O dia em que Barack Obama despediu o presidente da GM

Em 1938, um dos executivos da General Motors, James Mooney, foi condecorado por Hitler com a Grande Cruz da Águia Germânica. Os nazistas estavam agradecidos. Como disse Bradford Snell, procurador do governo dos EUA, “a GM foi parte integrante do esforço de guerra alemão. Os nazistas não poderiam ter invadido a Polônia e a Rússia sem a GM”. O motivo é que a tecnologia do combustível sintético usado pelos tanques alemães foi repassada aos nazistas pela General Motors – além dos caminhões, jipes, e, inclusive, tanques que ela continuou fabricando na Alemanha em plena II Guerra Mundial, mesmo depois que os EUA entraram no conflito como aliados da URSS e da Inglaterra. Até hoje, por sinal, a GM se recusa a abrir ao público os seus arquivos da época da guerra.

A carta do cineasta Michael Moore que publicamos abaixo é sobre os anos posteriores da GM. Para nós, brasileiros, acostumados à legislação trabalhista do presidente Getúlio Vargas, é algo inconcebível o massacre que a GM promoveu na classe operária norte-americana no pós-guerra. Mas, imagine o leitor um país em que não exista legislação trabalhista alguma – e em que existe até mesmo uma lei de repressão às mobilizações de trabalhadores, o “Labor-Management Relations Act” ou “Taft-Hartley Act”, aprovado em 1947 pelo Congresso, dominado pelo republicanos, derrubando o veto do presidente Truman. Este país, naturalmente, são os EUA, onde a GM esteve até hoje à solta para executar o que no Brasil ela vive tentando: reduzir salários, esticar jornadas de trabalho, demitir de acordo com sua ganância por lucros e sem reconhecer direitos aos demitidos.

Não nos deteremos no escândalo dos ônibus elétricos, em que a GM (com a Standard Oil of California, a Firestone e a Philips Petroleum) comprou clandestinamente as companhias de ônibus elétricos para desmantelar o sistema de tráfego em 45 cidades (incluindo Nova Iorque, Los Angeles, Baltimore e Detroit) e substituir os trolleys por ônibus movidos a derivados de petróleo, fabricados por ela. As atas desse gigantesco processo, em que a Suprema Corte atuou do lado da GM, apesar das sentenças condenatórias de instâncias inferiores, podem ser encontradas na Internet.

Com exceção dos governos Collor e Fernando Henrique, não é incomum no Brasil que o governo tome decisões em favor da população, limitando o poder dos grandes monopólios (até a ditadura tomou algumas medidas desse tipo, embora poucas – e manteve, no essencial, a legislação trabalhista). Por isso é difícil para nós avaliar plenamente o impacto da demissão do presidente da GM, George Richard Wagoner Jr., na consciência dos norte-americanos.

Desde o governo Roosevelt, há 63 anos, a GM foi intocável. Ela jamais admitiu qualquer interferência do Estado, mesmo que fosse – aliás, aí mesmo é que não – para defender os interesses da coletividade. Na verdade, era ela que interferia no governo dos EUA, nomeava e demitia funcionários, ministros – e, muito provavelmente, até presidentes. Mas o governo não interferia, nunca, nesse monopólio mastodôntico da indústria automobilística.

Daí o espanto – e mesmo euforia – de Moore com a demissão de Wagoner, consumada pelo presidente Barack Obama. Não é todo dia que isso acontece nos EUA.

C.L. 

Michael Moore 

Amigos,

Jamais acontecera nada como isso. O Presidente dos Estados Unidos, o representante eleito do povo, acabou de dizer “você está despedido!” ao chefe da General Motors - uma companhia que passou mais anos do que qualquer outra no número 1 da lista de 500 maiores empresas da “Fortune”.

Eu simplesmente não posso acreditar. Esta ação espantosa, sem precedentes, deixou-me atônito nos últimos dois dias. Eu fiquei dizendo: “Obama realmente despediu o presidente da General Motors? A mais rica e mais poderosa corporação do século XX? Ele pode fazer isso? Realmente? Bem, que se dane! O que mais ele pode fazer?!”.

