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Está na hora de
retomar a Telefônica
O texto abaixo é um
claro e preciso relato da construção e das vicissitudes de nosso sistema de
telecomunicações desde a fundação da Telebrás – e, sobretudo, do caótico estado
atual, após a privatização perpetrada pelo governo Fernando Henrique. O autor,
engenheiro da área, esteve na Telebrás praticamente desde seu início – e na sua
principal subsidiária, a Telesp. Posteriormente, foi, no Brasil, diretor da
Motorola-Nortel, da BellSouth Telecommunications e presidente da Lucent
Technologies. O texto foi originalmente publicado pelo jornalista Paulo Henrique
Amorim em seu site, “Conversa Afiada”. Os leitores podem estranhar, apenas, que
em um texto tão lúcido haja uma tirada algo desavisada sobre Karl Marx -
sobretudo na presente crise, o mais atual dos pensadores. Mas, depois de ser
diretor de duas multinacionais e presidente de uma, cargos dos quais, em geral,
seus ocupantes saem como se seu cérebro fosse sugado por um tamanduá alienígena,
até que os danos causados ao autor foram bem pequenos...
C.L.
VIRGÍLIO FREIRE
*
No final da
década de 1990, sob a influência de Margareth Thatcher, Ronald Reagan e Wall
Street, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso resolveu privatizar tudo que
pudesse, e na sua lista o item mais importante eram as telecomunicações. Por dar
a máxima importância ao assunto, colocou seu melhor amigo e principal
colaborador, Sérgio Motta, no Ministério das Comunicações, com a principal
missão de privatizar a Telebrás. A idéia corrente na época era de que o Estado
não tinha condições de investir nem de ser um bom administrador de empresas.
Este conceito mostrou-se falso na última década.
2. Antes de prosseguirmos, é importante, muito
importante, destruir um mito. O de que a antiga Telebrás e suas subsidiárias
eram incompetentes, ineficientes, lentas, burocráticas e incapazes de prestar os
serviços de telecomunicações necessários exigidos por uma sociedade moderna.
Mostrarei por que isto não é verdade.
3.
A Telebrás tinha sede em Brasília, e atuava através de subsidiárias, uma em cada
Estado brasileiro. Estas operadoras, todas, sem exceção, tinham lucros
consideráveis todos os anos. Os balanços anuais da Telebrás e de suas
subsidiárias estão nos arquivos dos jornais, da Anatel, do Ministério das
Comunicações, e confirmam isso. Com estes lucros, a Telebrás e suas empresas
poderiam facilmente investir, implantar novos sistemas e instalar milhões de
telefones para os brasileiros. Os recursos, na época, eram da ordem de bilhões
de dólares, nada inferiores aos valores que as operadoras privadas “investem”
atualmente (voltarei a este tema mais adiante).
4. Durante os governos militares, entre 1964 e
1974, nestes 10 anos, a Telebrás teve grande autonomia de ação, pois os generais
e militares que governavam o Brasil viam as telecomunicações como um setor
estratégico para o desenvolvimento e a defesa. Quando entrei na Telesp,
subsidiária da Telebrás em São Paulo, em 1973, não havia necessidade de concurso
público: a empresa admitia seus funcionários através de um Departamento de
Recursos Humanos, como qualquer outra organização, com base em testes,
entrevistas, comparação entre candidatos etc. Nosso orçamento era administrado
pela própria Telesp e pela holding, a Telebrás, e inteiramente gasto e aplicado
dentro do sistema de telecomunicações.
5. Quando entrei para a Telesp, o Brasil todo
tinha 3 sistemas de micro-ondas – um ligando o Rio a São Paulo, outro ligando
São Paulo a Campinas e um terceiro ligando o Rio a Brasília.
6. Os militares criaram um fundo para que o
sistema de telecomunicações pudesse expandir-se e manter-se financeiramente
robusto. Era uma taxa, cobrada em todas as contas telefônicas, chamada FNT, ou
Fundo Nacional de Telecomunicações. Por lei, este dinheiro, que era de bilhões
de dólares, deveria TODO ser aplicado na expansão, ampliação, manutenção e
operação das telecomunicações do Brasil.
