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Uma revolução na
filosofia (2)
Na segunda parte
da intervenção de Andrei Zhdanov em 1947, sobre o livro de Georgy Alexándrov,
“História da Filosofia Ocidental”, que publicamos hoje, Zhdanov aborda, entre
outras questões, o fim da velha filosofia e as deficiências do livro na análise
dos papéis desempenhados por Marx e Engels ao inaugurarem “um novo período da
história da filosofia, que desde então se tornou ciência”
ANDREI ZHDANOV
Continuação da edição anterior
O autor não
compreende, evidentemente, o processo histórico concreto de desenvolvimento da
filosofia.
Uma das
falhas essenciais, senão mesmo a principal falha do livro, é a ignorância em
relação ao fato de que na marcha da história se substituem não somente as
opiniões sobre estas ou aquelas questões filosóficas, mas até mesmo sobre um
conjunto de questões. O próprio objeto da filosofia sempre esteve em permanente
transmutação, o que corresponde completamente à natureza dialética do
conhecimento humano, e isto deve ser evidente para qualquer dialeta verdadeiro.
À pág. 24 de
seu livro, expondo a filosofia dos antigos gregos, o camarada Alexándrov
escreve:
“A filosofia,
como ramo independente do conhecimento, surgiu na antiga sociedade escravista
grega”.
E mais
adiante:
“A filosofia,
surgindo no VI século antes da nossa era, como ramo particular do conhecimento,
teve larga propagação”.
Podemos,
porém, falar sobre as antigas filosofias gregas como um ramo particular do
conhecimento que se haja diferenciado? Absolutamente, não. Os pontos de vista
filosóficos dos gregos foram de tal modo estreitamente ligados às suas ideias
políticas e aos seus pontos de vista em história natural que não devemos e não
temos o direito de transferir para a ciência grega a nossa divisão das ciências
e sua classificação, que surgiram muito depois. Na verdade, os gregos conheciam
somente uma ciência indivisa, na qual entravam também as ideias filosóficas.
Tomemos Demócrito, Epicuro, Aristóteles: todos eles corroboram igualmente o
pensamento de Engels sobre isso, o de que “os mais antigos filósofos gregos
foram simultaneamente naturalistas”. (F. Engels — Dialética da Natureza — K.
Marx e F. Engels, obr. comp. T. XIV, pág. 498 — edição russa).
A
originalidade do desenvolvimento da filosofia consiste em que, à medida em que
se desenvolviam os conhecimentos científicos sobre a natureza e a sociedade,
dela se ramificavam as ciências positivas, uma após a outra. Por consequência,
reduzia-se ininterruptamente o domínio da filosofia, devido ao desenvolvimento
das ciências positivas (observação relevante é que este processo não está
terminado e prossegue até no presente momento), e essa libertação das ciências
naturais e sociais da égide da filosofia representava, por si mesma, um processo
progressivo tanto para as ciências naturais e sociais quanto para a própria
filosofia.
Os criadores
dos sistemas filosóficos do passado, que pretendiam o conhecimento da verdade
absoluta em instância final, não puderam promover o desenvolvimento das ciências
naturais, porque as engessavam em seus esquemas e se esforçavam por ficar acima
das ciências, impondo ao vívido conhecimento humano as concussões que eram
ditadas, não pela vida real, mas por exigência dos sistemas. Nestas condições, a
filosofia se transformou em museu, onde foram acumulados os mais diversos fatos,
conclusões, hipóteses e simples fantasias. Se a filosofia pode servir para a
supervisão, para a contemplação, no entanto, de nada valeu como instrumento de
ação prática sobre o mundo e como instrumento de conhecimento do mundo.
O último
sistema de tal gênero foi o sistema de Hegel, que tentou erguer o edifício
filosófico que dominaria todas as outras ciências. Comprimindo-as no leito de
Procusto das suas categorias, e imaginando poder resolver todas as contradições,
o sistema de Hegel entrou em contradição absoluta com o método dialético, que
foi mais pressentido do que compreendido pelo próprio Hegel, e por isso mesmo
indevidamente aplicado.