Este ousado lance fez as cabeças da América corporativa girarem como parafuso, vomitando sopa de ervilha [NOTA DO TRADUTOR - menção à uma famosa cena do filme “O Exorcista”]. Obama emitiu seu edito: o governo do, pelo, e para o povo está mandando aqui, não o big business. John McCain entendeu. Na tribuna do Senado, ele perguntou: “Isso significa um sinal enviado às outras corporações e instituições financeiras de que o governo federal também as despedirá?”. O senador Bob Corker [N.T. - republicano do estado sulista do Tennessee] disse que a medida de Obama “deveria provocar um arrepio em todos os americanos que acreditam na livre empresa”. A Bolsa despencou, com os donos do universo perguntando a si próprios: “Eu sou o próximo?”. E murmurando uns para os outros: “O que vamos fazer com esse Obama?”.

Não muito, companheiros. Ele tem a maciça vontade do povo americano por trás dele - e tem autorização passada por nós para fazer o que acha apropriado. Se você gostou da cesta de 3 pontos desta semana, fique sintonizado.

Escrevo esta carta a vocês em memória das centenas de milhares de trabalhadores que ao longo de mais de 25 anos têm sido jogados num monturo de lixo pela General Motors. Muitos viram suas vidas arruinadas para sempre. Voltaram-se para o álcool ou para as drogas, seus casamentos desabaram, alguns deram fim a suas próprias vidas. A maioria mudou-se, depois mudou-se, mudou-se mais uma vez e mudou-se outra vez [N.T. - o efeito, mais poético do que prosaico, da frase de Moore, “Most moved on, moved out, moved over, moved away” é irreproduzível em português]. Acabaram trabalhando em dois empregos por metade do que recebiam na GM. E eles amaldiçoaram o CEO [executivo-chefe] da GM por lançar a ruína sobre suas vidas.

Nenhum deles nem mesmo pensou que um dia testemunhariam o CEO receber o mesmo tratamento. Naturalmente, Wagoner, o presidente da GM, não terá de alistar-se para receber cartões de comida ou ser despejado de sua casa ou contar a seus filhos que eles terão de ir para um community college e não para a universidade [N.T. - “community college”: instituição que ministra ensino supostamente “superior” de ínfima categoria, em imprestáveis cursos de dois anos]. Ao invés disso, ele receberá um para-quedas dourado de US$ 23 milhões. Mas, o bilhete que ele recebeu é azul, exatamente como centenas de milhares que outros receberam - exceto que este foi emitido por nós, via o mano Obama. Aqui está a porta da rua, imbecil. Adeuzinho. Não queria estar no seu lugar.

Comecei meu dia em Washington indo ao Senado para ouvir os depoimentos no Comitê de Finanças sobre o bailout de Wall Street. Os supervisores queriam saber como os bancos gastaram o dinheiro. E muitos desses bancos não queriam contar a eles. Pegaram trilhões e ninguém sabe onde o dinheiro foi parar. Certamente, não foi gasto para criar empregos, para aliviar os que têm suas casas hipotecadas, ou para o crédito que o povo necessita. Foi tão chocante ouvir isso que eu saí antes que terminasse a sessão. Mas deu-me uma idéia para o filme que estou fazendo.

Mais tarde, parei no Arquivo Nacional para ver uma cópia do original de nossa Constituição. Pensei sobre como, neste mês, vinte anos atrás, eu estava na rua acabando o meu primeiro filme, um alerta pessoal para advertir a nação sobre a GM e a mortandade econômica que ela impunha. Nesse dia de março, em 1989, eu estava quebrado, tendo recebido o último de meus cheques-desemprego, contando com a ajuda de meus amigos (Bob e Siri me levavam para jantar e sempre me arranjavam um cheque, o sub-gerente do cinema deixava eu entrar furtivamente e assim eu podia ocasionalmente assistir a um filme, Laurie e Jack compraram para mim uma velha máquina Steenbeck (editora de filmes), John Richard me repassaria uma passagem de avião que não tinha usado e assim eu poderia ir para casa no Natal, Rod faria qualquer coisa por mim e eu recorreria a Flint quando necessitasse de qualquer coisa para o filme). Minha falecida mãe (ela completaria 88 anos amanhã, se estivesse ainda entre nós) e meu pai, operário da fábrica de automóveis da GM, disseram-me na cozinha que queriam ajudar e assinaram um cheque no valor estonteante de mil dólares. Eu nem sabia que eles tinham mil dólares. Recusei, eles insistiram, eu repeli o cheque - “Não!” - e, então, com a voz de pais, disseram-me que eu pagaria assim que pudesse terminar meu filme. E assim o fiz.