7. Estes recursos foram aplicados de forma
ética e profissional por um grupo de jovens profissionais vindos da universidade
na década de 60, engenheiros acima de tudo, gente com pós-graduação na França,
nos Estados Unidos etc., e orientados por engenheiros militares – homens sem
qualquer orientação ideológica, mesmo naquela época da Guerra Fria. Entre os
anos de 1968 e 1978 o Brasil passou de apenas 3 ligações de micro-ondas para uma
rede de torres com altura de até 100 metros, cobrindo desde Manaus a Porto
Alegre, de Corumbá a Natal. Dezenas de milhares de quilômetros de micro-ondas,
interligando o País. Implantou-se a Discagem Direta a Distancia, que hoje é
considerada corriqueira, mas, antes da Telebrás, para se falar com outra cidade
tinha de ser através da telefonista.
8.
A Embratel,
encarregada dos troncos de longa distância, mandou seus engenheiros
especializarem-se no Japão, Estados Unidos, França, Itália. Assim, os recursos
do Fundo Nacional de Telecomunicações foram usados da forma prevista em lei, e
eficientemente.
9. Ocorre que nos últimos governos militares,
ou seja, dos generais Ernesto Geisel e João Figueiredo, e posteriormente já sob
a presidência de José Sarney, que somam 16 anos (note bem, 16 anos), a Telebrás
viveu sob uma série de limitações e restrições. Foi a época da hiperinflação, em
que em apenas um dia a moeda brasileira perdia mais de 1% ou 2% de seu valor. Em
um ano a inflação era de mais de 1.000%.
10.
O ministro todo-poderoso na época dos
militares era o hoje deputado Antônio Delfim Netto. O Brasil havia contraído
pesadas dívidas com bancos estrangeiros, e havia uma enorme pressão do governo
americano, do FMI e do Banco Mundial para que esta dívida fosse paga dentro do
prazo. E não conseguíamos. Todos os anos renegociávamos a dívida. Deixávamos de
pagar, atrasávamos os pagamentos. Delfim, então, criou um “Fundão”. Ilegal, mas
na época nada que os militares e seus amigos resolvessem era ilegal.
11. Delfim determinou que os recursos de todos
os fundos setoriais, como era o caso do Fundo de Telecomunicações, fossem
diretamente depositados no Fundão, e que não fossem mais aplicados nos setores
respectivos. Então, a partir da década de 1980, a Telebrás foi forçada a
renunciar aos enormes recursos do FNT e colocá-los no Fundão. Mas a coisa ficou
ainda pior. Delfim criou um organismo chamado Secretaria de Controle das
Estatais (Sest). A função desta secretaria era administrar as estatais.
Literalmente.
12. Então, também a partir dos anos 1980, a
Telebrás, todos os anos, elaborava seu orçamento de investimentos e de gastos em
operação para o ano seguinte, e seu presidente era forçado a ir negociar estes
números com a Sest. Nesta última, quem mandava eram os jovens economistas
discípulos de Delfim Netto, preocupados apenas em pagar a famosa dívida externa,
e sem nenhuma sensibilidade para um conceito mais amplo e estratégico de
desenvolvimento da infraestrutura do País, em estradas, transportes, ferrovias (sucatearam
toda a rede ferroviária do Brasil) e telecomunicações.
13. Então, a Sest analisava os planos da
Telebrás apenas do ponto de vista econômico, e ainda assim com a estreita visão
de verificar o quanto a Telebrás poderia contribuir para a redução da dívida
externa – não comprando equipamentos importados, não gastando em pessoal etc. O
nível de controle central e de opressão da Telebrás chegava ao ponto de que
qualquer reajuste de salários tinha de ser aprovado pela SEST, qualquer aumento
no número de funcionários da Telebrás tinha de também ter sua aprovação. Os
gastos com operação, com pessoal, com equipamentos, os investimentos em novos
sistemas, tudo tinha de ser aprovado pela Sest.
