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Os fatos de
Honduras e as versões distorcidas
MAURO SANTAYANA
O governo de fato de Honduras restabeleceu o
suprimento de água e energia elétrica à Embaixada do Brasil, que havia sido
cortado em flagrante violência aos princípios diplomáticos internacionais.
Esperava-se, no início da noite, a chegada do secretário-geral da OEA, José
Miguel Insulza, a Tegucigalpa, com o objetivo de retomar o diálogo. Qualquer que
venha a ser o desfecho da crise, o Brasil não pode desculpar o insulto à sua
soberania. Os Estados Unidos estão atuando com firmeza no episódio, como mostram
as declarações da secretária de Estado Hillary Clinton. Espera-se que Obama,
passadas estas horas em que esteve ocupado com o problema da Palestina – onde se
situa o Estado de Israel – venha a ocupar-se com maior atenção do que ocorre na
América Central.
Quem ouve os comentários dos cientistas
políticos e analistas internacionais das emissoras de televisão e lê alguns
jornais brasileiros está certo de que Zelaya pretendia, em referendum popular –
que ocorreria em junho passado – disputar um segundo mandato presidencial. Não é
verdade. Zelaya queria – e sem efeito vinculante – que o povo dissesse se
concordava, ou não, que nas eleições de novembro próximo uma quarta urna fosse
colocada nas seções eleitorais. Nessa urna especial, os eleitores aceitariam, ou
não, a convocação de Assembléia Nacional Constituinte para redigir nova Carta
Política. A consulta direta ao povo, por iniciativa do presidente da República,
é prevista pela atual Constituição de Honduras, em seu artigo 5º. Embora
provavelmente nova Assembleia Constituinte pudesse tratar também do problema dos
mandatos, a consulta de novembro não faria referência expressa a isso, nem
Zelaya seria beneficiado: ela coincidiria com a eleição de seu sucessor, dentro
das regras atuais do jogo. Portanto, não é verdade que Zelaya pretendesse, com a
consulta prévia – e frustrada com o golpe de junho – obter um segundo mandato
presidencial. Zelaya e as forças políticas que o apoiam pareciam dispostas a
avançar na luta pelo desenvolvimento econômico e social de um dos países mais
pobres do mundo. Tendo sido eleito pelas oligarquias conservadoras, às quais
pertence por origem familiar, Zelaya, no exercício do poder, modificou a sua
orientação ideológica, encaminhando-se para uma posição de centro-esquerda.
A Constituição hondurenha, mesmo estando ultrapassada pela nova situação
mundial, é taxativa, em seu artigo 3º, na condenação aos golpes de Estado. Diz o
dispositivo: “Nadie debe obediencia a un gobierno usurpador ni a quienes asuman
funciones o empleos publicos por la fuerza de las armas o usando medios o
procedimientos que quebranten o desconozcan lo que esta Constitución y las leyes
establecen. Los actos verificados por tales autoridades son nulos. El pueblo
tiene derecho a recurrir a la insurrección en defensa del orden constitucional”.
Se assim é, não foi exatamente Zelaya quem violou a Constituição, mas os
golpistas, civis e militares, que o sequestraram com sua família, alta
madrugada, e o baniram do país.
O que ocorreu em Honduras e tem ocorrido na
América Latina é o conflito entre um presidente eleito por voto majoritário, com
amplo apoio popular, e um Congresso que representa, sobretudo, o poder econômico
conservador. Pouco a pouco, Zelaya se foi distanciando das forças que o haviam
elegido. Daí, provavelmente, a sua preocupação em buscar a convocação de nova
Assembleia Nacional Constituinte – que poderia, eventualmente, promover a sua
volta ao poder em 2014 – mas, também, consolidar algumas de suas medidas.
Se o ocupante da Casa Branca ainda fosse Bush,
provavelmente Washington passaria a mão na cabeça de Micheletti. Caberia aos
partidários de Zelaya organizar movimento armado, como tem ocorrido em algumas
ocasiões, contra os golpistas, ou suportar a ditadura, como em outras. Os
tempos, felizmente, são outros. É preciso fazer da oportunidade – a da
condenação continental quase unânime contra os golpistas hondurenhos – um ponto
de inflexão na história continental.
O Brasil agiu corretamente. Não poderia ter
fechado as suas portas a um presidente legitimamente eleito e violentamente
deposto por um golpe. Os senadores Arthur Virgílio e Heráclito Fortes precisam
reler os acordos internacionais sobre direito de asilo e de refúgio, além da
inviolabilidade das representações diplomáticas e de sua proteção pela
comunidade internacional, antes de criticar o Itamaraty.
Em resposta ao senhor Roberto Freire, a chancelaria pode informar que Zelaya
chegou à embaixada de automóvel.
Artigo reproduzido do Jornal do Brasil.
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