Então, nesse dia de março de 1989, quando eu estava dirigindo pela Avenida Pennsylvania abaixo, meu velho carro de nove anos morreu. Eu encostei no meio-fio, coloquei minha cabeça no volante e comecei a chorar. Eu não tinha dinheiro para mandar consertá-lo, e certamente não tinha nada para pagar o reboque. Então, saí do carro, desaparafusei as placas porque eu não queria ser multado, dei as costas e deixei-o para sempre. Olhei para o edifício próximo a mim. Estava escrito “Arquivo Nacional”. Não havia melhor lugar para doar meu falecido carro, pensei, e andei o resto do caminho até em casa.

Apesar de não ter sido fácil para mim, nunca sofri o que muitos de meus amigos e vizinhos sofreram graças à General Motors e a um sistema econômico montado contra eles. Queria saber o que todos eles devem ter pensado quando acordaram nessa manhã de segunda-feira para ler no Detroit News ou no Detroit Free Press as manchetes de que Obama tinha demitido o CEO da GM. Oh - espere um minuto. Eles não poderiam ler isso. Não existe nenhum Free Press ou News. Segunda-feira foi o dia em que ambos os jornais deixaram de ser entregues nas casas. A entrega foi cancelada (passará a ser por quatro dias na semana) porque os jornais diários, como a General Motors, como Detroit, estão quebrados.

Espero a próxima jogada de super-herói do presidente.

Seu,

Michael Moore


Primeira Página

 

Página 2

BC diz que déficit externo será coberto com desnacionalização

Até 27 de março, saíram do país US$ 2,87 bilhões

Bancos obrigam empresas a aplicarem em derivativos

Falta de crédito e “condução lenta” na queda dos juros prejudicam indústria, afirma o Iedi

Telemar registra lucros de R$ 2,9 bi sem expandir número de linhas fixas

General Heleno alerta para “flagrante” ausência do Estado nas fronteiras

Leilões da Aneel entregam linhas de transmissão para estrangeiros

Relator do STF defende que monopólios de imprensa não sejam enquadrados pela lei

EXPEDIENTE

Página 3

Juros deixam contas públicas negativas no mês de fevereiro

Dilma: municípios que dependem mais dos repasses do FPM terão prioridade para receber ajuda

Lula na Europa defende produção e fim da especulação financeira

PF informa que PSDB e Dem foram citados pelos investigados da CC

Para Gabrielli, não há irregularidades  na Abreu e Lima

Oposição tenta paralisar Câmara e sofre derrota

CCJ quer promulgação da PEC dos vereadores

Gilmar Mendes não viu o inquérito, não leu, não gostou e tem raiva da PF

Página 4

Siqueira: Atual lei do petróleo é “extremamente perniciosa”

Serra nega ajuda a hospital e diz para prefeito dar “chineladas nas baratas” que infestam UTI

“Caravana” deixa transparente o descaso do DEM com a população

MP investiga fraudes na compra de remédio em SP

Espanhóis planejam a compra de 100 mil hectares de terras na Amazônia

Cartas

Página 5

Justiça ordena que Usiminas explique demissão de 2.300

Servidores Públicos de Curitiba realizam manifestação por reajuste salarial de 14,6%. Prefeitura propõe 6,5%

Após CSN anunciar lucros recordes, Justiça Federal barra distribuição de dividendos e exige pagamento de dívida

Peugeot demite 250 um dia depois do acordo entre governo e montadoras 

Neto: fator previdenciário representou R$ 10 bi a menos na economia em 5 anos

Frigorífico anuncia dispensa de 1.400 e  demissões na empresa somam 6.200

Página 6

Falência dos monopólios gesta as condições de libertação dos povos

Obrador: nossa mobilização evitou doação do petróleo

MR8 no encontro do México: Cabe a nós concluir a obra de Bolívar, Zapata, San Martín e de Tiradentes

Seminário saúda vitória da FMLN em El Salvador

O alvoroço imperialista com o lançamento do satélite da RPDC

Cúpula árabe/sul-americana diz que a saída da crise é aprofundar integração econômica

Página 7

Desastre provocado por bancos é repudiado nas ruas de Londres

Norte-americanos fazem marcha a Wall Street pela realização do sonho de Martin Luther King

