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Iraquianos em festa
recebem herói das sapatadas em Bush
O repórter iraquiano
Muntadar Al Zaidi disse após sua libertação de um presídio em Bagdá, que “a
oportunidade apareceu e eu não a deixei escapar”, referindo-se ao arremesso
de sapatos em dezembro contra o então carniceiro-mor de Washington
“Aqui
estou eu livre, mas meu país ainda está ocupado”, afirmou o jornalista
iraquiano Muntadar Al Zaidi, em entrevista que se seguiu à sua libertação de
um presídio em Bagdá, após nove meses de cárcere por ter lançado seus
sapatos contra o então presidente dos EUA, W. Bush, em dezembro de 2008. Ele
concedeu entrevista na sede da TV Bagdadia em Bagdá, onde, com a “antiga
bandeira iraquiana sobre os ombros”, reafirmou sua ação contra o
açougueiro-mor de Washington e a ocupação: “a oportunidade apareceu e eu não
a deixei escapar”.
A imagem
do jornalista atirando sapatos e Bush se esquivando correu mundo e se tornou
símbolo da falência da ocupação do Iraque. Considerado um herói no seu país
e também no mundo inteiro, Al Zaidi foi recepcionado por manifestantes,
amigos e familiares que gritavam seu nome, e uma pequena orquestra. Conforme
o costume iraquiano, foram sangrados carneiros em sua homenagem. Os
presentes gritavam, ainda, “Viva o Iraque!” e “Fora Maliki, o agente dos
americanos!”
TORTURAS
Inicialmente o regime colaboracionista havia pedido 15 anos de cadeia para
Al Zaidi, mas, diante da repercussão, acabou baixando a sentença para três
anos, e o soltou, transcorridos nove meses, por “bom comportamento”. Na
entrevista, o jornalista denunciou que foi torturado com choque elétrico,
espancamento e afogamento.
“O que me
conduziu à esta confrontação foi a injustiça sobre o nosso povo”, afirmou Al
Zaidi. “A ocupação tentou humilhar o povo iraquiano, pisoteando-o com botas
militares. Há mais de um milhão de mártires mortos pelas balas da ocupação,
cinco milhões de órfãos, um milhão de viúvas, centenas de milhares de
mutilados e cinco milhões de refugiados”, denunciou o patriota iraquiano.
A sapatada
– um insulto extremo na cultura árabe – ocorreu quando W. Bush, a poucos
dias de ir para a lata de lixo da história, apareceu de surpresa para posar
ao lado do primeiro-fantoche, Nuri Al Maliki e dar seu “beijo de despedida”
ao Iraque. “Toma o beijo do adeus, seu cachorro!”, retrucou Al Zaidi,
arremessando o primeiro sapato, das “viúvas, dos órfãos e de todos que você
matou!”, seguido pelo segundo. A atitude de Al Zaidi teve o papel ainda de
desafinar, e desmoralizar, o coro monocórdio da mídia imperial sobre o
“sucesso da escalada no Iraque”.
No
pronunciamento na TV Bagdadia, Al Zaidi afirmou que “se aqueles que me
acusaram soubessem por quantas casas destruídas eu passei com aqueles
sapatos; quantas vezes aqueles sapatos pisaram o sangue dos inocentes; e
quantas vezes aqueles sapatos entraram em casas cuja honra havia sido
desgraçada, então [admitiriam que] essa era a resposta apropriada”.
O mundo
inteiro viu Al Zaidi ser derrubado e espancado imediatamente após os sapatos
arremessados, e o jornalista pôde, agora, relatar o que se seguiu. “Na mesma
hora em que o primeiro-ministro ia a uma estação de TV por satélite dizendo
que não dormiria enquanto não tivesse certeza de que eu estava numa cama
confortável e com cobertor, eu estava sendo torturado na sala atrás da sala
da conferência de imprensa”. A tortura incluiu “choque elétrico,
espancamento com fio elétrico e com cabo metálico”. Ele também foi submetido
a afogamento (“waterboarding”, no jargão da CIA).
Continuando seu relato sobre o episódio das sapatadas, Al Zaidi disse “não
ser um herói”, mas que tinha “sua própria opinião, e ao atirar os sapatos no
criminoso de guerra Bush, queria mostrar suas mentiras, a rejeição à
ocupação, a rejeição aos seus assassinatos”. “Talvez alguns de vocês
indaguem porque eu não fiz uma pergunta a Bush que o embaraçasse. Como eu
poderia fazer isso se nós jornalistas recebemos ordens antes da entrevista
de que não era permitido fazer qualquer pergunta a Bush?”
Al Zaidi anunciou que irá tentar identificar seus torturadores e, atendendo
pedido da família, foi para a Grécia, para receber cuidados médicos e
psicológicos, e obter alguma segurança. Na entrevista, ele denunciou que é
alvo de agências de espionagem dos EUA e de esquadrões da morte
colaboracionistas.
ANTONIO PIMENTA
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