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Os
republicanos, a religião e o triunfo da desrazão
JOHANN HARI *
Algo estranho
aconteceu nos EUA nos nove meses decorridos desde que Barack Obama foi eleito,
bem resumido pelo comediante Bill Maher: “Os Democratas deram um passo em
direção à direita; os Republicanos deram vários em direção ao hospício”.
A eleição de Obama –
negro e com mensagem progressista – para suceder George W. Bush, detonou o âmago
do modo como a direita norte-americana vê seu país. Aí, nesse âmago, eles vêem
os EUA como nação de pele branca, de direita, modelada para sempre à moda de
Sarah Palin.
Quando essa imagem
foi repudiada por maioria maciça de norte-americanos, a direita simplesmente não
computou. Não podia acontecer; logo, não aconteceu. Como o grito “Perfure,
gatinha, perfure” [“Drill, baby, drill”, uma forma de incentivar Palin a buscar
petróleo no Alasca] poderia ter sido derrotado por um mulato supostamente
qualificado para a presidência? E, assim, um traço sempre presente na visão de
mundo da direita norte-americana – negar a realidade e argumentar contra um
fantasma demoníaco que a própria direita cria – inchou e cresceu. Hoje, a
direita norte-americana só vê o que só ela vê.
Desde a posse de
Obama, a direita nos EUA tem saltado freneticamente de uma fantasia para outra,
como alguém que se debate nos tormentos de um colapso mental. Começou com a
conversa de que Obama seria cripto-muçulmano e – ao mesmo tempo – de que seria
também membro de uma igreja nacionalista negra que odeia brancos.
Quando essas idéias
foram rejeitadas e Obama venceu as eleições, puseram-se a dizer que Obama teria
nascido no Quênia e que teria sido contrabandeado (sic) para os EUA ainda bebê,
e as autoridades do Havaí, cúmplices desse projeto, teriam falsificado a
certidão de nascimento do bebê contrabandeado (sic). Nesses termos e pelas
razões acima expostas, Obama ‘é’ inelegível, ‘não foi’ eleito e, pois, a
presidência ‘tem de ser’ imediatamente entregue ao candidato Republicano, John
McCain.
Não são fenômenos
marginais: pesquisa da Research 200 descobriu que a maioria dos Republicanos e
dos habitantes do Sul afirmam que Obama não nasceu nos EUA ou que não sabem com
certeza onde nasceu. Vários senadores Republicanos têm repetido que Obama teria
“perguntas a responder”. Não há comprovação, por mais incontestável – a certidão
de nascimento, a foto de sua mãe grávida, no Havaí, a participação do nascimento
no jornal do Havaí – que abale a convicção dos Republicanos.
Essa tendência
alcançou o clímax no verão passado, com o Partido Republicano a clamar, em
uníssono, que Obama deseja ver instalados “comitês da morte” para eutanásia dos
velhos e portadores de deficiências. Sim, sim: Sarah Palin realmente declarou –
sem piscar e sem corar –, que Barack Obama planeja assassinar o bebê dela.
É preciso admirar a
audácia da direita. Vejam, pois, o que está realmente acontecendo.
Os EUA são o único
grande país industrializado que não oferece assistência pública regular de saúde
a toda a população. Não havendo assistência pública de saúde, os cidadãos têm de
pagar por planos de seguro-saúde – e 50 milhões de pessoas, nos EUA, não têm
meios para isso.
Resultado, 18 mil
cidadãos norte-americanos morrem por ano, exclusivamente por não terem acesso ao
atendimento médico de que necessitam. Equivale a seis 11 de setembro ao ano,
todos os anos, ano após ano. E os Republicanos acusaram de “matadores” os
Democratas que tentam deter esses milhares de mortes –, e já conseguiram pô-los
na defensiva.
Os Republicanos
defendem o sistema existente, dentre outros motivos porque recebem gigantescas
somas de dinheiro das empresas médicas privadas que se beneficiam do sistema que
gera muitas mortes e muitos lucros. Mas não podem defender diretamente o sistema
mortal, porque 70% dos norte-americanos consideram “imoral” defender um sistema
de assistência médica que não oferece cobertura a todos os cidadãos. Então, os
Republicanos são obrigados a inventar mentiras que operem o prodígio de fazer
soar como depravação qualquer plano para estender a cobertura médica.
Há alguns meses,
como membro recém incorporada à diretoria de um conglomerado de empresas de
saúde privada, Betsy McCaughey noticiou a inclusão de uma cláusula no projeto de
lei sobre saúde pública, que pagaria as despesas dos mais velhos para fazerem
uma visita ao médico e uma visita ao tabelião para fazer uma declaração de
vontade. Poderiam assim declarar quando (se, é claro) desejam que o tratamento
seja suspenso. Seria ato totalmente voluntário.
Muita gente deseja
ter esse direito: eu mesmo não me interessaria por ser mantido vivo por alguns
meses extra, em agonia e sem poder falar. Mas McCaughey lançou o boato de que aí
estaria uma forma de eutanásia, pelo qual os velhos seriam forçados a concordar
com a própria morte. Depois, a ‘cláusula’ passou a incluir também os incapazes,
como o filho mais novo de Palin, o qual , nas palavras dela, teria de
“justificar” a própria existência. Tudo isso sempre foi deslavada mentira – mas
a direita já encontrara o ponto de apoio de que precisava; Palin declara que
propostas (inexistentes) são “expressão do mal absoluto” – e propostas
(existentes) são varridas do mundo.
