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Déficit,
espoliação econômica e máquina de guerra dos EUA (2)
A questão que
Michael Hudson examina nesta segunda parte de seu artigo (publicado, sob o
título original “Economic Meltdown: The ‘Dollar Glut’ is What Finances America’s
Global Military Build-up”, na revista do Centre for Research on Globalization,
29/03/2009) já foi abordada por nós há alguns meses. Com a irrupção da crise nos
países centrais, em especial nos EUA, apareceram os vendedores (e os
compradores) de ilusões. Uma delas, comprada a preço particularmente barato por
alguns, é a de que o caos especulativo provocado por anos de neoliberalismo não
pode ser superado por medidas no terreno nacional, ou seja, os governos
nacionais nada podem e nada têm a fazer para proteger seus países do parasitismo
da oligarquia financeira, sediada principalmente em Wall Street, e do abismo em
que ela própria se lançou. Assim, só com um acordo “internacional”, com uma
regulação “internacional” e com medidas “internacionais”, isso seria possível.
Tal regulação
“internacional” seria tão internacional, no máximo, quanto o dólar é a moeda
“internacional”. Naturalmente, não existe nada internacional no mundo de hoje
que esteja acima das nações, pois este mundo é composto, precisamente, por
nações. A cooperação internacional é a cooperação entre nações, assim como a
espoliação internacional é a espoliação de uma ou de algumas nações sobre
outras.
Parece óbvio, mas,
analisemos com mais vagar a questão.
Se fosse hoje
impossível às nações enfrentar a espoliação especulativa – isto é, a invasão de
dólares para comprar empresas públicas e privadas e para negociar com papéis na
Bolsa e no “mercado” de títulos públicos –, a consequência seria, evidentemente,
condenar todos os países do mundo à impotência, como se eles fossem meros
apêndices do capital especulativo, principalmente norte-americano. No entanto,
tudo está aqui de cabeça para baixo: são os monopólios financeiros que dependem,
para continuar seu brutal enriquecimento parasitário, de extrair recursos a
granel de outros países. Não são estes países que dependem do capital
especulativo para sobreviver. Afirmar o contrário seria a mesma coisa que
declarar que são as lombrigas que permitem a seus hospedeiros viver, e não o
contrário.
Certamente, tal
concepção revela, sobretudo, submissão à oligarquia financeira dos países
centrais – esmagamento diante de um poder que, na atualidade, jamais foi tão
frágil, jamais foi tão falido e jamais foi tão minguante desde que essa
oligarquia existe. É interessante observar que é precisamente no momento em que
mastodontes como o Citibank e a GM estão em bancarrota, que tal ideia é posta a
circular. O motivo é relativamente simples: é a eles que tal superstição
beneficia, ao mesmo tempo que prejudica os países, povos e governos,
especialmente os da periferia do sistema, mas até mesmo alguns países centrais.
A rigor, tal expectativa fantasiosa beneficiaria exclusivamente à oligarquia
financeira norte-americana.
Hudson demonstra
que, ao contrário, a única solução para recuperar a soberania de cada país sobre
sua economia é a ação de cada governo, representando a sociedade, neste sentido.
Como muitas coisas abafadas pela enxurrada neoliberal, depois de explicitado
isso parece evidente: que regulação “internacional” pode existir se ela não for
consequência da regulação que cada país estabeleça em prol do interesse público?
Absolutamente nenhuma – e depositar as esperanças de que o FMI estabeleça tal
regulação “acima” dos interesses da oligarquia financeira norte-americana, já é
quase escorregar para o ridículo. O FMI foi, desde o início, e continua sendo, o
guardião, mais precisamente, o leão de chácara, da hegemonia financeira desta
oligarquia sobre os demais países. Exatamente por isso vários governantes,
inclusive o presidente Lula, têm proposto a abolição do dólar como moeda
“internacional”.
Realmente,
rebaixar a economia dos demais países a tributárias do dólar é somente
ressuscitar o sistema que os romanos impunham aos gauleses e outros povos, sob
nova forma. A antiga, aliás, era bem mais honesta – e menos predatória. Mesmo
assim, todos sabemos como o Império Romano acabou.
C.L.
MICHAEL HUDSON
*
A pergunta decisiva é: o que podem fazer os países
para enfrentar esse ataque financeiro? Um sindicalista basco me perguntou se eu
acredito que o controle de movimentos especulativos de capital asseguraria que o
sistema financeiro atual poderia servir ao interesse público, ou se é necessário
uma nacionalização direta para desenvolver melhor a economia real?
Não é simplesmente um problema de “regulação”
ou de “controle de movimentos do capital especulativo”. A questão é como as
nações podem atuar como verdadeiras nações, em seu próprio interesse, em lugar
de serem manipuladas para servir a qualquer coisa que os diplomatas dos EUA
decidam que é de interesse dos Estados Unidos.
Qualquer país que
trate de fazer o que os EUA têm feito durante os últimos 150 anos, seria acusado
de ser “socialista” – e isso por parte da economia mais anti-socialista do
mundo, com exceção de quando chamam “socialismo para os ricos” ao resgate para
seus bancos, isto é, da oligarquia financeira. Essa inflação retórica quase não
deixa outra alternativa senão a nacionalização direta do crédito como serviço
público básico.
