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Déficit,
espoliação econômica e máquina de guerra dos EUA (1)
O texto de Michael Hudson do qual
hoje publicamos a primeira parte contém importantes observações sobre como o
sistema financeiro instituído em Bretton Woods transformou-se em uma espécie de
monstrengo, graças ao qual os EUA invadem os outros países com dólares
especulativos – e comprando, em massa, empresas nesses países. Nós, brasileiros,
conhecemos bem esse processo.
No entanto, a recíproca não é
verdadeira. Os países que acumulam grandes reservas em dólares estão impedidos
de comprar nos EUA aquilo que não seja de interesse do governo e da casta
dominante norte-americana que eles comprem. É permitido à China comprar pacotes
de papéis podres lastreados em hipotecas. Mas não se permite que os chineses
comprem, por exemplo, uma rede de postos de gasolina. Os EUA mantêm-se
protegidos e muito bem protegidos. Na verdade, os dólares investidos nos EUA por
outros países – os principais países investidores são, hoje, por magnitude do
capital, a China, o Japão e o Brasil – acabam por financiar o déficit público e,
por consequência, sustentando a máquina de guerra – muitas vezes, como é o caso
evidente da China, dirigida contra os próprios possuidores de dólares, ou seja,
contra os mesmos que financiam as despesas militares norte-americanas.
Somente os EUA estão na situação
de beneficiar-se de seu próprio déficit, absorvendo os dólares que outros países
capturam através do comércio – e ao mesmo tempo invadindo economicamente os seus
benfeitores. O que, sem dúvida, significa que o atual sistema financeiro merece
urgentemente ser sepultado – hoje, ele já é um cadáver, não por acaso tantos
governantes falam em abolir o dólar como moeda internacional.
Porém, cabe a cada país se
proteger. Como nota Hudson, ao relatar uma tentativa da Coca-Cola de entrar no
mercado interno da China através da compra de uma empresa chinesa, não são
somente os norte-americanos que não permitem a aquisição indiscriminada de suas
empresas.
Talvez a alguns, devido à invasão
do nosso país pelo chamado “investimento direto estrangeiro” desde o governo
Fernando Henrique, com a compra descomunal de empresas construídas por
brasileiros nos mais diversos setores da economia, isso pareça estranho. No
entanto, é a mais simples, óbvia e lógica ordem das coisas que a economia de um
país pertença a si e não a outros países. Simplesmente, não existe nação
plenamente constituída, plenamente independente, sem uma economia própria, um
Estado próprio e uma cultura própria. O que é a mesma coisa que dizer – o que
parece evidente, mas depois de anos de abjeção neoliberal, às vezes é necessário
lembrar - que a existência de uma nação implica na existência de um Estado
nacional, na existência de uma economia nacional e na existência de uma cultura
nacional.
C.L.
MICHAEL HUDSON
*
Há
três semanas viajo pela Europa, discutindo a crise financeira global com
funcionários governamentais, políticos e dirigentes sindicais. O mais notável
são as diferenças de percepção do problema financeiro. É como estar em outro
universo econômico, não só em outro continente.
A mídia dos
Estados Unidos guarda silêncio sobre o tópico mais importante discutido pelos
responsáveis políticos europeus (e desconfio que o mesmo acontece na Ásia): como
proteger seus países de três dinâmicas interrelacionadas:
(1) o
excedente de dólares que faz crescer ainda mais sobre o resto do mundo a
especulação financeira e as aquisições de empresas;
(2) o fato
de que os bancos centrais se vêem obrigados a reciclar essa afluência de dólares
comprando títulos do Tesouro dos EUA para financiar o déficit orçamentário
federal desse país; e, o que é mais importante (porém o mais ocultado pelos
meios de comunicação dos EUA):
(3) o
caráter militar do déficit de pagamentos dos EUA e do déficit orçamentário
federal interno.
Por estranho
que pareça – e por irracional que seria em um sistema mais lógico de diplomacia
mundial – a superabundância de dólares é o que financia o fortalecimento militar
global dos Estados Unidos. Ela obriga os bancos centrais estrangeiros a carregar
os custos da expansão do império militar dos EUA – uma efetiva “tributação sem
representação”. Manter reservas internacionais “em dólares” significa reciclar
as entradas em dólares para comprar valores do Tesouro dos EUA – dívida do
governo dos Estados Unidos, criada em grande parte para financiar as forças
armadas.
Até hoje, os
países têm sido impotentes para defender-se contra o fato de que esse
financiamento obrigatório dos gastos militares dos EUA está incorporado ao
sistema financeiro global. Economistas neoliberais o aplaudem como “equilíbrio”,
como se fizesse parte da natureza econômica e dos “livres mercados”, em lugar de
ser uma diplomacia implacável, utilizada com crescente agressividade por
funcionários estadunidenses. A mídia contribui, pretendendo que a reciclagem da
superabundância de dólares para financiar os gastos militares dos EUA é “mostrar
sua fé na potência econômica dos EUA” ao enviar “seus” dólares para
“investi-los” nesse país. Como se fosse uma decisão, não uma imposição
financeira e diplomática, decidir simplesmente entre “sim” (da China, de má
vontade), “sim, por favor” (do Japão e da União Européia) e “sim, obrigado” (da
Grã-Bretanha, Geórgia e Austrália).
