|
Obama cancela ‘escudo de W. Bush’ e
instala os antimísseis em navios
O presidente Barack Obama anunciou o cancelamento das duas bases
“antimíssil” no leste europeu (Polônia e República Checa) cuja implantação
havia sido ordenada pelo governo de W. Bush. O presidente russo Dimitri
Medvedev considerou a decisão “positiva”, apontou que a Rússia “valorizava o
enfoque responsável dos EUA em relação a implementar nossos acordos” e se
disse “pronto para continuar o diálogo”. O cancelamento das duas bases
antimíssil foi anunciado às vésperas das conversações entre EUA e Rússia
sobre a redução do arsenal nuclear.
Apesar do cancelamento dessas bases, o que os EUA estão fazendo é instalar
um sistema antimíssil de outro tipo em quatro etapas, a primeira das quais
seria o uso dos interceptadores de curto alcance que Washington já dispõe, o
sistema Aegis e o míssil SM-3, a bordo de navios no Mar Mediterrâneo, no Mar
Báltico e no Atlântico Norte. Conforme denúncia feita pelo embaixador russo
na ONU, os mísseis que seriam instalados na Polônia levariam quatro minutos
para atingir Moscou. O que havia levado a Rússia a decidir a transferência
de mísseis de curto alcance e grande precisão para o território de
Kalingrado, na fronteira entre a Polônia e a Lituânia; a se retirar do
tratado de armas convencionais na Europa; e a tomar medidas de urgência para
ampliar e modernizar seus mísseis intercontinentais.
O fim do escudo de Bush foi condenado pelo ex-candidato republicano John
McCain e pelo ex-embaixador na ONU, John Bolton, que disse que Obama estava
“atendendo aos russos sem receber nada em troca”. O governo reacionário da
Polônia também se uniu ao coro dos descontentes. Governos europeus
aplaudiram a decisão de Obama. Já o chefe do Instituto de Assuntos
Estratégicos de Moscou, Alexander Konovalov, assinalou, como outro motivo
para os EUA pôr de lado o escudo de Bush, a irracionalidade de gastar
bilhões de dólares “para desenvolver um sistema não-provado contra uma
ameaça inexistente em condições de crise econômica”.
Apesar do anúncio de Obama, autoridades russas advertiram contra excesso de
otimismo em relação à questão, apontando que nada está decidido até que haja
acordo sobre o sistema antimíssil e a participação russa, conforme oferta já
feita por Moscou. Em entrevista, o presidente norte-americano referiu-se ao
repúdio da Rússia ao cerco que o Pentágono lhe tem dedicado nas últimas duas
décadas como uma “paranóia” sem sentido, mas o chefe do Pentágono, o
republicano Robert Gates, ministro herdado de Bush, estendeu-se em
considerações sobre as quatro etapas no novo sistema antimíssil na Europa. E
inclusive revelou que em 2015 os EUA poderão voltar a instalar os
“antimísseis” no continente europeu. Na mudança de “conceito de antimíssil”,
saiu perdendo a Boeing, que iria fornecer os interceptadores, e ganharam a
Raytheon e Lockheed, donas dos novos contratos. Como o pretexto de Bush para
instaurar sua bateria de mísseis a quatro minutos de Moscou eram os “mísseis
de longo alcance do Irã”, a CIA providenciou um novo relatório, registrando
que o Irã estaria atrasado no desenvolvimento desse tipo de arma, e que o
que precisaria ser supostamente contido seriam os ‘mísseis de curto e médio
alcance’.
A Rússia jamais aceitou esse pretexto dos mísseis iranianos ou
norte-coreanos. Moscou sempre advertiu que o alvo do sistema de Bush era a
Rússia, e seu objetivo era de remover a paridade estratégica existente, e
anular a força de dissuasão nuclear russa. Os maníacos do Pentágono passaram
a acreditar que, em função da devastação sofrida pela Rússia após o fim do
socialismo, e do sucateamento do seu arsenal nuclear, os EUA teriam
alcançado afinal a capacidade de cometer o chamado “primeiro ataque
nuclear”, em que a grande maioria dos mísseis intercontinentais russos seria
destruída e os poucos que sobrassem seriam abatidos pelos antimísseis
próximos à fronteira russa. De acordo com outro entendimento, o objetivo
seria abater os mísseis intercontinentais no estágio inicial, quando ainda
estão adquirindo velocidade.
Rompida a paridade nuclear estratégica com os EUA, que nas últimas décadas
se expressou por meio da “destruição mutuamente assegurada”, e sem condição
mais de revide, a Rússia teria de se submeter aos monopólios dos EUA.
Denúncia que não foi feita só por russos: cientistas norte-americanos
assinalaram que o objetivo do escudo era a Rússia e não qualquer ‘estado
pária’ com meia dúzia de lançadores. Por outro lado, a capacidade real dos
“antimísseis” de Bush de efetivamente abater em vôo, em condições reais, um
míssil intercontinental, tem sido, há anos, contestada por cientistas dos
EUA, que denunciaram que os testes que “deram certo” foram escandalosamente
fraudados.
|