OEA: “a comunidade internacional apoia ação do Brasil em Honduras”
“Exigimos
que Zelaya reassuma”, disse Lula na ONU
Em
entrevista concedida em Nova Iorque, o presidente Lula definiu a situação em
Honduras: “Zelaya voltou ao seu país”. E reiterou o apoio brasileiro ao
presidente hondurenho contra “os golpistas” - e que ele continuará na
embaixada do Brasil enquanto quiser: “não devo explicações aos golpistas”.
“Nós não precisamos gastar meia palavra para
falar do que aconteceu em Honduras. O presidente eleito foi retirado de sua
casa de madrugada à força. Esse presidente resolveu voltar ao seu país”. E,
diante de um espiroqueta da mídia que lhe fez uma pergunta chamando a
ditadura de “governo de fato”, Lula retorquiu: “vocês estão sofisticando o
golpismo”.
Enquanto isso, os golpistas de cá, na mídia e no
parlamento, desempenharam um espetáculo, na quarta-feira, perfeitamente
ridículo. Primeiro, reclamaram que o governo brasileiro estava protegendo
Zelaya. Portanto, estavam pregando que nós deveríamos proteger os golpistas
- que nenhum país do mundo reconheceu. Depois, alguns deles disseram que
Zelaya não tinha o direito de “usar” a embaixada do Brasil. Portanto,
conclui-se, deveríamos entregar o presidente de Honduras aos golpistas.
Muito sintomaticamente, o ditador Micheleti se tornou, nas Tvs, rádios e
jornais dessa malta, o “presidente interino”, enquanto Zelaya, o único
presidente do país, se tornou o “presidente deposto”.
Ao mesmo tempo que o povo hondurenho se
revoltava, lutava pela liberdade e enfrentava a repressão nas ruas –
provavelmente no momento mais luminoso de sua história -, a embaixada do
Brasil era cercada, a água e a luz cortados, nosso Encarregado de Negócios
era agredido com uma bomba de gás lacrimogênio e a embaixada, por nosso
compromisso com a democracia, era ameaçada de invasão, figuras lastimáveis
como o senador Eduardo Valerioduto Azeredo e quadrilhas marca “Veja” e
“Globo” faziam o proselitismo do apoio ao golpe. Aliás, mais do que o
proselitismo, eles manifestavam sua impotência por não conseguirem dar um
golpe no Brasil. Assim, restou-lhes apoiar o golpe em Honduras, tal como
sempre apoiaram os golpes de Estado em qualquer lugar do mundo – e quanto
mais fascistas, mais entusiasmo.
Muito interessante foram as reclamações de que o
presidente de Honduras estava desenvolvendo “atividades políticas” na
embaixada brasileira. Portanto, somente os golpistas podem desenvolver
“atividades políticas” em Honduras. Ao que o presidente Lula respondeu:
“Obviamente, Zelaya não está lá escondido embaixo da cama”.
No entanto, até a OEA, que no passado teve lá
seus problemas, apoiou o Brasil: “Eu acredito que o Brasil agiu bem. O
governo do Brasil está atuando bem e atuou com o respaldo de toda – TODA
com letras maiúsculas – a comunidade internacional”, afirmou o
secretário-geral José Miguel Insulza, em Nova Iorque.
Insulza considerou “muito danosa” a agressão à
embaixada brasileira por parte dos golpistas hondurenhos: “Não nos parece
tolerável o que se fez com a Embaixada do Brasil”.
O secretário-geral da Organização das Nações
Unidas (ONU), Ban Ki-moon, atendendo a pedido do presidente Lula, comunicou
na mesma quarta-feira que a entidade suspendeu o apoio técnico para a
realização de eleições presidenciais em Honduras. Ban Ki-moon disse que a
atual crise política – acompanhada de manifestações populares “faz com que
as eleições marcadas para novembro percam a credibilidade, por causa da
situação instável”.
Em discurso na abertura da Assembléia Geral da
ONU, na quarta-feira, o presidente Lula afirmou, sendo aplaudido pelos
representantes de todas as nações: “A comunidade internacional exige que
Zelaya reassuma imediatamente a presidência de seu país e deve estar atenta
à inviolabilidade da missão diplomática brasileira na capital hondurenha”.
“Não somos voluntaristas. Mas sem vontade
política não se pode enfrentar e corrigir situações que conspiram contra a
paz, o desenvolvimento e a democracia”, disse Lula. “Sem vontade política
continuarão a proliferar golpes de Estado como o que derrocou o presidente
constitucional de Honduras, Manuel Zelaya, que se encontra, desde
segunda-feira, na embaixada do Brasil em Tegucigalpa”. E, em seguida,
denunciou “outro anacronismo” na região: o bloqueio dos EUA contra Cuba.
Em toda a América Latina, manifestantes saíram
às ruas para exigir a volta de Zelaya à presidência e em apoio ao Brasil.
Especialmente significativa foi a manifestação dos argentinos em Buenos
Aires, que se reuniram em frente à Embaixada do Brasil, portando cartazes
onde se lia: “América Latina com Honduras” e “Gracias, Brasil”.
Em entrevista coletiva após o discurso na ONU,
Lula afirmou que foi muito importante o apoio e “a posição do mundo inteiro
de não aceitar golpes. Estamos consolidando a democracia no nosso continente
e não podemos aceitar que por divergências políticas as pessoas se achem no
direito de depor um presidente democraticamente eleito. Você não pode é
aceitar o fato de um golpista se achar no direito de ser presidente sem
disputar as eleições. Por isso nós estamos dando apoio ao presidente Zelaya.
O Brasil apenas fez aquilo que qualquer país democrático faz. O Brasil está
garantindo que Zelaya fique lá”.
SÉRGIO CRUZ