Mas, “uma vez
que compreendamos (....) que exigir da filosofia a solução de todas as
contradições significa exigir que um só filósofo realize tal obra, que somente
poderia ser realizada por toda a Humanidade em seu gradual desenvolvimento; uma
vez que compreendamos isto, para as filosofias, na velha significação da
palavra, chegou o fim”, como indicava Engels. “Por consequência, deixemos em paz
a ‘verdade absoluta’, que por esse caminho é inatingível para o homem isolado, e
nos esforcemos na pretensão de alcançar para nós as verdades relativas pelo
caminho das ciências positivas e pela unificação de seus resultados com a ajuda
do método dialético”. (F. Engels — L. Feuerbach - Marx e Engels — Obr. Comp. T.
XIV, pág. 640 — edição russa).
A descoberta
de Marx e Engels representa o fim da velha filosofia, isto é, o fim daquela
filosofia que pretendia dar uma universal explicação do mundo.
FILOSOFIA
CIENTÍFICA
As
formulações vagas do autor obscurecem a maior significação revolucionária da
genial descoberta filosófica de Marx e Engels; acentuam quanto estava Marx
ligado aos filósofos predecessores; e não mostram que, desde Marx, começa
realmente um novo período da história da filosofia, que desde então se tornou
ciência.
A este erro,
está ligada estritamente a maneira não marxista com que o livro trata a história
da filosofia, como uma gradual mudança de uma escola filosófica para outra. Com
o aparecimento do marxismo, como concepção científica do proletariado, acaba o
velho período da história da filosofia, aquele em que a filosofia era ocupação
de indivíduos, propriedade de escolas filosóficas, compostas de pequeno número
de filósofos e de seus discípulos, fechados, isolados da vida, do povo,
estranhos ao povo.
O marxismo
não é uma escola filosófica dessa espécie. Ao contrário, é a superação das
velhas filosofias, das que eram propriedade de uns poucos eleitos da
aristocracia do espírito; é o princípio de um período completamente novo da
história da filosofia, quando ela se torna arma científica nas mãos das massas
proletárias, que lutam por sua libertação do capitalismo.
A filosofia
marxista, diferentemente dos anteriores sistemas filosóficos, não se apresenta
como ciência acima das outras ciências; já é um instrumento de investigação
científica, um método, que torna mais penetrantes todas as ciências sobre a
natureza e a sociedade, e que se enriquece ao mesmo tempo com as conquistas
dessas ciências no desenrolar de seu desenvolvimento. Nesse sentido, a filosofia
marxista é a mais completa e decisiva negação de todas as filosofias
precedentes. Mas negar, como sublinhava Engels, não significa dizer simplesmente
“não”. A negação encerra em si a sucessão, significa a absorção, revisão crítica
e unificação, em nova e superior síntese, de tudo quanto há de mais avançado e
progressista já conquistado na história do pensamento humano.
Daqui decorre
que a história da filosofia, desde que existe o método dialético marxista, deve
incluir a história da preparação do aparecimento desse método, mostrar o que
condicionou o seu surgimento. No livro do camarada Alexándrov não consta a
história da lógica e da dialética, não é exposto o processo de desenvolvimento
das categorias lógicas como reflexo da prática humana, e por isso mesmo ficou no
ar a citação de Lenin, encontrada ao prefácio do livro, de que cada categoria da
lógica dialética precisa ser considerada como ponto central na história do
pensamento humano.
Completamente
injustificável é o fato de que a história da filosofia, no livro, só vá até o
surgimento da filosofia marxista, ou seja, até o ano de 1847. Sem a exposição da
história da filosofia destes últimos cem anos, o livro, certamente, não pode ser
considerado como livro de história da filosofia. O autor não esclareceu e não
explicou porque não cuidou desse período, nem na introdução nem no prefácio da
obra.
