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Crise financeira um ano
depois: zero de regulamentação aprovada
“Algumas coisas
mudaram dramaticamente com a crise mas o poder político de Wall Street
permanece intacto. Nenhuma regra nova foi estabelecida para evitar a
recorrência da crise. Como disse o vice-líder da maioria, senador Richard
Durbin, os bancos “sãos os donos do pedaço” – isto é, do Congresso”
Faz um ano que a Lehman Brothers declarou falência, culminando o crescente
caos em Wall Street.
Nos dias e semanas que se seguiram ao colapso do Lehman de 15 de setembro de
2008, os mercados de crédito congelaram, as bolsas de valores despencaram, o
governo assumiu o controle acionário da AIG, Wachovia e Merrill Lynch
sofreram fusões para desaparecerem, o Congresso aprovou um plano para gastar
US$ 700 bilhões no bailout de Wall Street, o Federal Reserve introduziu uma
leva de programas envolvendo trilhões de dólares para socorrer Wall Street e
os mercados de crédito, e a economia nacional – e grande parte da economia
global – desabaram abruptamente.
Conforme a crise se estendeu, rapidamente se tornou um lugar comum sugerir
que nada seria como antes, em Wall Street ou na economia nacional. Os golias
de Wall Street tinham sido espezinhados - e muitos tinham caído fora dos
negócios, via fusão ou falência. A desregulamentação saiu de moda e mesmo o
ex-presidente do Federal Reserve, Allan Greenspan, admitiu que as bases
conceituais de seu enfoque pró desregulamentação haviam se mostrado falhas.
Passado um ano, está claro que a sabedoria convencional que emergiu assim
que a crise se desencadeou estava errada.
Algumas coisas mudaram dramaticamente – notadamente na economia real – mas
o poder político de Wall Street permanece intacto. Nenhuma regra nova foi
estabelecida para evitar a recorrência da crise. Permanece em aberto se
serão consideradas seriamente quaisquer regras condizentes com a escala da
crise – com a importante exceção da uma nova agência de proteção ao
consumidor financeiro.
A crise financeira tem tido um impacto devastador sobre as pessoas comuns –
e a situação continua piorando, mesmo quando a economia entra no que pode
ser uma recuperação potencial.
O crescimento econômico no total caiu em mais de 5% (em uma base anual) no
quarto trimestre de 2008 e mais de 6% no primeiro trimestre de 2009.
Graças a esse crash econômico, a taxa oficial de desemprego está quase em
10%, com muitos acreditando que persistirá aí ou próximo de dois dígitos até
o final de 2010. A taxa de desemprego real – levando em conta o subemprego e
os trabalhadores desencorajados – alcançou assombrosos 16%.
A taxa de pobreza piorou dramaticamente, considerando-se apenas os dados
disponíveis para 2008. A taxa de pobreza oficial em 2008 foi de 13,2%, acima
dos 12,5% de 2007. Há 39,8 milhões de pessoas vivendo na pobreza em 2008;
2,5 milhões de pessoas a mais que no ano anterior.
A crise das hipotecas continua piorando. Mais de 1,5 milhão de execuções de
hipotecas foram expedidas nos primeiros sete meses deste ano. Até a metade
de 2009, aproximadamente um terço dos devedores hipotecários estavam
‘submersos’ – significando que eles devem mais do que o valor de suas casas
– e o número está crescendo. As hipotecas renegociadas - quase nenhuma
tocando no principal – nem de perto se mantêm em dia. O Goldman Sachs fez a
projeção de que haverá 13 milhões de execuções de hipotecas entre o final de
2008 e 2014.
As causas do crash financeiro continuam intocadas e em alguns casos
pioraram.
Pacotes de premiação fora de controle, ligados à performance nos lucros de
curto prazo, levaram os executivos e negocistas de Wall Street e dos grandes
bancos a assumirem riscos temerários. Para eles, um jogo de cara nós
ganhamos, coroa vocês perdem: se as empresas registrassem lucros de curto
prazo, eles recebiam bônus exorbitantes; se houvesse um colapso a longo
prazo, os acionistas eram penalizados, mas eles já teriam embolsado seus
bônus. Este ano os bônus de Wall Streeet já estão perto de igualarem ou
excederem o inflado passo de 2007.
