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IPEA: por que a
crise atingiu o país - ideias para crescer aceleradamente
“Se havia alguma
‘blindagem’ à crise externa, o que explicaria o brusco freio do crescimento no
último trimestre de 2008?”, é a questão que tenta elucidar o estudo “Brasil em
Desenvolvimento: Estado, Planejamento e Políticas Públicas”, do IPEA, aqui
resumido e comentado por Carlos Lopes
O recente estudo “Brasil em Desenvolvimento: Estado,
Planejamento e Políticas Públicas”, de autoria do corpo de pesquisadores do
Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA), traz algumas análises e
sugestões bastante importantes para o atual momento. Como se trata de obra em
quatro volumes, e em linguagem eminentemente técnica, procuraremos, aqui,
resumir alguns de seus aspectos, com alguns comentários que nos ocorreram ao ler
o texto.
Notam os autores que
até setembro de 2008 “o PIB crescia a taxas superiores a 6%, e o investimento
avançava em patamares significativamente maiores que o crescimento do PIB. A
taxa de desocupação, de 7,9% – média anual das seis regiões metropolitanas (RMs)
– estava em queda, depois de já ter sido de dois dígitos, o número de pessoas
ocupadas com emprego formal subia a cada ano e a massa salarial, que se ampliava
desde 2004, continuou expandindo-se em 2008. O aumento da produtividade do
trabalho na indústria avançava a taxas crescentes desde 2004. O crédito
expandia-se, tendo alcançado, em dezembro de 2008, a taxa recorde de 41% do PIB,
atendendo à demanda por consumo e investimento. A inflação, há seis anos
consecutivos, vinha situando-se na meta estabelecida pelo Banco Central do
Brasil (Bacen). As descobertas de petróleo na camada de pré-sal abriam novo
horizonte para a indústria de base. No campo social, as desigualdades
reduziam-se. O índice de Gini caía pelo sexto ano consecutivo. A pobreza
reduzia-se de 35% da população, em 2003, para 24,1%, em 2008, nas seis regiões
metropolitanas pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE)” (Brasil em Desenvolvimento: Estado, Planejamento e Políticas
Públicas, IPEA, 2009, vol. 1, pág. 79).
No entanto, com a
crise nos EUA, “o produto interno bruto (PIB) brasileiro contraiu-se 3,6% no
quarto trimestre, na série com ajuste sazonal do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), em relação ao terceiro trimestre de 2008. Isto
interrompeu crescimento acumulado de 6,4% nos três primeiros trimestres do ano
passado. Esta queda, se anualizada, aponta contração de 13,6% do PIB em quatro
trimestres. A queda do PIB deu-se em todos os seus componentes no último
trimestre de 2008. O consumo das famílias caiu 2%, a produção industrial 7,4% e,
particularmente preocupante, a formação bruta de capital [N.HP: Isto é, a
taxa de investimento] teve queda de 9,8%. Esta queda interrompeu a tendência
observada de crescimento da taxa de investimento da economia brasileira” (idem,
pág. 127).
A primeira parte do
estudo tenta responder à seguinte questão: “… surpreendeu a rapidez com que a
economia doméstica desacelerou-se. Se havia alguma ‘blindagem’ à crise externa,
o que explicaria o brusco freio do crescimento no último trimestre de 2008?”
(pág. 89).
Parece-nos que o
trecho imediatamente anterior ao que acabamos de transcrever é bastante
elucidativo sobre esta questão: “Embora o conjunto de indicadores de
vulnerabilidade externa tivesse melhorado a partir de 2004, a redução da
fragilidade da economia brasileira aos choques externos mostrou-se apenas
aparente e, portanto, insuficiente para proteger o país dos solavancos da crise
americana. O alto grau de inserção financeira, com a eliminação dos controles
de capitais, efetuado desde o fim dos anos 1980, não permite proteção contra a
enorme massa de recursos à disposição da especulação internacional” (pág. 88
- grifo nosso).