Nada
justifica também a exclusão do desenvolvimento da filosofia russa, no livro de
história em apreço. Não é preciso provar que essa omissão possui o caráter de
princípio. Fossem quais fossem os motivos que levaram o autor a excluir a
história da filosofia russa da história geral da filosofia, o seu silêncio sobre
ela objetivamente significa a depreciação do papel da filosofia russa, e também
a divisão da história da filosofia em história da filosofia da Europa ocidental
e história da filosofia russa, e para tanto o autor não faz quaisquer tentativas
no sentido de esclarecer a necessidade de tal divisão. Ele eterniza, dessa
forma, a divisão burguesa de cultura “ocidental” e “oriental”, e considera o
marxismo como corrente regional do “ocidente”. Mais do que isso, na página 6 da
introdução, demonstra com vigor uma tese inversa, insistindo em que “não tendo
estudado atentamente e utilizado a crítica profunda dos sistemas filosóficos do
passado, realizada pelos clássicos da filosofia russa, não se pode organizar uma
exposição científica sobre a marcha do desenvolvimento do pensamento filosófico
nos países da Europa ocidental”. Por que, então, o autor não organizou essa
correta exposição no livro? Tal fato permanece completamente incompreensível, da
mesma forma que o arbitrário modo de terminar a exposição da história da
filosofia no ano de 1847, que deixam no leitor a mais opressiva impressão.
Em suas
intervenções, os camaradas aqui presentes, também acertadamente, apontaram as
lacunas na exposição da história da filosofia do Oriente, que deveria ser clara.
Evidentemente, também por esse motivo o livro precisa de radical revisão.
Alguns
camaradas salientaram que a introdução do livro deveria, sem dúvida, significar
o “credo” do autor e também definir corretamente o objetivo dos problemas e
métodos de investigação, mas que o autor, parece-lhes, não cumpriu essa
obrigação. Penso que esta crítica é insuficiente, portanto incorreta; também não
resiste à crítica feita à própria introdução.
POSIÇÃO DE
PARTIDO
Já falei
sobre a incorreta e inexata definição do objeto da história da filosofia. Mas
isto é pouco ainda. Na introdução existem também outros erros teóricos. Os
camaradas já falaram aqui que uma interpretação forçadíssima se encontra na
exposição das bases da história da filosofia marxista-leninista, no que se
refere a Tchernichévski, Dobrolíubov e Lomonóssov, os quais, certamente, não têm
relações diretas com o assunto.
Mas a
questão, entretanto, não é somente essa. As citações apresentadas, das obras
desses grandes mestres e filósofos russos, são escolhidas com evidente
infelicidade, e as teses teóricas que elas encerram, são, do ponto de vista
marxista, incorretas e, eu diria mais, nocivas mesmo. Dizendo isso, nem no menor
grau tenho em vista desacreditar os próprios autores dos textos citados, pois as
citações, escolhidas arbitrariamente, se referem a questões que nada têm em
comum com as em que tem em vista o autor. Ou, melhor, o autor cita
Tchernichévski para provar que os fundadores dos vários, e ainda que contrários,
sistemas filosóficos devem tolerantemente referir-se um ao outro.
Que se me
permita fazer citações de Tchernichévski:
“Os
continuadores da obra científica se rebelam contra os seus predecessores, cujos
trabalhos serviram de ponto de partida para os seus próprios trabalhos. Assim,
Aristóteles inamistosamente olhava para Platão; Sócrates humilhava imensamente
os sofistas, dos quais ele foi continuador. Nos tempos modernos encontramos
também muitos exemplos semelhantes. Mas acontece, às vezes, casos de fundadores
de novos sistemas compreenderem claramente a conexão de suas opiniões com os
pensamentos expressos pelos seus predecessores, e, modestamente, então, se
intitularem seus discípulos; ou que, revelando as deficiências das concepções de
seus predecessores, ao mesmo tempo, claramente, confessam quanto contribuíram
essas concepções para o desenvolvimento de seus próprios pensamentos. Tal foi,
por exemplo, o caso de Spinoza com Descartes. Para honra dos fundadores da
ciência contemporânea, é preciso dizer que eles, com respeito e quase amor
filial, olham para os seus predecessores, reconhecem completamente a grandeza de
seus gênios, o caráter nobre e generoso de suas doutrinas, nas quais apontam o
germe de suas próprias ideias” (Págs. 6-7, do livro de Alexándrov).
