Pré-sal: oposição assina emendas preparadas pelas multinacionais
Três emendas
de deputados do Dem e PSDB tinham o mesmo texto visando favorecer cartel das
7 Irmãs
Os lobistas das multinacionais organizados no
IBP (Instituto Brasileiro do Petróleo) usaram deputados do PSDB e do DEM
para apresentar emendas contra os interesses do Brasil e da Petrobrás nos
projetos que mudam a legislação para o pré-sal, enviados pelo governo ao
Congresso. As justificativas apresentadas por Eduardo Gomes (PSDB-TO), José
Carlos Aleluia (DEM-BA) e Eduardo Sciarra (DEM-PR) em suas emendas são
rigorosamente idênticas e foram assumidas pelo IBP.
“A previsão legal de um monopólio ou reserva de
mercado para a Petrobras não se justifica em hipótese alguma”, diz um mesmo
trecho das três emendas dos deputados da oposição. Além do fim do monopólio
da Petrobrás na operação dos novos campos, as múltis usaram outros
parlamentares, como Ronaldo Caiado (DEM-GO) e José Aníbal (PSDB-SP), para
defender a redução do poder da Petro-Sal (a estatal que gerenciará o novo
modelo) nos comitês de exploração, o fim da contratação direta da Petrobrás
e da exigência de que a estatal tenha participação mínima de 30% em todos os
novos campos.
Flagrado com texto idêntico ao de outros
deputados, o líder da bancada do PSDB, deputado José Aníbal (SP), confirmou
que foi procurado por representantes do IBP (Instituto Brasileiro de
Petróleo) e que assinou emendas elaboradas pelo órgão. “Meu pessoal sugeriu
que eu assinasse as emendas no sentido de estimular a discussão”, disse
Aníbal, explicando que achou estranho que, depois, tenham aparecido emendas
exatamente iguais à sua. “Estou totalmente em desacordo com este
comportamento, mas não discordo do mérito”, disse ele, anunciando que mandou
retirar as emendas.
LEGISLAÇÃO
O governo decidiu mudar a legislação que regula
a exploração de petróleo no país depois da descoberta da região do pré-sal,
área rica em gás e petróleo de alta qualidade e de baixo risco exploratório,
no litoral brasileiro. Diante da situação criada com a nova descoberta feita
pela Petrobrás, o presidente Lula e o Conselho Nacional de Energia
determinaram a retirada de 41 blocos da nona rodada de licitações promovida
pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), que previa o regime de concessão.
Neste regime, as empresas exploradoras tornavam-se donas do petróleo
extraído. O governo quer o regime de partilha, onde a União passa a ser a
dona do petróleo retirado. O presidente Lula propôs também que a Petrobrás
passe a ser operadora única de toda a região. O IBP quer impedir essas
mudanças que fortalecem a Petrobrás e beneficiam o Brasil.
A entidade de fachada do Cartel das Sete Irmãs
espalhou oito emendas através dos parlamentares oposicionistas na Câmara
Federal. Seu objetivo central é garantir a presença das empresas
estrangeiras na exploração do pré-sal e impedir o fortalecimento da
Petrobrás. Numa das emendas o cartel procura garantir que a oitava rodada de
licitações, suspensa pela justiça, mantenha os contratos de concessão mesmo
em áreas que pertençam ao “polígono do Pré-Sal”. “A presente emenda aditiva
tem por escopo esclarecer que os blocos ofertados na 8ª Rodada de
Licitações, os quais encontram-se localizados na área delimitada no anexo do
projeto de lei 5.938/2009 (“polígono pré-sal”), não deverão ser alcançados
pelo regime de partilha de produção e que a 8ª Rodada de Licitações deverá
ser concluída e validada”, diz um trecho da emenda.
Outra emenda patrocinada pelas multinacionais
questiona a legalidade da contratação direta da Petrobrás para a exploração
do pré-sal. Diz o texto: “A contratação direta é inconstitucional e este
projeto de lei, na sua forma original, abriria margem para posterior
declaração de inconstitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal”.
PROJETOS
E apresenta o argumento de que a União, “quando
opta por não exercer, ela própria, a atividade por ela monopolizada, pode
contratar a realização desta atividade (nos termos do parágrafo primeiro do
art. 177 da CF), porém, sempre em observância ao procedimento licitatório
inserido no art. 37, caput e inciso XXI da Constituição Federal”. O objetivo
é evidente: impedir que o governo contrate diretamente a Petrobrás nas áreas
consideradas estratégicas, como está previsto num dos projetos enviados pelo
Planalto ao Congresso Nacional.
O cartel pretende também entrar no pré-sal
impedindo que a Petrobrás seja a operadora única, como quer o governo. “Não
se contesta a notória competência da Petrobras para desenvolver as
atividades de exploração e produção de petróleo e gás. Entretanto, além do
fato de que uma sociedade de economia mista não pode receber um tratamento
privilegiado em detrimento das demais empresas privadas, é importante
destacar que pelo menos 60% do capital social da Petrobras é detido por
entes privados”, argumenta a emenda das múltis.
As outras emendas questionam o peso da nova
estatal no controle que, por proposta do governo, deverá ser exercido pelo
Comitê Operacional, órgão criado para defender os interesses da União nos
contratos de partilha. Eles querem impedir o poder de veto da Petro-sal no
comitê e angariar peso maior das empresas estrangeiras nesta estrutura. Além
disso, os custos operacionais na exploração do petróleo, calculados para
efeito de definição da partilha, não poderão, segundo o IBP, ser definidos
pelos comitês operacionais, mas sim pelas empresas contratadas. O que elas
querem com isso é que elas próprias definam os custos para manipular os
resultados e interferir na partilha dos lucros.
As propostas apresentadas pelo governo são um
avanço na direção do fortalecimento da Petrobrás e numa maior garantia de
que os recursos do pré-sal serão usados para incrementar o desenvolvimento
nacional. A atuação da oposição, em conluio com as multinacionais, ao
contrário das propostas do governo, visa fundamentalmente entregar as
riquezas do pré-sal para a ganância das potências estrangeiras. Uma ação
claramente voltada contra os interesses nacionais. Tucanos e demistas
confirmaram reuniões com os lobistas para preparar sua atuação pró-múltis
nos debates do pré-sal.
MOBILIZAÇÃO
Entidades como a Aepet (Associação dos
Engenheiros da Petrobrás) defendem uma grande mobilização nacional para
garantir as mudanças da legislação (ver matéria ao lado). A Aepet apóia a
iniciativa do governo e propõe mudanças para que a Petrobrás seja não só a
operadora única mas também exploradora única do pré-sal. O argumento da
entidade é que a estatal já mostrou que é a única empresa que tem tecnologia
e capacidade para explorar o pré-sal. Além disso, com as reservas de
petróleo que o país passa a ter, a estatal brasileira tem todas as condições
de obter todos os recursos necessários, junto ao sistema financeiro, para a
exploração da região. Segundo o presidente da entidade, Fernando Siqueira, o
controle do pré-sal pela nação e a exclusividade da Petrobrás na sua
exploração é o caminho que garantirá ao país o controle sobre os seus
recursos e sobre o ritmo adequado de exploração de petróleo no país.
SÉRGIO CRUZ