14. Pense um pouco no martírio que é para uma
empresa de alta tecnologia, que tem de atuar num mercado ágil e em contínua
mudança, ter de solicitar à Sest aprovação para aumentar o número de
funcionários de 50.356 para 51.896, por exemplo – não estou exagerando, estes
fatos ocorreram. Nós, executivos da Telebrás, estávamos constantemente
frustrados pela camisa de força da Sest, e impedidos de reagir contra ela – até
porque o presidente da Telebrás era um general (muito íntegro, respeitado por
todos, mas nenhum general descumpre uma ordem superior).
15. E ainda ficou pior. Uma vez aprovado pela
Sest quanto a Telebrás podia investir, era necessária a aprovação do Congresso
Nacional. Permitam-me insistir – a Telebrás, em determinado ano, lucrava US$ 4
bilhões. Propunha à Sest investir em novos sistemas US$ 2 bilhões, por exemplo,
a fim de atender à demanda telefônica, que não era atendida. A Sest fazia seus
cálculos cabalísticos e informava à Telebrás que só poderia investir US$ 1
bilhão – o restante iria para ao pagamento da dívida externa. A Telebrás
obedientemente investia apenas o autorizado, e a demanda ficava não atendida, as
pessoas frustradas, revoltadas, porque devido a esta limitação artificial de
recursos e ao fato de não dispor mais do dinheiro do FNT, os prazos para receber
uma linha telefônica nova eram de 2 ou 3 anos. Repetindo: a Telebrás tinha
dinheiro e não a deixavam gastar. O sistema telefônico estagnava, e a culpa era
atribuída erroneamente à nossa empresa de telecomunicações.
16. O orçamento de investimentos
já drasticamente reduzido pela Sest era então submetido ao Congresso, que fazia
novos cortes. E enquanto o Congresso não aprovasse, a Telebrás não podia
investir sequer o que a Sest havia autorizado.
17. Essas eram as condições de governança da
Telebrás. Apesar de seu porte, de ser lucrativa, de ter um mercado ávido, de
possuir recursos financeiros e humanos, era impedida de trabalhar como uma
empresa, e forçada a funcionar como uma repartição pública. Os governos civis
mantiveram o Fundão, mantiveram o controle da Sest, e a Telebrás continuou
engessada, para frustração do público e dos profissionais que nela atuavam, e
que queriam atender às necessidades em telecom do Brasil.
18. Criou-se então, propositalmente ou não, a
imagem de que “o Estado não sabe administrar”. Pelo visto acima, não era uma
questão de ser ou não administrada pelo Estado e sim de ter liberdade de
funcionar como uma empresa. Na mesma época, a Petrobrás era dispensada destes
controles, ou, se os havia, ela os ignorava, e continuou expandindo-se, no
Brasil e no exterior. Prosseguiu nas pesquisas de extração no mar, assinou
parcerias com outros países etc. Já a Telebrás foi ficando cada vez mais
desmoralizada, por se submeter aos cortes e à perda de seu fundo de expansão.
19.
Era a década de 1980, e a moda eram as
privatizações na Inglaterra feitas por Margareth Thatcher, era a implantação do
“Modelo Competitivo” nos Estados Unidos. Ambas as ideias mostraram-se
inadequadas e ambiciosas demais. Margaret Thatcher vendeu as ferrovias, as
estradas, as telecomunicações, tudo. Ainda durante seu governo houve pelo menos
4 grandes acidentes ferroviários, consequência de má administração nas ferrovias
privatizadas. Já nos Estados Unidos, a filosofia ultracapitalista da Comissão
Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês), a Anatel americana, era de
que, se fossem vendidas licenças para que outras empresas concorressem com as
telefônicas do Grupo AT&T, também chamado Grupo Bell, a concorrência seria
benéfica para o consumidor. Venderam então licenças para operar sistemas de
telefonia fixa, celulares, de longa distância. A concorrência nunca decolou.