A estratégia tem
sido surpreendentemente bem-sucedida. Agora, todas as conversas sobre
assistência pública de saúde têm de começar por os Democratas explicarem
detalhadamente que não, não são favoráveis ao assassinato de velhinhos –
enquanto os Republicanos insistem em defender um status quo que mata 18 mil
norte-americanos por ano.
A hipocrisia é de
assustar: Sarah Palin, quando governadora do Alasca, encorajava os cidadãos a
assinar aqueles documentos-testamentos, sobre suspensão de tratamento médico.
Praticamente todos os Republicanos que hoje fazem campanha contra os “comitês da
morte” votaram no passado a favor dos documentos-testamentos sobre suspensão dos
tratamentos. E a mentira já fazia germinar sua semente maléfica: lançara-se para
o alto uma mão de confetes envenenados, para confundir e distrair; em seguida,
começaram a sumir os votos de apoio ao plano para salvar vidas.
Essas manifestações
frenéticas separaram-se da realidade, de tal modo que soam hoje como comédias de
humor negro. A revista US Investors’ Daily, manifestamente de direita, publicou
que, se Stephen Hawking fosse britânico, o sistema britânico “socialista” de
saúde tê-lo-ia deixado morrer sem assistência. Hawking respondeu, depois de
tossezinha polida, que é britânico e que “não estaria aqui, se o Serviço
Nacional de Saúde britânico não existisse”.
Essa tendência de
simplesmente negar fatos inconvenientes e inventar um mundo de fantasia não é
novidade – apenas se está tornando cada vez mais espantosa. Percorreu os anos
Bush com o entusiasmo de um jorro de bourbon em água. Quando se tornou claro que
Saddam Hussein não tinha armas de destruição em massa, os EUA simplesmente
‘declararam’ que as armas haviam sido mandadas para a Síria.
Para muitas das
principais figuras do Partido, trata-se de simples manipulação cínica. Um dos
ex-conselheiros de Bush, David Kuo, disse que o presidente e Karl Rove
por-se-iam a zombar dos evangélicos no instante em que saíssem da Casa Branca.
Mas a base dos Republicanos acredita, mesmo, nas bobagens que o Partido tem
‘declarado’.
Estão sendo
arrastados contra seus próprios interesses, por ação de falsos medos de demônios
inventados. Semana passada, um dos Republicanos mandados a uma prefeitura para
demolir um centro de atendimento médico começou uma briga e foi ferido – e
depois reclamou que não tem seguro-saúde. Não é engraçado. Por pouco não chorei
ao ouvir a história.
Como conseguem ser
tão impermeáveis à realidade? Tudo começa, me parece, pela religião. São
ensinados desde a mais tenra idade que é bom ter “fé” – e a fé, por definição
implica crer em algo sem qualquer comprovação empírica. Ninguém depende de “fé”
para acreditar que a Austrália existe; ou de que o fogo queima: há provas de
tudo isso.
Mas é preciso ter
“fé” para acreditar em mentiras ou em eventos absolutamente improváveis. De
fato, os Republicanos são ensinados que a fé é aspiração muito digna, a mais
alta das aspirações e a mais nobre das causas. Não surpreende que essa lição
invada todos os espaços mentais e contamine as ideais políticas? O pensamento
baseado na fé espalha-se e contamina o pensamento racional.
Até agora, Obama não
respondeu a esse massacre pela des-razão. Tem implementado uma estratégia dupla:
conciliar os interesses da elite econômica, e fazer piada sobre a marola de
fanatismo que estão criando.
Assegurou
(vergonhosamente) às empresas farmacêuticas que um sistema expandido de saúde
não usará o poder do governo como fator de barganha para fazer baixar os preços
dos remédios –, ao mesmo tempo em que dizia, ao grande público, que “não estou
planejando matar vovó”. Em vez de enfrentar declaradamente tanto os interesses
mais agressivos quanto as fantasias mais bizarras, Obama optou por bajular uns e
diminuir a importância das outras.
Esse tipo de loucura
não pode ser vencida por sedução nem conquistada por cooptação: tem de ser
derrotada. Muitas vezes, em política, o inimigo é inevitável e tem de ser
derrotado democraticamente. O sistema político não pode ser atropelado pela
necessidade de satisfazer os deputados mais doidos ou mais doentiamente
ambiciosos.
Não há como expandir
o atendimento público de saúde sem enfurecer os laboratórios da ‘Big Pharma’ e
os Republicanos mais pirados. Então, que seja! Como escreveu Arianna Huffington:
“É tão sem sentido quanto seria, no auge do movimento pelos Direitos Civis,
supor que seria preciso esperar que Martin Luther King e George Wallace
concordassem. Esse não é o caminho para qualquer mudança.”
Por estranho que
pareça, o Partido Republicano está realmente mergulhando num estranho culto
bizarro, segundo o qual Barack Obama é matador de criancinhas e inventor
ardiloso de sangrentos “comitês da morte” para matar os velhinhos
norte-americanos. O novo slogan dessa gente poderia ser “bebês, encolham! Vovó,
desapareça!”.
* Colunista do The Independent. |