E, logo em seguida:
“Houve, assim,
inversão do movimento financeiro de capitais com fugas para o centro provocando
forte desvalorização cambial. A escassez de liquidez nos países centrais fez
que especuladores e empresas multinacionais vendessem seus ativos nos mercados
financeiros emergentes e repatriassem seus lucros, a fim de fornecer dólares a
suas matrizes. O estoque de ativos transforma-se em fluxo de capitais” (pág.
89 - grifo nosso).
Em suma, para evitar
a crise e manter o crescimento era necessário diminuir essa vulnerabilidade
externa. O crescimento sólido (ou, como dizem alguns, “consistente”) não pode
ser alicerçado em capitais que fogem quando suas matrizes, fora do país,
tropeçam (ou, pior, quando afundam). Até porque, mesmo em tempos “normais”, o
objetivo do capital estrangeiro é obter lucros para enviá-los à matriz. Por
isso, é espantoso que ainda agora haja comemorações a um novo “investment grade”
- concedidos por uma das agências de risco que se desmoralizaram depois da
falência do Lehman Brothers – porque isso sinalizaria uma entrada maior ainda de
capital estrangeiro. No caso desse vaticínio ser verdadeiro, somente
significaria um aumento da vulnerabilidade externa do país, que, como vemos, já
não é pequena.
Depois de vistoriar
as várias hipóteses lançadas por economistas para explicar a contaminação da
economia brasileira pela crise dos países centrais, o estudo do IPEA sintetiza:
“O que se pode
concluir da avaliação dos dados do ano de 2008 até fevereiro de 2009 é que houve
três principais impactos da crise internacional sobre as contas externas: i)
rápida deterioração dos termos de troca – os preços das importações subiram
enquanto os preços das exportações reduziram-se de forma persistente a partir de
setembro de 2008; ii) queda proporcionalmente maior das quantidades exportadas
em relação às importadas; e iii) progressiva deterioração na conta-corrente do
balanço de pagamentos, que registrou, em janeiro de 2009, déficit acumulado em
12 meses de US$ 27 bilhões (IPEA, 2009)”.
Temos aqui uma outra
questão: a de que o mercado externo, por mais importante que seja, tem caráter
secundário em relação ao mercado interno para um país que pretenda crescer
realmente, superando o que os pesquisadores do IPEA denominam “restrições
externas” ao crescimento (que, como eles apontam, foi o principal aspecto da
economia durante o governo Fernando Henrique Cardoso).
Os autores apontam
que a deterioração do balanço de pagamentos foi uma consequência principalmente
da queda do superávit comercial. Porém, “parte significativa decorreu da
remessa de lucros e dividendos pelas filiais das empresas e bancos
internacionais para suas matrizes e das remessas pelos investidores de portfólio
em ações, com o objetivo de compensar perdas em outros mercados e atender à
necessidade de caixa no exterior, em função da escassez de crédito. Este
movimento revelou-se importante mecanismo de transmissão da crise sobre as
contas externas brasileiras e é reflexo do grau de internaciona- lização da
estrutura produtiva e da abertura financeira” (pág. 93 - grifos nossos).
E, em seguida:
“Quanto à conta
financeira do balanço de pagamentos – que registra o fluxo líquido de capitais
entre o país e o exterior –, após o aprofundamento da crise mundial, houve forte
saída de capitais no último trimestre do ano, resultando em déficits mensais. No
acumulado de outubro a dezembro de 2008, a conta financeira registrou déficit de
US$ 21,536 milhões” (idem).