20. Após mais de 20 anos, as novas operadoras
não haviam conseguido mais do que 10% do mercado. Simplesmente porque a ideia é
inviável. Imagine-se que o governo deseje implantar “concorrência” no sistema de
fornecimento de energia elétrica. Venda uma licença para operar a distribuição
de eletricidade. A empresa ganhadora da licença teria de fincar milhões de
postes, lançar milhões de quilômetros de fios, para poder chegar na sua casa.
Evidentemente seria impossível investir tudo isso e ainda ser lucrativa. O mesmo
ocorre em telecomunicações, com raras exceções. É impossível a real competição,
porque já existe uma operadora com uma rede imensa de cabos e fios, de sistemas,
e quem quiser concorrer vai ter de investir bilhões de dólares, com retorno
duvidoso. Por isso a competição não funcionou nos Estados Unidos, nem na Europa,
e nem no Brasil.
21. Aqui, então, surfando na ideologia
mundialmente aceita na época de que o Estado é mau administrador e de que “a
competição é sempre benéfica para o consumidor”, o governo de Fernando Henrique
Cardoso decidiu fazer o que a Inglaterra havia feito – vender a operadora
estatal de telecom e abrir licenças para competidores. Com a venda dos ativos
estatais, o governo recebia dinheiro para terminar de pagar a dívida externa, e
com a venda de licenças para outros concorrerem no mercado de telecom, também
recebia polpudos recursos para aplicar onde quisesse. E, teoricamente, quem
comprasse a Telebrás iria usar seu próprio dinheiro para investir e melhorar as
telecomunicações no Brasil.
22. Vendeu-se então a Telebrás, dividida em
quatro partes – a Embratel, que tinha todo o sistema de longa distância e de
transmissão de dados, e a telefonia fixa local agrupou-se em três empresas: uma
em São Paulo, a Telesp, outra cobrindo o Sul e o Oeste, e uma terceira cobrindo
o Nordeste desde o Espírito Santo até o Amapá.
23. No caso de São Paulo, venceu o leilão a
Telefónica de España. Grandes esperanças, grandes comemorações. Mas logo uma
nova realidade desabou sobre a Telesp. Chegaram os espanhóis. Inicialmente
colocaram um espanhol “grudado” a cada gerente brasileiro. Em seguida demitiram
os brasileiros. Hoje não existe na atual Telefônica, ex-Telesp, ninguém com mais
de 10 anos de casa. Toda a memória profissional da empresa foi perdida.
24. Implantaram desde o início a famosa mesa de
compras, uma instituição de caráter financeiro extremamente prejudicial
à própria Telefônica – mas o sistema vinha sendo usado na Espanha, por que não
no Brasil? Consiste do seguinte: a empresa faz uma concorrência, como é normal.
Convida cerca de 5 a 10 participantes. Uma análise de preços é feita, bem como
uma analise técnica. Escolhe-se o vencedor, com o menor preço e a melhor
proposta técnica. Normalmente o processo de compra terminaria aí, com a
assinatura do contrato e implantação do sistema. Mas na Telefônica é diferente.
25. O processo vai para a mesa de compras, na
qual os executivos são remunerados em função dos descontos que conseguem. Chamam
a empresa vencedora, e comunicam (sim, não negociam, comunicam) que se o
vencedor não der um desconto de, por exemplo, 20%, nada feito, o contrato não
será assinado. A empresa escolhida preparou a sua proposta com base em dados de
custos, de mercado, prevendo certo nível de compras, certo número de homens-hora
de profissionais etc. É obrigada a aceitar a redução imposta pela Telefônica,
assina o contrato, o espanhol da mesa de compras fica mais rico com um enorme
bônus, e o usuário brasileiro é o único prejudicado. A fim de conseguir
implantar o sistema pelo novo preço, agora drasticamente reduzido, o fornecedor
tem de fazer cortes.
