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Serra, a única opção da direita
GILSON CARONI FILHO*
Ao afirmar, em discurso na sede do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA),
que os atuais pré-candidatos à presidência da República têm todos origem na
esquerda, Lula desenhou um cenário que precisa ser melhor delineado para
entendermos seus desdobramentos. Qual seria o alcance dessa observação feita em
clima de descontração? Onde estão seus limites teórico-políticos? Por que foi
rapidamente endossada pela grande imprensa e por conhecidos acadêmicos que
pontificam em suas folhas?
Se, por sua trajetória pessoal, o governador de São Paulo, José Serra, em
princípio, não chega a ser o “queridinho do mercado”, é bom lembrar que
circunstâncias históricas particulares não raramente produzem uma alteração
diferencial do voto conservador. Sua provável candidatura vem de uma linhagem
político-partidária definida desde a eleição de Fernando Henrique em 1994. Um
consórcio que, por oito anos, abrigou parte dos grupos oligárquicos mais
reacionários da política brasileira.
Não faltará quem argumente que os maiores problemas de Serra serão o entorno e a
política de alianças que terá que manter. Lorota, falácia pura. Como lembrou o
sociólogo Chico de Oliveira em entrevista para a Revista Adusp, dois anos após a
vitória de FHC, “a liderança da coalizão que sucateou o país sempre coube ao
PSDB”. Foram desse partido, e não do PFL, as diretrizes do neoliberalismo, de
uma modernização conservadora que, reforçando as estruturas oligárquicas do
Estado brasileiro, aprofundou o fisiologismo e o patrimonialismo que impedem a
republicanização da prática política e do gerenciamento das demandas populares.
Afirmações que dão como esgotadas as contradições entre tucanos e petistas são
mais exercícios de transformismo do que análises calcadas em qualquer evidência.
Ignoram que a identidade partidária é, sobretudo, um fenômeno vinculado ao que é
construído na participação política e no exercício do poder. Fingem não se dar
conta de que os avanços obtidos no governo do presidente Lula dramatizam a
urgência de profundas reformulações político-institucionais. E é isso que estará
no centro das eleições de 2010: da consolidação das políticas sociais ao marco
regulatório do pré-sal.
Com sua política de terra arrasada, o governo FHC açulou várias contradições e
antagonismos da sociedade brasileira. Porém, ao mesmo tempo em que as levou ao
paroxismo, construiu uma unidade de pensamento que aglutinou parcelas
expressivas da população em torno de aspirações de uma mudança substantiva nas
estruturas que sustentavam a ordem social vigente.
Os dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD) relativa ao ano
de 2008 atestam a inegável inflexão ocorrida no país. Um quadro totalmente
distinto daquele herdado em 2002, quando 46 milhões de habitantes viviam abaixo
da linha da pobreza. Sem contar os 20% de desempregados e os que, mantendo os
postos, sofriam uma queda de 10% na renda nacional.
Se a fluidez do processo político brasileiro com freqüência prepara armadilhas
para o analista, a identificação dos núcleos de inconformismo com os avanços
obtidos permite uma clivagem segura. O governador Serra conta com o apoio da
grande mídia e dos segmentos mais associados a modelos excludentes e a políticas
externas marcadas por inserção subalterna no cenário mundial.
Votam no governador os que defendem o Estado mínimo, os que advogam que o
mercado é um mecanismo capaz de auto-regulação perfeita, os que se opõem a uma
mudança de paradigma econômico, em suma, a direita truculenta que nunca teve
qualquer projeto de país ou compromisso com a democracia. Os que se negam a
passar a limpo radicalmente as instituições políticas, econômicas e culturais.
Toda esta acumulação de farsa se reagrupa novamente sob a plumagem do tucanato.
Dessa vez, ao contrário de outros momentos da história brasileira, há partidos
políticos do campo democrático-popular consolidados e lideranças que podem
assumir com coerência e nitidez a vocação renovadora exigida pela nova cidadania
brasileira. Nunca foi tão nítida a distinção entre esquerda e direita. Forjar
falsos consensos no ano que antecede um pleito majoritário, uma disputa em que
tudo “é ou bola ou búlica” apenas serve para levar água para os moinhos da
direita. A moagem que só interessa à candidatura de José Serra.
* é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no
Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador da Hora do Povo e do
Observatório da Imprensa. |