Não é a “fé
estrangeira na economia dos EUA” que leva os estrangeiros a “colocar seu
dinheiro em nosso país”. Isso é uma estúpida visão antropomórfica de uma
dinâmica mais sinistra. Os “estrangeiros” em questão não são consumidores que
compram exportações dos Estados Unidos, nem são “investidores” do setor privado
que compram ações e títulos dos Estados Unidos. As maiores e mais importantes
entidades estrangeiras que colocam “seu dinheiro” nos Estados Unidos são bancos
centrais, e não é de nenhuma maneira “o seu dinheiro”. Estão enviando de volta
os dólares que exportadores estrangeiros e outros destinatários entregam aos
seus bancos centrais em troca de moeda nacional.
Quando o
déficit de pagamentos dos Estados Unidos bombeia dólares para economias
estrangeiras, esses bancos têm poucas alternativas além de comprar letras e
títulos do Tesouro dos EUA – que o Tesouro gasta para financiar um enorme
fortalecimento militar hostil para cercar os principais recicladores de dólares
– China, Japão e produtores de petróleo árabes da OPEP. Apesar disso, esses
governos se vêm obrigados a reciclar os ingressos em dólares de um modo que
financia as políticas militares dos EUA, em cuja formulação não tomam parte, e
que os ameaçam de uma maneira mais e mais beligerante. Por isso, China e Rússia
tomaram há alguns anos a iniciativa na formação da Organização de Cooperação de
Xangai (SCO). Aqui na Europa existe uma clara consciência de que o déficit de
pagamentos dos EUA é muito maior que só o déficit comercial. Basta simplesmente
dar uma olhada na Tabela 5 dos dados da balança de pagamentos dos Estados
Unidos, compilada pelo Bureau de Análise Econômica (BEA) e publicada pelo
Departamento de Comércio em sua Survey of Current Business, para ver que o
déficit não provém só de que os consumidores compram mais bens importados que os
exportados pelos EUA, já que o setor financeiro desindustrializa sua economia.
As importações feitas pelos EUA agora caem, ao contrair-se a economia, e agora
os consumidores se vêem obrigados a pagar as dívidas que fizeram.
O Congresso
disse aos investidores estrangeiros do maior possuidor de dólares, a China, que
não comprem nada que não sejam carros usados e talvez pacotes de hipotecas e
ações de Fannie Mae – o equivalente a como investidores japoneses foram levados
a gastar um bilhão de dólares no Rockefeller Center, pelo qual sofreram uma
perda de 100%, e ao investimento saudita no Citigroup. É o tipo de “equilíbrio
internacional” que os responsáveis estadunidenses adoram. “CNOOC (companhia
petrolífera estatal da China) go home!”. CNOOC é a palavra de ordem quando se
trata de tentativas sérias de governos estrangeiros e seus fundos soberanos de
investimento (departamentos de bancos centrais que tratam de encontrar o que
fazer com sua superabundância de dólares) de fazer investimentos diretos na
indústria dos Estados Unidos.
Assim temos a
dimensão de, e em que medida, o déficit de pagamentos dos Estados Unidos provêm
dos gastos militares. O problema não é só a guerra no Iraque, que agora se
estende ao Afeganistão e Paquistão. É o caro fortalecimento de bases militares
dos EUA em países asiáticos, europeus, pós-soviéticos e do Terceiro Mundo. O
governo de Obama tem prometido que o mundo real dos gastos militares será mais
transparente. Isso significa presumivelmente que se publique um conjunto
revisado de cifras da balança de pagamentos, assim como de estatísticas internas
do orçamento federal.
Os gastos
fixos militares são muito parecidos com os gastos fixos da dívida: extraem
receita da economia. Nesse caso, para pagar ao complexo militar-industrial, não
só aos bancos de Wall Street e a outras instituições financeiras. O déficit
interno do orçamento federal não provém só de “nutrir a bomba” (inversão para
relançamento econômico), injetando somas enormes para criar uma nova oligarquia
financeira. Contém um imenso componente militar em rápido crescimento.
Portanto,
europeus e asiáticos vêem companhias estadunidenses que lançam mais e mais
dólares em direção a suas economias, não só para comprar suas exportações, à
parte de fornecer-lhes bens e serviços em troca, e não só para comprar suas
companhias e “postos de comando” de empresas públicas privatizadas, sem dar-lhes
direitos recíprocos para comprar importantes companhias dos Estados Unidos (é
preciso recordar a negativa dos EUA à tentativa chinesa de investir no negócio
de distribuição de petróleo dos Estados Unidos), e não só para comprar ações,
títulos e bens imobiliários estrangeiros. A mídia dos EUA de alguma maneira não
menciona que o governo gasta centenas de bilhões de dólares no estrangeiro – não
só no Oriente Próximo em combates propriamente ditos, mas para construir enormes
bases militares a fim de cercar o resto do mundo, para instalar sistemas de
radares, sistemas de mísseis teleguiados e outras formas de coerção militar
(incluindo as “revoluções coloridas” que têm sido financiadas – e seguem sendo
financiadas - em toda a ex-União Soviética).