Bancos e outras instituições financeiras que se crêem “grandes demais para
quebrar” se engajaram em uma especulação selvagem, com a segurança de que em
última instância seriam escorados pelo suporte federal. Esses mastodontes
também ajudaram a gerar a crise alavancando seu poder político para arrancar
as restrições regula-tórias sobre Wall Street. Agora, graças à série de
fusões sob mira de arma, os bancos estão maiores que nunca, e há a
combinação em uma só entidade corporativa de operações de banco comercial e
de especulação.
A proliferação de instrumentos financeiros exóticos levou à alavancagem
massiva e a complicadas interconexões entre as maiores corporações, que
ninguém tem como rastrear. O desfecho desses laços levou à queda da AIG,
entre outras coisas. Conquanto derivativos financeiros sejam justificados
como meio de conceder proteção [“hedge”] contra riscos aos agentes
econômicos, ficou constatado que, primariamente, eles são instrumentos
especulativos usados esmagadoramente por um pequeno número de especuladores.
Esta concentração de apostas especulativas massivas continua, com cinco
bancos detendo mais que quatro-quintos do valor nocional de todos os
derivativos nos Estados Unidos. O valor nocional dos derivativos em posse
desses bancos excedeu US$ 190 trilhões no primeiro trimestre de 2009.
Os anos de euforia no início da década foram turbinados por uma bolha
imobiliária e práticas de empréstimo enganosas. A extorsão dos consumidores
continua célere – e parece ser central para o modelo de negócios dos bancos.
Apenas as taxas sobre saques a descoberto [“overdrafts”] trarão mais de US$
38 bilhões de receitas para os bancos em 2009.
Entrementes, o público está pagando massiva-mente pela salvação de Wall
Street dela própria. O Inspetor Geral Especial incumbido de fiscalizar o
bailout estimou que as agências governamentais, incluindo o Federal Reserve,
no final das contas terão posto mais de US$ 23 trilhões em vários programas
e mecanismos de suporte relacionados com a crise financeira. Esse total é
quase três vezes o que foi gasto na II Guerra Mundial, em dólares
corrigidos.
A maior parte desses trilhões voltará ao Federal Reserve ou ao Tesouro, mas
isso em pouco alivia a escala do investimento público e risco comprometidos
para salvar Wall Street. E o Departamento do Tesouro certamente irá perder
dezenas de bilhões – muito possivelmente centenas de bilhões – no acerto.
A desregulamentação que levou à crise financeira, a resposta imediata
favorável aos bancos, e a falha em impor restrições significativas sobre
Wall Street após a crise, tudo isso pode ser rastreado até o poder político
de Wall Street. Wall Street gastou mais de US$ 5 bilhões em contribuições às
campanhas políticas federais e em lobby de 1998 a 2008, e esse gasto
fervente prossegue. Apenas em 2009 o setor financeiro gastou mais de US$ 200
milhões nas ações de lobby.
Na primavera deste ano, os bancos derrotaram uma proposta, sobre a qual
havia a expectativa de aprovação, que autorizava os “cramdowns” de hipotecas
em bancarrota. Esta modesta medida teria permitido que juizes de falência
ajustassem o principal da hipoteca em caso de bancarrota, para ajudar as
pessoas a manterem seus lares. Isso teria tido uma aplicação relativamente
limitada e possivelmente teria ajudado a salvar os bancos, abalroados por
execuções de hipotecas num ambiente onde eles não têm como vender as casas
das quais despejaram os devedores. Mas o “cramdown” viola o compromisso
ideológico dos bancos de evitar ajustes do principal.
Eles se mobilizaram para derrotá-lo, levando um frustrado vice-líder da
maioria, o senador Richard Durbin, a dizer que os bancos “sãos os donos do
pedaço” – isto é, do Congresso.
E agora, a “Financial Services Roundtable” [Conferência dos Serviços
Financeiros] anunciou abertamente sua intenção de “matar” a mais importante
medida das reformas proposta pelo governo Obama: a criação de uma agência de
proteção ao consumidor de serviços financeiros. [NR: esta semana o
Secretário do Tesouro abriu mão da idéia].
Possivelmente uma das mais elucidativas estatísticas seja o número de leis
para reforma do sistema financeiro aprovadas, um ano após do colapso do
Lehman Brothers: zero.
*Robert Weissman é presidente da entidade “Public Citizen”. Artigo
publicado originalmente sob o título “A Crise Financeira Um Ano Mais Tarde:
Quanto Mais as Coisas Mudam, Mais Continuam as Mesmas” no site
www.multinationalmonitor.org
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