|
Ipea: reordenar os gastos públicos para
retomar ritmo de crescimento
“A redução do IPI funcionou, mas tem limite”, afirma o economista Luís Carlos
Magalhães
O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(Ipea) lançou na terça-feira (15) o livro “Brasil em Desenvolvimento: Estado,
Planejamento e Políticas Públicas”. Em 30 capítulos, o Ipea analisa os
principais programas do governo, dos quais aponta os avanços e também o que seus
autores consideraram equívocos. No capítulo 4, “Critérios para Reordenar os
Gastos do Orçamento Federal em Contexto de Crise”, o economista Luís Carlos
Magalhães considera que os gastos em infraestrutura deveriam ser ampliados para
R$ 90 bilhões anuais. “Tem economista questionando, falando em sustentabilidade.
Sustentabilidade com retração de 2% de PIB? Isso já virou mito de mercado
financeiro”, diz.
Durante a apresentação da publicação,
Magalhães destacou que os efeitos sobre a economia causados pela redução do
Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) sobre veículos leves, implantada
desde dezembro de 2008, já se esgotaram. Segundo ele, em função dessa medida
houve um aumento de 13,4% das vendas internas no primeiro semestre de 2009 e a
manutenção entre 50 mil e 60 mil empregos no setor automotivo. “A redução (de
IPI) funcionou, mas tem limite. Na medida em que as pessoas aumentaram o consumo
em função desse preço reduzido, isso causa um efeito deprimido. Porque há uma
antecipação dessa compra, quando vemos que o automóvel está mais barato agora e
depois vai encarecer. É como um medicamento que amortece a indústria ao longo do
tempo”, observou Magalhães. E acrescentou: “Mas é preciso que o governo monte um
monitoramento apurado. Pois nem sempre as empresas que recebem esse incentivo
fiscal refletem o benefício no preço”.
SUPER PAC
No livro, o economista defende que em
momento de crise a “grande política” é a manutenção de investimentos públicos e
privados, citando como exemplo o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC):
“Precisamos preparar o Estado para planejamento e gestão. Para retomar o ritmo
de crescimento a partir de 2010. O PAC já apontou para isso, mas é preciso
ampliar, fazer um super PAC. Claro que não são obras a curto prazo, requerem
estudos, são complicados, porque têm uma série de amarras institucionais, seja
por licenciamento ambiental, por excesso de burocracia no Tribunal de Contas da
União (TCU). Não pode somente o poder Executivo ser responsável. Mas temos que
repensar. Fazer formas menos burocratizadas, sem o Estado perder o controle, mas
que não evitem esse gasto. Deve haver efetividade desses gastos”.
O livro foi lançado como parte das
comemorações dos 45 anos da instituição, atualmente presidida por Marcio
Pochmann, que ressaltou o trabalho coletivo que envolveu quase cem técnicos.
Dividido em cinco partes e 30 capítulos, o livro aborda a inserção internacional
e macroeconomia brasileira, as dimensões da produção e da inovação, as dimensões
regional, urbana e ambiental, as dimensões da proteção social e da geração de
oportunidades e políticas com enfoques específicos e temas emergentes na área
social.
BENEFÍCIOS
O Instituto argumenta que a ampliação do
Bolsa Família, o aumento do salário mínimo, os benefícios das aposentadorias e
pensões, programas habitacionais para famílias de baixa renda, entre outros, são
medidas eficazes contra a crise e para fortalecer o mercado interno. Contudo,
para ampliar a produção e o nível de emprego, o Ipea defende uma redefinição nas
políticas fiscal e monetária. Caso contrário, a manutenção das atuais pode
resultar em aprofundamento da crise no Brasil. As mudanças sugeridas pelo órgão
seriam na orientação do orçamento e na superação de metas de inflação, como
condições para o enfrentamento da crise.
Houvesse alguma dúvida sobre a seriedade
dos estudos contidos no livro, as mediocridades que pululam na Veja se
encarregaram de dirimir. Diz a publicação dos Civita que “a recessão ficou para
trás. Mas alguém precisa avisar o Ipea”, citando explicitamente os capítulos 2 e
4. “No capítulo 4, discorre-se sobre critérios para reordenar os gastos do
orçamento federal em contexto de crise. É o caso de se perguntar: a crise passou
ou não passou?”. Na capa de sua última edição, a revista não tem dúvida sobre
isso e cravou: “Crise – Por que o Brasil foi o último a entrar e o primeiro a
sair”. Se a Veja faz esta afirmação, é bom desconfiar.
VALDO ALBUQUERQUE
|