Desde que o
autor faz essas citações sem restrições, elas, evidentemente, são o seu próprio
ponto de vista. Se isto é verdade, então o autor, efetivamente, se coloca no
caminho da rejeição do princípio de partido em filosofia, o qual é inerente ao
marxismo-leninismo. São conhecidas a paixão e irreconciliabilidade com as quais
o marxismo-leninismo sempre conduziu, e conduz, a áspera luta contra todos os
inimigos do materialismo. Nessa guerra, os marxistas-leninistas submetem os seus
adversários a uma crítica aniquiladora. Modelo de luta bolchevique contra os
opositores do materialismo é o livro de Lenin, “Materialismo e Empirocriticismo”,
onde cada palavra de Lenin representa, por si mesma, uma arma aniquiladora, que
destrói o adversário. A genialidade de Marx e Engels consiste justamente — dizia
Lenin — em que no decorrer de um período muito longo, de quase meio século, eles
desenvolveram o materialismo, impulsionaram para a frente uma fundamental
tendência da filosofia, não permaneceram na repetição das questões gnoseológicas
já resolvidas, mas a conduziram consequentemente, isto é, mostraram como era
preciso levar o materialismo para o campo das ciências sociais, varrendo
impiedosamente como lixo, a asneira, a bombástica babel pedante, e as numerosas
tentativas de “descobrir” uma “nova” linha na filosofia, de inventar uma “nova”
tendência, etc.
“Tomem,
finalmente — escreve Lenin mais adiante — as várias observações filosóficas de
Marx em ‘O Capital’ e outras obras, e vereis imutável a ideia fundamental, a
insistência no materialismo e um altivo desprezo votado a qualquer
obscurantismo, confusão ou recuo para o idealismo. Sobre essas duas básicas
antinomias (materialismo-idealismo) giram todas as observações filosóficas de
Marx, as quais são julgadas pela filosofia acadêmica como ‘estreitas’ e
‘unilaterais’, e é justamente nisso que consistem suas falhas.” (V. I. Lenin,
Obr. Compl., t. XIII, págs. 275-276, em russo).
O próprio
Lenin, como se sabe, não poupava os seus adversários. Na tentativa de amenizar e
conciliar as contradições entre as tendências filosóficas, Lenin sempre viu
apenas uma manobra da filosofia acadêmica reacionária. Como pode, pois, depois
disso, o camarada Alexándrov apresentar-se, em seu livro, suave e manso em
relação aos filósofos adversários, o que representa positiva concessão ao
quase-objetivismo acadêmico, ao expor o período em que o marxismo emergia,
crescia e vencia na implacável luta contra todos os representantes das
tendências idealistas?
O camarada
Alexándrov não se limita a isso. Ele consequentemente faz presente a sua
concepção objetivista através de todo o conteúdo do livro. Não é por
casualidade, pois, que o camarada Alexándrov, antes de criticar qualquer
filósofo da burguesia, renda homenagens aos seus méritos, incensando-os. Tomem,
por exemplo, a doutrina de Fourier, que já foi aqui mencionada, sobre as quatro
fases do desenvolvimento da Humanidade.
O ponto mais
alto da filosofia social de Fourier, diz o camarada Alexándrov, “é a doutrina
sobre o desenvolvimento da Humanidade. Em seu desenvolvimento, a sociedade
passa, segundo Fourier, por quatro fases:
1. destruição
ascendente;
2. harmonia
ascendente;
3. harmonia
descendente;
4. destruição
descendente.
“No seu
último estágio, a Humanidade vive um período de caducidade, depois do que
qualquer vida na Terra chega ao fim. Tanto quanto o desenvolvimento da sociedade
se realiza independentemente dos desejos das pessoas, assim também o estágio
superior do desenvolvimento chega inevitavelmente, tal como acontece com a
mudança das estações de um ano. Desta tese deduziu Fourier a inevitável
substituição do regime burguês por uma sociedade na qual dominará o trabalho
livre e coletivo. Na verdade, a teoria de Fourier do desenvolvimento da
sociedade foi limitada pelo quadro das quatro fases, mas, para aquela época, ela
representou grande passo para a frente.” (Ghe. F. Alexándrov, História da
Filosofia da Europa Ocidental, págs. 353-354).
Aqui, não há
traço de análise marxista. Em comparação com o quê a teoria de Fourier
representou um passo à frente? Se a sua limitação consistiu no fato de se
referir a 4 fases no desenvolvimento da Humanidade, e que a quarta fase
constitui a destruição descendente, no conjunto da qual a vida na Terra chega ao
fim, então como compreender que o autor se queixe de Fourier de que sua teoria
do desenvolvimento da sociedade é limitada a um quadro de apenas 4 fases? Numa
quinta fase, a Humanidade passaria no outro mundo...
Continua
na próxima edição. |