Pacotes de
notas de 100 dólares, envoltos em plásticos, que somam dezenas de milhões de
dólares de uma vez, são convertidos em “efeitos visuais” familiares em algumas
transmissões de televisão, mas não se faz o vínculo com os gastos militares e
diplomáticos dos EUA e com as reservas de dólares dos bancos centrais
estrangeiros, das quais se fala simplesmente como “maravilhosa fé na recuperação
econômica dos EUA” e presumivelmente “a magia monetária” operada por Tim
Geithner de Wall Street, no Tesouro, e por Ben Bernanke na Reserva Federal.
E este é o
problema: a Coca-Cola quis comprar recentemente o maior produtor e distribuidor
de suco de frutas da China. A China já possui cerca de 2 trilhões de dólares em
valores dos EUA – muito mais do que necessita ou pode utilizar, enquanto o
governo dos Estados Unidos se nega a permitir que compre companhias importantes
dos EUA. Se houvesse permitido a aquisição [da empresa de sucos] pelos EUA, a
China estaria ante um dilema: a alternativa Nº 1 seria deixar que se realizasse
a venda e aceitar o pagamento em dólares, reinvestindo-os naquilo que o Tesouro
dos EUA lhe diga – títulos do Tesouro dos EUA, que rendem cerca de um 1%. A
China aceitaria uma perda de capital nesses últimos ao aumentarem os tipos de
juros nos EUA ou ao baixar o dólar, já que só os EUA mantêm políticas
expansionistas keynesianas em sua tentativa de capacitar a economia para
sustentar os gastos fixos com sua dívida.
A alternativa
Nº 2 é não reciclar as entradas em dólares. Isso levaria a que o renminbi (yuan)
se valorizasse em relação ao dólar, prejudicando assim a competitividade das
exportações da China nos mercados mundiais. Por isso, a China tentou uma
terceira via, o que provocou protestos dos EUA, e rejeitou a venda de sua
companhia concreta por simples dólares “de papel” estadunidenses – que estava
associada à “alternativa” de financiar o aumento do cerco da SCO por parte dos
EUA. Os únicos que não parecem fazer essa conexão são os meios de comunicação de
massa estadunidenses, e, em conseqüência, o público desse país. Posso assegurar
por experiência pessoal que na Europa fazem (é um bom tema diplomático para a
discussão: qual será o primeiro país europeu, fora a Rússia, a somar-se à SCO?).
Os livros de
texto acadêmicos não dizem nada sobre como o “equilíbrio” nos movimentos de
capital estrangeiro – especulativo, assim como para investimentos diretos – é
infinito no que concerne à economia dos EUA. A economia dos EUA pode criar
livremente dólares, que não são convertidos em ouro ou sequer em compras de
companhias dos EUA, já que os Estados Unidos seguem sendo a economia mais
protegida do mundo. Só aos EUA se permite que proteja sua agricultura mediante
cotas de importação, depois que essa possibilidade foi introduzida há meio
século, com o nome de “cláusula do avô” (Nota do tradutor: uma “cláusula do avô”
é uma exceção que permite que uma regra antiga siga sendo aplicada a certas
situações existentes) nas regras do comércio mundial. O Congresso se nega a
permitir que fundos “soberanos de investimento” invistam em importantes setores
dos EUA.
Portanto, nos
vemos diante do fato de que o Tesouro dos Estados Unidos prefere que os bancos
centrais estrangeiros sigam financiando seu déficit orçamentário interno, ou
seja, que financiem o custo da guerra dos EUA no Oriente Próximo e o cerco de
países estrangeiros com anéis de bases militares. Entretanto, quanto mais
“saídas de capitais” gastam os investidores dos EUA para adquirir economias
estrangeiras – os setores mais lucrativos, onde os novos proprietários
estadunidenses podem extrair as maiores rendas monopolísticas – mais fundos
terminam nos bancos centrais estrangeiros para apoiar o reforço militar global
dos EUA. Nenhum livro de texto sobre teoria política ou relações internacionais
tem sugerido axiomas para explicar como nações atuam de um modo tão contrário a
seus próprios interesses políticos, militares e econômicos. Contudo, é
precisamente o que ocorreu durante a geração passada.
* É
ex-economista de Wall Street especializado em balanço de pagamentos e bens
imobiliários no Chase Manhattan Bank (agora JPMorgan Chase & Co.), Artur
Anderson e, depois, no Hudson Institute. Em 1990 colaborou no estabelecimento do
primeiro fundo soberano de dívida do mundo para Scudder Stevens & Clark. Hudson
foi assessor econômico chefe de Dennis Kucinich na campanha primária
presidencial democrata e assessorou os governos dos EUA, Canadá, México e
Letônia, assim como o Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa.
Destacado professor e pesquisador na Universidade de Missouri, na cidade de
Kansas, é autor de numerosos livros, entre eles “Super Imperialism: The Economic
Strategy of American Empire”.
Continua na
próxima edição. |