Sem dúvida, a
palavra “nacionalização” tem-se convertido em sinônimo de resgate de empréstimos
tóxicos dos maiores e mais imprudentes bancos, e resgate de hedge funds e
contrapartidas não-bancárias perdidas no “capitalismo de cassino”, que joga com
derivativos que a AIG e outras seguradoras ou participantes do lado perdedor
desse jogo não podem pagar. Semelhantes resgates não representam uma
nacionalização no sentido tradicional do termo - devolver o crédito e outras
funções financeiras ao domínio público. É o contrário. Imprimem-se mais títulos
do governo para entregá-los – junto com o poder auto-regulador – ao setor
financeiro, bloqueando a disponibilidade de que a cidadania recupere essas
funções.
Focalizar o tema
como uma escolha entre democracia e oligarquia leva à questão de quem controla o
governo que faz a regulação e “nacionaliza”. Se quem decide é um governo cujo
banco central e os principais comitês do Congresso que se ocupam das finanças
são dirigidos por Wall Street, não se ajudará a dirigir o crédito para usos
produtivos. Simplesmente continuará a era Greenspan-Paulson-Geithner de mais e
maiores obséquios para seus eleitores financeiros.
A noção de “regulação” da oligarquia
financeira é assegurar que desreguladores estejam instalados em posições chave.
Apesar do anúncio de Mr. Greenspan de que finalmente viu a luz e que se deu
conta de que a auto-regulação não funciona, o Tesouro segue dirigido por um
funcionário de Wall Street e a Reserva Federal [banco central dos EUA] por um
lobista de Wall Street. Para os lobistas, a verdadeira preocupação não é a
ideologia em si – mas o interesse próprio de seus clientes. Podem escolher bobos
de boa vontade, especialmente personalidades prestigiosas do mundo acadêmico.
Pois são só testas de ferro, dirigidos por seguidores de Milton Friedman na
Universidade de Chicago. Tais indivíduos são alocados para que sirvam de
“porteiros” nas principais revistas acadêmicas para excluir ideias que não
sirvam aos lobistas financeiros.
Essa desculpa para
excluir o governo de uma regulação que tenha sentido, prega que as finanças são
tão técnicas que só alguém da “indústria” financeira é capaz de regulá-la. Para
piorar as coisas, se faz a afirmação adicional contra-intuitiva de que uma
característica da democracia é que o banco central seja “independente” do
governo eleito. Na realidade, claro está, isso é o contrário da democracia. As
finanças são um ponto crucial do sistema econômico. Se não são reguladas
democraticamente em função do interesse público, são “livres” para serem
capturadas por interesses especiais. De modo que isto se converte na definição
oligárquica de “liberdade de mercado”.
O perigo é que os
governos permitam que o setor financeiro determine como se aplicará a
“regulação”. Os interesses especiais querem ganhar dinheiro com a economia, e o
setor financeiro não passa de um modo extrativo. Este é seu plano de marketing.
As finanças atuais atuam de maneira que desindustrializa as economias, não as
fortalecem. O plano é: austeridade para a mão de obra, a indústria e todos os
setores com exceção das finanças, como nos programas do FMI impostos a
desventurados países do Terceiro Mundo. A experiência da Islândia, Letônia e
outras economias “financiadas” deveria ser examinada, como lição objetiva, ainda
que somente por estarem nos primeiros lugares na lista do Banco Mundial em
termos de “facilidade para fazer negócios”.
A única regulação
que tem sentido provém de fora do setor financeiro. De outra maneira, os países
sofrem com o que os japoneses chamam de “filhos do céu”: reguladores
selecionados das fileiras dos banqueiros e seus “idiotas úteis”. Ao retirar-se
do governo, voltam ao setor financeiro para receber postos lucrativos,
“compromissos para conferências” e remunerações afins. Como troca, regulam a
favor de interesses especiais, não do público em geral.
O problema dos
movimentos do capital especulativo vai além da elaboração de um conjunto de
regulações específicas. Depende do alcance do poder do governo nacional. Os
Artigos de Acordo do Fundo Monetário Internacional impedem que os países
restaurem os sistemas “de tipos falsos de câmbio” que muitos retiveram durante
os anos cinqüenta e inclusive nos anos sessenta. Era uma prática generalizada
que os países tivessem uma taxa de câmbio para bens e serviços (às vezes várias
taxas de câmbio para diferentes categorias de importação e exportação) e outra
para “movimentos de capital”. Sob pressão americana, o FMI impôs a ficção de que
existe uma taxa de “equilíbrio” que por casualidade é a mesma para bens e
serviços como para movimentos de capital.
* É ex-economista de Wall Street
especializado em balanço de pagamentos e bens imobiliários no Chase Manhattan
Bank (agora JPMorgan Chase & Co.), Artur Anderson e, depois, no Hudson Institute.
Em 1990 colaborou no estabelecimento do primeiro fundo soberano de dívida do
mundo para Scudder Stevens & Clark. Hudson foi assessor econômico chefe de
Dennis Kucinich na campanha primária presidencial democrata e assessorou os
governos dos EUA, Canadá, México e Letônia, assim como o Instituto das Nações
Unidas para Formação e Pesquisa. Destacado professor e pesquisador na
Universidade de Missouri, na cidade de Kansas, é autor de numerosos livros,
entre eles “Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire”. |