|
Empresas de energia falseiam investimentos
para subir tarifa
“Temos uma dívida com a sociedade”, disse o diretor-geral da Aneel sobre as
tarifas extorsivas
O diretor-geral da Agência Nacional de
Energia Elétrica (Aneel), Nelson Hubner, afirmou, na quarta-feira, sobre o
terceiro ciclo de revisões tarifárias das empresas do setor que “temos uma
dívida com a sociedade, porque existiram erros no cálculo da base na primeira
revisão”. Os ciclos (Revisão Tarifária Periódica – RTP) são realizados de quatro
em quatro anos.
Segundo apontou Hubner, há distribuidoras
de energia com a base de remuneração regulatória (BRR) superestimada – a BRR é a
base para fixação da tarifa de energia. Hubner apresentou um exemplo: empresas
que trocam um transformador (uma despesa de manutenção e custeio) e declaram
esse gasto como “investimento” para aumentar a BRR e, por consequência, a
tarifa. Por outro lado, ao lançar as despesas de custeio abaixo daquelas da
“empresa de referência”, também embolsam essa diferença.
Como as regras do setor elétrico parecem
sânscrito para as pessoas normais (aquelas que não entendem sânscrito),
descrevemos aqui, brevemente, como é calculada a tarifa de energia pela Aneel.
Para cada companhia, a Aneel, em vez de
considerar os custos reais, elabora uma empresa fictícia (a “empresa de
referência”), que tem dois tipos de custos:
a) “custo não gerenciável” ou “parcela A” -
gastos com compra de energia, transmissão e encargos setoriais (impostos para
sustentar a estrutura advinda da privatização – Aneel, ONS, etc.);
b) “custo gerenciável” ou “parcela B” -
custos operacionais, cota de depreciação dos equipamentos e remuneração dos
investimentos, multiplicados pelo “Fator X”, que representa a produtividade.
Da soma da “parcela A” com a “parcela B”
tem-se a tarifa de energia.
Esse é o modelo do “price cap”
(preço-teto), copiado dos EUA no governo Fernando Henrique, que substituiu o
modelo que existia antes, baseado no custo real do serviço no conjunto do
sistema, que permitia tarifas equânimes em todas as regiões do país. Agora, as
empresas são consideradas isoladamente. No caso referido pelo diretor da Aneel,
o inchamento do investimento faz com que a tarifa se eleve e a subestimação do
custeio faz com que as empresas fiquem com a diferença em relação ao custeio
previsto para a “empresa de referência”.
Note-se que quanto menos consumidores – ou
seja, quanto mais pobre a região – maior será a tarifa, pois a densidade de
consumidores e o tamanho da malha de distribuição alteram o custo. Por isso, os
consumidores de Mato Grosso do Sul pagam 76,23% e os da Bahia 50% a mais na
tarifa do que os de São Paulo – e não é porque a tarifa em São Paulo seja barata
(para uma comparação, ver “As tarifas de energia elétrica no Brasil:
sistemática de correção e evolução de valores”, Dieese, dezembro de 2007).
Mas, registremos um consenso: as tarifas de
energia no Brasil, depois da desastrosa privatização, são estupidamente caras.
Há, inclusive, quem aponte que são as mais caras do mundo (cf. tabela na página
440 de “Por que as tarifas foram para os céus? Propostas para o setor
elétrico brasileiro”, Revista do BNDES, V. 14, N. 29, p. 435-474,
junho/2008, de Gustavo Antônio Galvão dos Santos, Eduardo Kaplan Barbosa, José
Francisco Sanches da Silva e Ronaldo da Silva de Abreu).
Como demonstram esses autores, os aumentos
da tarifa de energia não mantêm relação com qualquer índice de inflação, nem
mesmo com o IGP-M, que indexa os contratos das empresas de energia, apesar dele
ser o índice que mais aumentou desde 1995. Porém, entre 1995 e o meio de 2007, o
IGP-M aumentou 236%, mas as tarifas elétricas aumentaram 398%. Ou seja, o
aumento das tarifas “não corresponde ao crescimento de nenhum componente de
custo”.
Isso para um sistema elétrico que “tem
um dos menores custos operacionais e ambientais do planeta. (….) O planejamento
de décadas da Eletrobrás (….) tornou o sistema elétrico brasileiro o mais
confiável, barato, flexível e limpo entre as grandes nações do planeta”.