26. Reduz a qualidade do material, a qualidade
da mão-de-obra, reduz a confiabilidade dos sistemas, enfim, adapta sua proposta
ao que vai receber. E assim a Telefónica foi ao longo destes últimos 10 anos
expandindo as telecomunicações no Estado de São Paulo, da forma mais barata
possível, e com baixíssima qualidade e confiabilidade.
27. Mas pelo menos os espanhóis investiram,
trouxeram dinheiro da Espanha, verdade? Infelizmente, não. A Telefónica de
España não enviou de Madri um único euro para investir no Brasil. Todo o
investimento feito aqui pela Telefônica usou receitas obtidas aqui mesmo. Ou
seja, quem pagou os investimentos – mal feitos – da Telefônica foi o consumidor
brasileiro – e os bancos brasileiros, principalmente o BNDES. Veja bem, vendemos
a Telesp aos espanhóis, estes usaram nosso dinheiro para investir e obter lucros
enormes que mandam para a Espanha. Além disso, criaram um enorme desemprego no
setor – a privatização da Telebrás colocou na rua em dois anos nada menos do que
200 mil pessoas. Sim, 200 mil profissionais foram dispensados. Para dar lugar
aos espanhóis ou para fazer economias que no futuro iriam cobrar um pesado preço
sob a forma de péssimo serviço e falhas no sistema.
28.
A Telefônica terceirizou tudo que foi possível, começando pelo atendimento.
Vendeu o setor de atendimento à empresa espanhola Atento, de propriedade da
Telefónica de España. Note: de propriedade da Telefónica de España. Ou seja, a
Telefônica Brasil compra os serviços da Atento, paga pelos serviços, a Atento
lucra com eles, e remete seus lucros diretamente para Madri. Terceirizou
manutenção de prédios, operação dos sistemas, manutenção, tudo. Os projetos são
feitos pelos fornecedores, a engenharia idem. Não existe na Telefônica, hoje, um
grupo de profissionais de telecom. Ela é nada mais do que a marca. O resto é de
terceiros. E mais uma vez feito de forma impositiva e leonina, pois os
fornecedores que implantaram os sistemas são chamados e informados de que terão
de tirar os defeitos, operar, manter etc. O fornecedor faz seus cálculos, usando
o número adequado de homens, de veículos, equipamentos de teste etc. Apresenta
uma proposta, e a mesa de compras exige -mais uma vez – enormes descontos. O
fornecedor tem de ceder, mas de novo reduz o número de pessoas, de veículos, de
equipamentos, reduz a qualidade da mão-de-obra, faz cortes drásticos para poder
cumprir o contrato e ainda ter lucro.
29. Neste ponto cabe uma pergunta: como pode a
Telefônica imaginar que um determinado serviço que ela anteriormente fazia com
mão-de-obra própria ser feito por outra empresa, que irá obrigatoriamente
colocar uma margem de lucro, e ainda assim ficar mais barato do que se a
operadora o fizesse? Não há lógica.
30. Não se terceiriza jamais o contato com o
cliente. É por isso que as empresas aéreas não terceirizam pilotos e aeromoças.
Seria inimaginável. E, no entanto, fomos levados aceitar como normal que um
atendimento para uma reclamação de defeito numa rede de altíssima tecnologia
seja feito por uma mocinha que não tem nenhum vinculo com a Telefônica, nenhum
interesse em realmente resolver seu problemas, que não tem a mínima ideia do que
é o sistema, que foi treinada como um autômato para burocraticamente anotar a
reclamação e passar adianta. Cujo tempo de atendimento é rigidamente controlado
e não pode superar 90 segundos. Que mesmo para ir ao toalete tem horários
determinados. Tudo para que Madri tenha mais lucros.
31. No último trimestre o faturamento da
Telefônica na Espanha caiu 4,2%, enquanto na América Latina cresceu 4,8%.
Traduzindo: os cortes de pessoal no Brasil, as economias e cortes de custos que
provocam panes e apagões, ajudam a aumentar o lucro da Telefônica no mundo. Quem
sustenta a empresa somos nós, latino-americanos, e não os espanhóis. Sabe por
quê? Porque na Espanha ela não poderia tratar o cliente da forma que faz aqui. O
governo espanhol imediatamente trocaria toda a diretoria da empresa.
