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Honduras: Congresso
nega apoio
ao estado de sítio de Micheletti
Completamente isolado
no plano internacional desde que deu o golpe em 28 de junho, Micheletti
defronta-se agora com a fratura de sua base de sustentação no Congresso,
além de assistir ao fim do apoio incondicional da alta hierarquia da Igreja
Um dia depois de decretar o estado de sítio em Honduras por 45 dias, o
golpista Roberto Micheletti falava em uma entrevista coletiva na
segunda-feira quando recebeu um desagradável sinal. O presidente do
Congresso ao seu lado, Carlos Saavedra, afirmou que tinha feito “um pedido
ao presidente”, mas “com o apoio de todas as lideranças do Parlamento” para
que fosse revogado o decreto do estado de sítio. Completamente isolado no
plano internacional desde que deu o golpe em 28 de junho, Micheletti,
defrontou-se então com a importante fratura em sua sustentação interna.
Micheletti não entrou no mérito da proposta do presidente do Congresso, mas
disse: “escutei o Congresso Nacional e estou totalmente de acordo com a
colocação de se buscar o diálogo. Aceito o conselho, a orientação, a petição
que eles estão me fazendo”. Falou também em fazer consultas à Corte Suprema
de Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral.
O decreto anunciado no domingo, dia 27, suspendeu as garantias e liberdades
individuais, restringiu as liberdades públicas de locomoção, expressão do
pensamento e reunião e autoriza a polícia a efetuar detenções sem ordem
judicial prévia. O regime golpista aproveitou o estado de sítio para fechar
o Canal 36 de TV e a Rádio Globo; expulsou quatro funcionários da OEA que
estavam no país preparando a reunião com a delegação desse organismo, com
vista a encontrar uma saída para a crise gerada pelo golpe. Aliás, esses
ataques à constituição e à imprensa não-submissa ao regime ilegal fazem
parte da essência do golpe que é, desde sua origem, impedir que o presidente
Manuel Zelaya participe do processo da eleição do sucessor. Com a presença
do presidente no país, mesmo fisicamente sob cerco, o plano de impedir sua
ação política na eleição ficou insustentável e daí o apelo à ditatura
aberta. Está claro que a única forma de haver eleição limpa em Honduras é
com a presença de Zelaya.
Diante do crescente repúdio à fascistização do golpe, Micheletti desatou a
estipular prazo para que o governo do Brasil defina o status de permanência
do presidente Manuel Zelaya na embaixada brasileira, bem como passou a
cobrar dos governos do México, Argentina, Venezuela e Espanha que decidam,
no prazo de 10 dias, se reconhecem o regime golpista.
A declaração do estado de sítio aprofundou o isolamento do regime ilegal e
levou as lideranças das quatro bancadas do legislativo – apoiadores do
regime golpista – e José Saavedra, que assumiu a presidência do Congresso
após o golpe – a pedir a anulação da medida, já que teriam de ratificá-la e
arcar com as consequências.
“Hoje o povo hondurenho está sofrendo uma agressão brutal, e com a supressão
dos únicos meios [Canal 36 e rádio Globo] que estavam transmitindo, se
reafirma que neste país se instalou uma ditadura repressiva, com a maior
quantidade de crimes e violações aos direitos humanos”, assinalou Zelaya,
presidente hondurenho, em coletiva de imprensa na embaixada do Brasil.
“Quando se viola a Constituição se viola o povo. Não querem que o povo se
manifeste sequer de forma pacífica, como tem feito há 90 dias”, afirmou
Zelaya, que conclamou ainda os partidos políticos a impedir que o regime
golpista tire as liberdades dos cidadãos e limite o trabalho dos meios de
comunicação.
O Conselho de Segurança da ONU cobrou do regime de Micheletti o respeito à
embaixada brasileira, agredida com cerco militar, gás tóxico e interferência
sonora. No domingo passado foi realizado o funeral da universitária Wendy
Ávila, que faleceu por causa dos gases tóxicos jogados por militares nas
proximidades da sede diplomática brasileira.
A suspensão dos direitos constitucionais via estado de sítio e os ataques à
imprensa em Honduras foram condenados pelos governos da França e da Espanha
e pelo IAcenter, (Centro de Ação Internacional) fundado por Ramsey Clark,
ex-procurador geral dos EUA, na segunda-feira. Além disso, nenhum país
reconheceu o governo golpista de Micheletti.
S.S. |