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Uma revolução na
filosofia (4)
Na quarta parte
da intervenção de Andrei Zhdanov sobre o livro “História da Filosofia
Ocidental”, de Georgy Alexándrov, proferida na conferência de 1947, convocada
pelo Comitê Central do PCUS para debater as deficiências do livro, Zhdanov
analisa com rigor os erros essenciais de princípio do livro e alerta para a
necessidade dos problemas contemporâneos, da atualidade, estarem intimamente
inseridos nos estudos filosóficos
ANDREI ZHDANOV
Continuação da edição anterior
Salta aos olhos a
imensa pobreza, miserabilidade e caráter abstrato que caracterizam o nível das
ciências naturais deste ou daquele período. Sobre as ciências naturais dos
antigos gregos, Alexándrov diz que, no seu tempo, teve lugar “a germinação da
ciência sobre a natureza” (pág. 26); sobre o último período da época da
escolástica (séculos XII-XIII), diz que nele “apareceram muitas invenções e
aperfeiçoamentos técnicos.” (Pág. 120).
No mesmo lugar, onde o autor tenta esclarecer
as formulações vagas, apresenta uma lista de descobertas pouco coerente; junto
com isso, no livro, deixa passar erros gritantes, que nos surpreendem pelo que
revelam de sua ignorância nas questões de ciências naturais. Qual o valor, por
exemplo, da seguinte descrição do desenvolvimento da ciência na época da
Renascença:
“O sábio Guéricke construiu sua famosa bomba
pneumática e demonstrou a existência da pressão atmosférica, que substitui, por
si mesma, a ideia sobre o vácuo. Isso foi provado praticamente, pela primeira
vez, com as experiências das esferas de Magdeburgo. Pessoas houve, no transcurso
dos séculos, que discutiram sobre onde encontrar-se o ‘centro do mundo’ e se era
possível considerar o nosso planeta como esse centro. Eis que, porém, no domínio
da ciência, surge Copérnico e depois Galileu Galilei. Este prova a existência de
manchas no sol e mudanças em suas posições. Ele vê nisso e em outras descobertas
a confirmação da doutrina de Copérnico sobre a contextura heliocêntrica do nosso
sistema solar. O barômetro ensinou às pessoas a predizer o tempo. O microscópio
substituiu o sistema de hipóteses sobre a vida dos organismos infinitamente
pequenos e desempenhou um grande papel no desenvolvimento da biologia. A bússola
ajudou Colombo a provar, experimentalmente, a esfericidade de nosso planeta”.
(Pág. 135).
Aqui, quase que cada proposição é um absurdo.
Como podia a pressão atmosférica substituir a ideia sobre o vácuo? Será que a
existência da atmosfera nega a existência do vácuo? De que maneira o movimento
das manchas no sol confirmou a doutrina de Copérnico? A ideia de que o barômetro
prediz o tempo é uma das noções mais anti-científicas. Infelizmente, as pessoas,
até agora, não sabem como conseguir prever o tempo, o que é bem conhecido de
todos vocês pela experiência prática de nosso serviço de meteorologia. Será que
o microscópio pode substituir o sistema de hipóteses? E, afinal, o que significa
a “esfericidade do nosso planeta”? Até aqui, parecia-me que esférico podia ser
forma.
Pérolas semelhantes encontram-se a granel no
livro do camarada Alexándrov.
O autor, porém, deixa passar também os mais
essenciais erros de princípio. Assim, ele considera (pág. 357) que o método
dialético teve as condições de seu surgimento criadas pelo progresso das
ciências naturais “já na segunda metade do século XVIII”. Isto, radicalmente,
contraria a conhecida tese de Engels sobre isso, de que o método dialético teve
as condições de seu surgimento criadas com a descoberta da constituição celular
do organismo, com a doutrina sobre a conservação e transformação da energia e a
doutrina de Darwin. Todas estas descobertas ocorreram no século XIX. Partindo de
sua falsa concepção, o autor abre espaço, em seu livro, para a enumeração das
descobertas do século XVIII; fala muito sobre Galvani, Laplace, Layelle, mas em
referência às três grandes descobertas, indicadas por Engels, ele se limita ao
seguinte:
“Assim, por exemplo, ainda durante a vida de
Feuerbach, foi criada a doutrina sobre a célula, a doutrina sobre a
transformação da energia e aparecia a teoria de Darwin sobre a origem das
espécies por meio da seleção natural.” (Pág. 427).
Tais são as falhas fundamentais do livro.
Abstraio as falhas secundárias e as particularidades, porque não quero também
repetir as muito preciosas observações críticas, no sentido teórico e prático,
que aqui foram feitas.
A conclusão é a seguinte: o livro é mau e
necessita de uma revisão radical. Mas a revisão do livro significa, antes de
tudo, a superação dos incorretos e confusos pontos de vista, que, evidentemente,
são correntes no meio dos nossos filósofos, entre os quais também se encontram
os dirigentes. E aqui eu passo para a segunda questão, a questão sobre a
situação da nossa frente filosófica.
