
filosofia marxista-leninista. É compreensível, portanto, o elevado teor que se
exige para o livro, tal como foi aqui reclamado. O alargamento do quadro da
discussão tornou-se, por isso mesmo, útil. Seus resultados serão, sem dúvida,
muito grandes, tanto mais que aqui foram tratadas não somente as questões
ligadas com a apreciação do livro, mas também os mais vastos problemas dos
trabalhos filosóficos.
Permito-me tratar
dos dois temas. Estou longe de pensar em resumir as calorosas discussões; isto é
tarefa que cabe ao autor do livro, de modo que inicio a discussão pela ordem.
Antes de mais nada,
peço desculpas pelo fato de recorrer ao emprego de citações, embora o camarada
Baskin, de todas as maneiras possíveis, advertisse a todos nós de que deveríamos
evitá-las. Certamente, a ele, velho lobo do mar da filosofia, é fácil sulcar as
marés e oceanos filosóficos sem os instrumentos de navegação, navegando “às
cegas”, como dizem os marinheiros. Que me seja concedido, porém, como grumete
filosófico, que pela primeira vez ensaia passos no vacilante convés do navio da
filosofia durante violenta tempestade, empregar as citações, à guisa de bússola,
a fim de me permitir não perder a rota certa.
Passemos ao exame do
livro:
Falhas do livro
Penso que temos o
direito de exigir de um livro de história da filosofia a observância às
seguintes condições, que, no meu modo de ver, são elementares.
Primeiro — É preciso
que no livro esteja definido exatamente o objetivo da história da filosofia como
ciência.
Segundo — Que o
livro seja científico, isto é, baseado nos fundamentos das conquistas
contemporâneas do materialismo dialético e histórico.
Terceiro — É
indispensável, para que a exposição da história da filosofia não seja
escolástica, mas atuante e ao mesmo tempo criadora, que ela esteja ligada
diretamente com os problemas contemporâneos e que seja conduzida de modo a
projetar as perspectivas do futuro desenvolvimento da filosofia.
Quarto — Que o
material citado, baseado sobre fatos, seja completamente acurado e de boa
qualidade.
Quinto — Que o
estilo da exposição seja claro, exato e convincente.
Certamente, essas
exigências não foram satisfeitas no livro.
Antes de tudo, sobre
o objetivo da ciência:
O camarada Kivienko
ressaltou que o livro do camarada Alexándrov não fornece uma ideia clara sobre o
objetivo da ciência e que, embora no livro se encontre grande quantidade de
definições, tem particular significação o fato de nele não existir uma definição
completa, generalizadora, já que cada definição particular esclarece somente
aspectos parciais da questão. Esta observação é completamente correta. O
objetivo da história da filosofia como ciência não é definido como tal. A
definição dada à pág. 14 é incompleta. A definição da pág. 22, sublinhada em
itálico, como definição básica, é visível e essencialmente incorreta, pois, se
estivéssemos de acordo com o autor, de que a “história da filosofia é a história
do desenvolvimento progressivo e ascendente do conhecimento do homem sobre o
mundo que o cerca”, então isto significaria que o objetivo da história da
filosofia coincide com o objetivo da história da ciência em geral, e a filosofia
pareceria ser a ciência das ciências, o que já há muito foi rejeitado pelo
marxismo.
MATERIALISMO E
IDEALISMO
Incorreta e inexata
é também a afirmação do autor de que a história da filosofia é também a história
do nascimento e desenvolvimento de muitas ideias contemporâneas, pois a noção de
“contemporâneo” se identifica neste caso com a noção de “científica”, o que,
evidentemente, é errado. É indispensável extrair a definição do objetivo da
história da filosofia da definição de ciência filosófica dada por Marx, Engels,
Lenin e Stalin.