No entanto, depois da privatização, esse
sistema tornou-se um entrave ao próprio desenvolvimento do país: “o modelo de
gestão do sistema elétrico implantado no governo FHC, e ainda seguido, embora
reformado, não funciona sem soluções emergenciais e socorros do governo. Se
essas soluções são necessárias mesmo a baixas taxas de crescimento, é evidente
que esse modelo nunca será capaz de garantir energia para taxas altas de
crescimento”. Os autores são sintéticos na avaliação do atual modelo: “A
implantação do modelo elétrico mercantil, nos anos 1990, foi e continua sendo um
fracasso de enormes proporções. Foi um dos maiores erros da nossa história. Esse
modelo, em termos gerais, piorou a confiabilidade do sistema elétrico, o que
pode ser constatado efetivamente pelo apagão recorde em nível mundial e pela
possibilidade real de um novo racionamento. Há apenas seis anos, fizemos o maior
racionamento energético da história mundial em tempos de paz, equivalente a 25%
do consumo”.
Os autores listam as seguintes causas para
o aumento das tarifas:
1) a margem de lucro das empresas é
elevadíssima;
Usando como exemplo os 12 meses anteriores
a julho de 2007, a rentabilidade média sobre o patrimônio líquido das 17
principais empresas do setor foi de 32% - com a Eletropaulo chegando a 99% e a
Elektro a 48%, apesar da média já ser quase alucinada.
2) o modelo privado desincentiva a
hidreletricidade em favor das térmicas a Gás Natural (GN), cuja energia é mais
cara;
E, não por acaso, observam os autores,
“grandes hidrelétricas são administradas no mundo inteiro pelo governo. O setor
privado é sempre reticente em construí-las”. E, quando as constroem, “as
hidrelétricas feitas pelos investidores privados são muito mais caras do que as
feitas pelo governo”. As últimas exigem menos de um terço do custo das
primeiras. “O caso atual da usina do Madeira é emblemático. Só há dois
consórcios concorrendo e ainda estão disputando diversos tipos de exclusividade
para reduzir ainda mais a competição. Poderão, assim, impor uma margem de lucro
elevada para a energia produzida, [que] terá um custo operacional muito baixo.
Se o governo assumisse a obra, não haveria esse problema. Em quase todos os
países, incluindo os EUA, as hidrelétricas são públicas”.
3) o modelo de regulação gasta, de forma
planejada e consciente, bilhões de dólares apenas para simular, contabilizar e
administrar um falso mercado concorrencial;
Como essa é uma questão ainda pouco
conhecida, reproduzimos algumas considerações: “o novo sistema criou uma
infinidade de entidades com estruturas pesadas, que precisam ser custeadas com
encargos setoriais sobre a tarifa de energia. A maioria das funções dessas
entidades (Aneel, ONS, MAE, CCEE, EPE etc.) era, de alguma forma, realizada por
pequenas equipes da Eletrobrás ou, simplesmente, não era necessária. As empresas
mantêm enormes departamentos para registrar, checar, especular e estudar
contratos, nuanças e disputas jurídicas do sistema. Todos esses custos, que não
existiam, são repassados para os consumidores. Na Eletrobrás, não havia nem
mesmo uma diretoria de transmissão. Hoje, abre-se uma licitação para uma pequena
linha de transmissão e os investidores do setor criam uma nova empresa-sede,
presidente, diretoria, departamento financeiro, de contabilidade, jurídico,
operacional etc. Cada nova linha precisa replicar boa parte da estrutura. E, às
vezes, até abrem capital na bolsa, o que custa, no mínimo, R$ 20 milhões. O
mesmo acontece com as geradoras. Existem departamentos ou mesmo empresas
inteiras dedicadas apenas a fazer simulações e calcular cenários que deem
embasamento para as empresas fazerem melhores apostas ou reduzirem seus riscos”.
4) o modelo não incentiva a inovação e
menos ainda o repasse de ganhos de produtividade para os consumidores. Diferente
da Eletrobrás, no passado, nenhuma das empresas do setor investe
significativamente em P&D [pesquisa e desenvolvimento];
E, por último:
5) choques e erros de previsão fazem com
que o modelo sempre gere “esqueletos”, que acabam sendo pagos pelos
consumidores.
CARLOS LOPES
|