II - Sobre a Situação da Nossa Frente
Filosófica
O livro do camarada Alexándrov recebeu a
aprovação da maioria de nossos trabalhadores filosóficos dirigentes, foi
indicado para o prêmio Stalin, recomendado como livro didático e mereceu
numerosas apreciações elogiosas em revistas e jornais. Isto significa que também
outros trabalhadores filosóficos, evidentemente, participam dos erros do
camarada Alexándrov. Revela, pois, que nem tudo vai bem em nossa frente teórica.
A circunstância do livro não ter provocado
quaisquer protestos significativos, exigiu a intervenção do Comitê Central, e
pessoalmente a do camarada Stalin, para revelar as falhas do livro. O que
expressa a falta, na frente filosófica, de uma desenvolvida crítica e
autocrítica bolcheviques. A ausência de discussões criadoras, da crítica e da
autocrítica, não puderam deixar de repercutir de maneira prejudicial na
elaboração dos trabalhos filosóficos científicos. Todos sabem que a nossa
produção filosófica é inteiramente insuficiente em quantidade e fraca na
qualidade. Monografias e artigos de filosofia são um fenômeno raro.
Aqui, muitos falaram sobre a necessidade de
uma revista filosófica. Há, no entanto, uma certa dúvida sobre a necessidade da
criação de tal revista. Ainda não se apagou de nossa memória a lamentável
experiência da revista “Sob a bandeira do marxismo”. Parece-me que, no presente
momento, não são utilizadas, de forma completamente satisfatória, as
possibilidades que já existem de publicação de artigos e monografias originais.
O camarada Svietlóv disse, aqui, que os
leitores de “Bolchevik” não estão capacitados, absolutamente, para ler trabalhos
teóricos especializados. Penso que isso é completamente inexato e decorre de uma
clara subestimação do alto nível de nossos leitores e de suas exigências. Tais
opiniões, parece-me, são resultantes da incompreensão do fato de que a nossa
filosofia não é, absolutamente, propriedade de pequenos grupos de filósofos
profissionais, mas, sim, propriedade de toda a cultura soviética.
Nos tempos pré-revolucionários, não havia mal
algum - estava de acordo, aliás, com as tradições - que as maçudas revistas
russas progressistas, ao lado dos artigos artístico-literários, publicassem
também trabalhos científicos, entre os quais, os de filosofia. Nossa revista “Bolchevik”,
por todos os motivos, possui muito mais público do que qualquer revista
filosófica e enclausurar o trabalho criador dos nossos filósofos nas revistas
especializadas em filosofia, parece-me, representaria uma ameaça de
estreitamento da base de nosso trabalho filosófico. Peço que não me julguem como
adversário da revista, porém, parece-me que a escassez de trabalhos filosóficos,
em nossas volumosas revistas e na “Bolchevik”, revela a necessidade de se
iniciar, antes de mais nada, a superação dessa falha, utilizando-nos, a
princípio, das nossas volumosas revistas e da “Bolchevik”, onde (especialmente
nas volumosas revistas), de tempos em tempos, ainda agora, aparecem artigos de
caráter filosófico, que apresentam, sem dúvida, interesse científico e social.
Também é anêmica a temática da nossa
instituição filosófica dirigente, isto é, do Instituto de Filosofia da Academia
de Ciências e do professorado, etc.
O Instituto de Filosofia, na minha opinião,
apresenta um quadro bastante desolador: não une os trabalhadores da periferia,
não está ligado a eles, e por isso não é uma instituição de caráter nacional. Os
filósofos da província são abandonados a si mesmos, embora eles representem,
como sabeis, grande força não utilizada, para pesar nosso. A temática dos
trabalhos filosóficos, entre os quais se incluem também trabalhos de concurso
para a obtenção de graus científicos, está voltada para o passado, para assuntos
históricos inexpressivos e de nenhuma responsabilidade, como, por exemplo: “A
heresia de Copérnico no passado e no presente”.
Isto conduz a um certo renascimento da
escolástica. Deste ponto de vista, parece-nos estranho que tenha havido aqui uma
discussão sobre Hegel. Os participantes dessa discussão quiseram arrombar uma
porta aberta... A questão sobre Hegel há muito já foi resolvida. Não existe
qualquer fundamento para revivê-la, nenhum novo material, além dos que já foram
apresentados e apreciados. A própria discussão seria desapontadoramente
escolástica, e dela resultaria tão pouca coisa como, no seu tempo, a escolástica
não esclareceu as questões sobre o direito de se persignar com dois ou três
dedos... ou sobre se Deus pode criar uma pedra que não possa levantar... e
também a de se a mãe de Deus foi ou não virgem... Os problemas contemporâneos,
da atualidade, quase não foram analisados. Tudo isto, em conjunto, é cheio de
grandes perigos, muito maiores do que imaginais. E o maior perigo consiste em
que alguns de vós já se acostumaram com essas falhas.
Continua na próxima edição. |