“Este é o lado
revolucionário da filosofia de Hegel que Marx tomou e desenvolveu. O
materialismo dialético ‘não precisa de qualquer filosofia que fique acima de
outras ciências’. Das antigas filosofias persiste ‘a doutrina sobre o pensamento
e suas leis, isto é, a lógica formal e a dialética’. E a dialética, na concepção
de Marx, de acordo também com a de Hegel, inclui em si a atualmente chamada
teoria do conhecimento, gnoseologia, que deve estudar o seu objeto, também
historicamente, estudando e generalizando a origem e desenvolvimento do
conhecimento, sua transição de não conhecimento para o de conhecimento” (V. I.
Lenin — Obr. Comp. T. XVIII, pág. 11 — em russo).
A história
científica da filosofia, consequentemente, é a história da germinação,
nascimento e desenvolvimento da concepção materialista científica e suas leis. À
medida que cresce o materialismo e este se desenvolve na luta contra as
correntes do idealismo, a história da filosofia é também a história das lutas do
materialismo contra o idealismo.
No que se refere ao
caráter científico do livro, do ponto de vista da utilização das conquistas
contemporâneas do materialismo dialético e histórico, também sob esse aspecto o
livro tem muitíssimas e sérias falhas.
REVOLUÇÃO NA
FILOSOFIA
O autor descreve a
história da filosofia e a marcha do desenvolvimento das ideias e sistemas
filosóficos como uma evolução normal através de acréscimos e mudanças
quantitativas sucessivas. Cria-se, assim, a impressão de que o marxismo surgiu
como simples sucessor no desenvolvimento das doutrinas progressistas anteriores,
principalmente da doutrina dos materialistas franceses, da economia política
inglesa e das escolas idealistas de Hegel.
O autor, na pág.
475, diz que as teorias filosóficas criadas antes de Marx e Engels, embora
contivessem às vezes grandes descobertas, não foram, contudo, consequentes até o
fim e científicas em todas as suas conclusões. Tal definição distingue o
marxismo dos sistemas filosóficos pré-marxistas somente como doutrina
consequente até o fim e científica em todas as suas conclusões. Isto nos mostra
que a diferença do marxismo em relação às doutrinas filosóficas pré-marxistas
consiste somente em que estas filosofias não foram consequentes e científicas
até o fim, como também que os velhos filósofos somente “se equivocaram”.
Como veem, trata-se
aqui somente de mudanças quantitativas. Isto, porém, é metafísica. O
aparecimento do marxismo constituiu uma verdadeira descoberta, foi uma revolução
em filosofia. Certamente, como em qualquer descoberta, como em qualquer salto,
interrompe-se a graduação em cada transição para o novo estado; o marxismo,
pois, não podia ter origem sem uma preliminar acumulação de mudanças
quantitativas em filosofia, e, neste caso, somas de desenvolvimento da filosofia
até a descoberta de Marx e Engels. O autor, evidentemente, não compreende que
Marx e Engels criaram uma nova filosofia, que qualitativamente se diferencia de
todas as predecessoras, não obstante estas terem sido também sistemas
filosóficos progressistas. Acerca das relações da filosofia de Marx com todas as
predecessoras, de cuja transformação resultou o marxismo em filosofia,
transformando-a em ciência, todos têm conhecimento. O que é mais estranhável é
que o autor concentra a sua atenção não no que é novo e revolucionário no
marxismo, em comparação com os sistemas filosóficos predecessores, e sim no que
o une com o desenvolvimento das filosofias pré-marxistas. No entanto, os
próprios Marx e Engels disseram que sua descoberta significava o fim das velhas
filosofias.
“O sistema de Hegel
foi o último, a mais acabada forma de filosofia, desde que a concebamos como
ciência especial, que fica acima de todas as outras ciências. Junto com ela, de
toda a filosofia restou somente o método dialético do pensamento e a concepção
de todo o mundo natural, histórico e intelectual como de um mundo eternamente
mutável e móvel, que se encontra em permanente processo de nascimento e
perecimento. Agora, não somente à filosofia, mas também à toda ciência foi
imposta a exigência de descobrir as leis do desenvolvimento deste eterno
processo de transformação em cada domínio separado. Nisto consiste a herança
deixada pela filosofia hegeliana aos seus sucessores”. (F. Engels — Anti Dühring,
1945, pág. 23-24 — edição russa).
Continua na próxima edição. |