No entanto, é inútil
culpar especuladores e multinacionais por agirem como especuladores e
multinacionais. O problema é sempre o que nós podemos (e devemos) fazer para que
não sejamos vítimas nem da sua pirataria nem do seu desespero. O IPEA faz uma
observação acurada quanto à política monetária:
“Há, entretanto,
importante fator interno, muitas vezes negligenciado pelos analistas, que
contribuiu para que a crise apanhasse a economia brasileira de forma muito mais
severa no último trimestre de 2008. Trata-se dos efeitos contracionistas dos
quatro movimentos de elevação da taxa de juros do Sistema Especial de Liquidação
e de Custódia (Selic) decididos pelo Comitê de Política Monetária (Copom),
iniciados no mês de abril e prolongados a junho, julho e setembro de 2008. Em
abril, o Copom avaliava que havia sinais de aquecimento da economia e indicava a
persistência de descompasso entre o ritmo de expansão da demanda e da oferta
agregadas, apesar do acelerado crescimento da FBCF [N.HP: a variação da
Formação Bruta de Capital Fixo corresponde à taxa de investimento da economia]
por quatro anos seguidos e do aumento, como depois verificou-se, de 13,8% desta
variável em 2008. Em dezembro, entretanto, mesmo com forte contração da
produção industrial que vinha desde outubro e com queda de 3,6% do PIB no último
trimestre, o Bacen resolveu manter ainda inalterada a Selic no elevado patamar
de 13,75% ao ano (a.a.), em demonstração clara de percepção incorreta dos rumos
que a economia estava tomando” (pág. 94 - grifo nosso).
Trata-se de uma
descrição precisa da ação do sr. Meirelles no Banco Central. Que ele hoje diga
que a sua política permitiu que o Brasil fosse “o primeiro país a sair da
crise”, revela mais cinismo do que ignorância.
Mas, além disso,
isto é, além dos juros altos, há outro aspecto da mesma questão: os superávits
primários, a reserva orçamentária para pagar juros “acentuou ainda mais a
restrição à continuidade do dinamismo econômico. A sequência de crescentes
superávits primários de 3,8% do PIB, em 2006, e de 3,9%, em 2007, foi
aprofundada para 4,06%, em 2008” (idem - grifo nosso).
Os autores sugerem
como política a expansão dos investimentos públicos, com a queda dos juros,
especialmente a expansão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), depois
de constatar que “o investimento público teve resultado muito modesto para o
enfrentamento da crise. Embora tenha crescido em 20,7%
deflacionados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), entre
2007 e 2008, visto em percentuais do PIB, elevou-se de 0,85%, em 2007, para
0,98%, em 2008. A
estratégia expansiva definida em torno do Programa de Aceleração do Crescimento
(PAC) não se transformou em medidas efetivas na escala necessária. As próprias
dimensões deste não são, em si mesmas, suficientes para se contrapor às
tendências de desaceleração e, ainda se implementado integralmente, conforme a
programação anual prevê, teria sido pouco para momento que exigia ação vigorosa
e ousada da política fiscal” (idem - grifo nosso).
Muito interessante
são as observações a respeito dos cortes de impostos concedidos a determinados
setores da economia:
“Quanto mais os
mercados afastam-se de uma estrutura competitiva [N.HP: isto é, quanto mais o
mercado é submetido pelos monopólios], maior a capacidade de as empresas
incorporarem as desonerações tributárias às suas margens de lucros, o que reduz
o efeito da desoneração no consumo das famílias. Dito de outra forma, mercados
oligopolizados, que possibilitam o uso de poder de mercado por parte das
empresas na fixação de seus preços, apresentam maior probabilidade de ter alto
coeficiente de translação dos tributos aos preços pagos aos consumidores” (p.
129).
Ou seja, a maior
parte da isenção é incorporada como aumento da margem de lucro. Os autores não
estão negando que as vendas aumentaram com as isenções. Mas isso não teve efeito
sobre o aumento dos investimentos dessas empresas. Além disso, em nota na página
seguinte, observam que “a desoneração do imposto sobre produtos industrializados
(IPI) para a indústria automobilística teve efeito positivo para garantir o
aumento da demanda por carros e, por conseguinte, garantir os empregos desta
indústria. No entanto, a medida afetou a arrecadação dos municípios,
principalmente daqueles mais dependentes dos recursos do Fundo de Participação
dos Municípios (FPM), o que pode acarretar desemprego nestas localidades”.