32. Mas então, cabe a pergunta: se a Telefônica
veio para o Brasil para atender ao Estado de São Paulo, não investiu recursos
próprios, é campeã de reclamações no Procon, tem um histórico de falhas,
defeitos e panes inédito em todo o mundo, o que ela está trazendo de positivo
para o Brasil? Não traz dinheiro, não traz know-how, piorou os serviços.
33. Pare um instante, leitor, e honestamente
responda: no dia de hoje, quem é melhor administrada: a Telefônica em São Paulo
ou a Petrobrás?
34. Quiséramos nós que as telecomunicações em
São Paulo tivessem o mesmo nível que a extração, o refino e a distribuição de
combustíveis. Logo, não é verdade que “o Estado não sabe administrar”. Mesmo com
alguma interferência política que sabemos existir, a Petrobrás é eficiente,
respeitada aqui e lá fora, e não sofre de apagões de combustível.
35. Apenas para reforçar o argumento, e o Banco
do Brasil? É estatal e luta no mercado bancário em condições de igualdade,
dá lucros enormes e ninguém acusa a diretoria do BB de ser inepta devido ao fato
de a empresa ser estatal.
36. Então, esta ideia de que empresa estatal
é por definição lenta, obsoleta, com gente preguiçosa e ineficiente, é uma
inverdade. Temos de olhar a realidade, sem ideias preconcebidas, e reconhecer
que o mundo mudou, Marx está morto, mas o capitalismo selvagem também, e que
temos de ser criativos e repensar alguns conceitos. E algumas decisões do
passado.
37. Nessa linha, olhando o que a Telefónica de
España fez no Brasil nos últimos 10 anos, parece-me que fica claro que não fez
nada melhor ou nada mais do que a própria Telebrás teria feito se tivesse a
liberdade de que sempre gozou a Petrobrás. Se tivéssemos mantido a Telebrás e a
liberado para investir seu próprio dinheiro, hoje teríamos uma empresa poderosa,
eficiente, brasileira, e certamente atuando com competência no exterior, como é
o caso da Petrobrás.
38.
Chegou a hora. Vamos aproveitar o momento de
transformações por que passa o mundo, o novo status que o Brasil ganha, e o
péssimo nível dos serviços da Telefônica, para comprá-la de volta, colocá-la em
mãos brasileiras, com gente que tome decisões com base no cliente brasileiro e
não com base em aumentar os lucros que manda para Madri. O Brasil todo irá
aprovar.
Poucos sabem, mas a
Telebrás ainda existe, não foi extinta, permanece como que “em estado de
hibernação”. Tem sede em Brasília, com meia dúzia de funcionários que cuidam
principalmente de comunicações governamentais.
39. O contrato de concessão assinado pelo
governo brasileiro com a Telefônica, no Capitulo XXVIII, trata da extinção da
concessão. Podemos a qualquer momento informar aos espanhóis que nossa paciência
se esgotou, que temos gente igual ou melhor do que eles, e que queremos as
telecomunicações de São Paulo de volta. Compramos a empresa de volta. Definimos
uma forma suave de pagamento. Colocamos gente nossa, do Brasil, comprometida com
nossa sociedade, para administrar a empresa. E garanto que os apagões nunca mais
se repetirão.
40. Se você acha que este artigo tem lógica,
divulgue a ideia. Hoje, enfrentar a gigante espanhola pode parecer um projeto de
difícil implantação. Mas Gandhi também tinha um projeto enorme, a liberdade de
seu país, e começou com um partido de um homem só. Também Martin Luther King. Se
nós quisermos, nós conseguimos.
* Virgílio Freire é engenheiro de telecomunicações, consultor
sênior, ex-funcionário da Telesp, ex-presidente da Lucent Technologies no
Brasil, da Nortel e de outras empresas. |