Nazi Avigdor Lieberman assume a pasta do Exterior de Israel prometendo guerra

Dayana, miss Universo, e Crystal, Miss USA, acham “muito lindo” campo de tortura de Guantánamo

O prelúdio

Página 8

O dia em que Barack Obama despediu o presidente da GM

Leia

Centrais querem mais emprego e menos juro para impedir tsunami de invadir nossa praia

Remessas ao exterior mantêm a escalada e vão a US$ 2,6 bilhões

Bancos propõem corte na renda da caderneta de poupança em prol do achaque ao Erário

Múltis drenam do país US$ 3,266 bilhões só em dez dias de março

Vale demite, reduz salários e distribui R$ 5 bi a acionistas

Sob pressão, BC recua juro outro pontinho e meio

Aumento do IDE agrava sangria de recursos do Brasil para fora

Desnacionalização e gestão temerária sufocam a Embraer

Solução para a Embraer é voltar a ser do Estado

Febraban diz que reduz spread se a União pagar conta de inadimplentes

“Decisão do governo é não emprestar a quem desemprega”, diz Lula

Lula: “Eles cultivam o ódio dos de cima contra os de baixo” 

BC assalta 80 bi das reservas para ajudar bancos em Wall Street

Juros e pilantragem de múltis fazem produção industrial encolher 19%

Repatriamento de capital por múltis ameaça as contas externas do Brasil

Juro alto do BC é o fundamento do spread aloprado

Conselheiros do CDES pedem a antecipação da reunião do Copom

Meirelles recua debaixo de vara e reduz os juros em um pontinho

Centrais fecham com Lula ofensiva contra os juros, demissões e redução dos salários

Fiesp abre guerra contra os salários dos trabalhadores

BB paga R$ 4 bilhões para Votorantim ficar com o controle do BV

Juros e alarmismo midiático freiam a produção industrial

 Israel testa Obama com chacina contra palestinos em Gaza

Para Lula, juros têm que cair no começo de 2009

Para nababos da Vale, povo duro é a melhor receita contra a crise

“Toma o beijo da despedida, seu cachorro!”

Meirelles afronta o Brasil e não reduz taxa de juros para jogar país na crise

Alencar mantém BC sob pressão: “esses juros são anomalia”

Lula a Meirelles: “juro está além daquilo que o bom senso indica”

Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores

Meirelles diz que não aceita baixar juro para priorizar crescimento

Juro alto dissipa 29% da renda disponível no país, afirma Ipea

Procurador avalia que há provas para Daniel Dantas pegar um ano a mais que Al Capone

“Gasto público que precisa ser cortado é o juro”, diz Ipea

Meirelles quer que Brasil traia o compromisso com G-20 sobre redução do juro

China põe R$ 1 trilhão na infra-estrutura para crescer 9% em 2009

EUA responde à crise votando em massa na mudança

Fusão de Unibanco com Itaú torna mais anti-social sistema financeiro privado

Banqueiros põem o compulsório no bolso e dão uma banana ao crédito

Greve da Polícia Civil cresce e responde a Serra nas ruas de SP

Eleições em S. Paulo opõem integridade de Marta à dissimulação indecorosa de Kassab

Governador trai promessa e dá ordem para PM atacar policiais

Marta sobe porque é Lula. Kassab cai porque é oposição

Retratação de Gabeira reafirma preconceito contra “suburbanos”

Inauguração da P-51 é resposta do Brasil à crise

Eleições dão vitória aos aliados de Lula em todas as regiões

Lula pede a S. Paulo que vote em Marta: “temos as mesmas idéias e projetos”

Veto popular assusta republicanos e trava bailout de US$ 700 bi a especulador falido

Economia na mão de especuladores levou EUA à crise, diz Lula

Para Serra, Kassab é leal. Alckmin, não

Lula mobiliza PF para fechar nossa fronteira a terroristas da Bolívia

Kassab usa Ama para passar verba pública aos grupos privados

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Comando do Exército desmente Jobim: “a maleta da Abin não serve para escutas”

Maleta não faz grampo, apenas a varredura, diz técnico da Abin

Quadrilha pró-Dantas acusa Abin de gravar seu truta no Supremo

Trabalhadores se unem e dão apoio unânime à Marta

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Lula convoca UNE a deflagrar campanha do ‘Pré-sal é Nosso!’

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