Mas há outro
problema. Nos impostos indiretos (isto é, aqueles que são iguais para todos,
pois estão incorporados ao preço das mercadorias, representando 74% da carga
tributária do país), em relação à sua renda, os pobres pagam mais do que os
ricos. Logo, “se a desoneração dos tributos indiretos incidir sobre bens de alta
participação no consumo de famílias mais ricas, a regressividade destes tributos
pode acentuar-se, piorando a equidade do sistema tributário nacional”. Ou seja,
nesse caso, os ricos passam a pagar ainda menos impostos do que os pobres, em
relação à sua renda.
Mas, o problema
principal é que “não há evidências de que a desoneração tributária eleve
automaticamente o investimento privado” (pág. 130). Realmente, a única evidência
é que a desoneração eleva a margem de lucro dos monopólios - e priva o Estado de
importantes recursos para estimular o crescimento.
Portanto, a
desoneração prejudica o principal estímulo da economia, sobretudo em momentos de
crise: o investimento público. O IPEA calcula que “para cada R$ 1,00 investido a
mais pelo governo, ocorre aumento do PIB da ordem de R$ 1,43. Por
conseguinte, o incremento no investimento público teria impacto maior sobre o
crescimento do PIB do que reduções na carga tributária, que apresenta
coeficiente de impacto menor e ainda assim superestimado” (idem - grifo
nosso).
O IPEA se refere,
nesse caso, aos “gastos autônomos” do governo, isto é, àqueles que o governo
pode decidir livremente. Mas, observam os pesquisadores, isto também é verdade
para os “gastos correntes”. O problema é que, quanto a estes, “o pagamento de
juros e amortizações (....) foi de aproximadamente R$ 161 bilhões em 2007, ano
em que o Sistema Especial de Liquidação e de Custódia (Selic) foi reduzido entre
janeiro e setembro. Supondo-se, para simplificar, que aquele montante não se
alterou, só sendo corrigido pela inflação do Índice Nacional de Preços ao
Consumidor Amplo (IPCA) do período, então, para arrecadação total de tributos
federais de R$ 717 bilhões, o serviço da dívida pública correspondeu a 24% desta
arrecadação em 2008 [Nota dos Autores.: A taxa Selic começou a ser elevada em
junho de 2008, o que aumentou o custo fiscal médio da dívida pública interna da
União neste ano]”.
Com pelo menos um
quarto da arrecadação esterilizado pela dívida, é forçoso concordar com os
autores em que “a alta participação do pagamento de juros e amortizações no
gasto corrente da União é grande trava para o efeito multiplicador destes
gastos”. Uma trava que é preciso remover urgentemente, pois não somente o
governo, devido às altas taxas de juros, é privado desses recursos, como também
“dificilmente pode-se esperar o efeito dos gastos com juros e amortizações no
estímulo” ao crescimento porque “os detentores dos títulos federais na
modalidade carteira própria – tesouraria de bancos comerciais e de investimentos
nacionais e estrangeiros – tinham 27% do total destes títulos em poder do
público em 2008. Na modalidade clientes – pessoas jurídicas não financeiras e,
principalmente, fundos de investimento –, estes agentes carregavam 56% do total
do estoque de títulos federais em poder do público” (pág. 131).
Evidentemente,
enquanto os juros estiverem no atual patamar – mesmo considerando que houve
alguma queda, o diferencial entre os juros praticados no Brasil e os praticados
nos EUA, Europa e Japão é quase um abismo – não será possível canalizar esses
“gastos correntes” do governo para o estímulo ao crescimento. E, aliás, nem
mesmo os recursos aplicados por empresas não-financeiras.
C.L. |