|
A Telebrás, a
tecnologia nacional e o bloqueio pelo cartel multinacional
O texto que
publicamos hoje – e o que se seguirá, em nossa próxima edição – foi extraído do
livro “A Lógica do Capital-informação” (segunda edição, Contraponto, Rio de
Janeiro, 2002, págs. 215-221), de Marcos Dantas, doutor em Engenharia de
Produção, professor e estudioso brasileiro da área de telecomunicações. Como o
leitor poderá conferir, o autor relata como, no governo Geisel, depois de uma
diretriz no sentido de desenvolver tecnologia e equipamentos nacionais, a
Telebrás, através do Centro de Pesquisas Padre Landell de Moura, conhecido como
CPqD, desenvolveu a avançada (para a época) central de telefonia “Trópico”, que
tornou insustentáveis os sobrepreços impostos ao Estado pelo cartel
multinacional composto pela Siemens, Ericsson e ITT. Em seguida, Dantas descreve
como esse cartel, com apoio dentro do próprio Ministério das Comunicações,
conseguiu sabotar o bem sucedido esforço nacional nesta área. Pela importância
do tema, que hoje é mais do que atual, oferecemos aos nossos leitores estes
trechos de um livro muito elucidativo.
C.L.
MARCOS DANTAS*
O acelerado desenvolvimento das comunicações
brasileiras nesses primeiros dez anos de governos militares realizou-se por meio
de elevadas importações de bens e serviços mas, ao mesmo tempo, ensejou o
aparecimento e a expansão, no país, de uma importante indústria
eletroeletrônica, capaz de atender tanto à demanda governamental (Telebrás e
Embratel) quanto à dos usuários finais de sistemas e equipamentos de
telecomunicações e de radiodifusão. O Brasil tornou-se um mercado interessante
para fornecedores transnacionais, alguns dos quais transplantaram para cá
unidades de montagem de equipamentos profissionais e de aparelhos domésticos. Se
nos países centrais, desde sempre, os mercados nacionais eram cativos de
empresas nacionais, aqui o mercado veio a ser cativo de fornecedores
estrangeiros, acabando nas mãos de um cartel formado pela Ericsson (sueca),
Siemens (alemã) e Standard Elétrica (subsidiária da ITT). Entre o Estado
comprador e as filiais fornecedoras articulou-se uma sólida aliança que se
infiltrou e se espalhou pelos mais importantes gabinetes do Ministério das
Comunicações (Minicom), da Telebrás e da Embratel. Constituiu-se um típico
anel burocrático, como conceituado por Cardoso:
(liames)
organizados ao redor de altos funcionários (ministros, generais etc.) (que)
articulam interesses momentâneos de empresas, repartições públicas, imprensa, às
vezes sindicatos, grupos repressivos etc., em torno de alguma política
específica, alguma questão ou algum objetivo político. (Cardoso, 1977:219)
Nas comunicações, a
peça-chave do anel era o engenheiro Rômulo Villar Furtado, que foi
secretário-geral do Ministério das Comunicações durante vinte anos, desde o
governo Médici até 1990, quando encerrou-se o governo Sarney – um mandato cuja
duração, ultrapassando até mesmo o fim do ciclo militar, dá bem a medida do seu
poder. Um poder tão forte que pôs a perder a estratégia introduzida pelo
presidente Geisel para dotar o Brasil de um modelo industrial e tecnológico que
de fato se assemelhasse às autarquias industrial-tecnológicas existentes nos
Estados Unidos, Japão, França, Alemanha etc.1
Fixada pelas resoluções ministeriais de número 661 (de agosto de 1975) e 622 (de
junho de 1978), essa estratégia pretendia induzir a indústria fornecedora a
apoiar-se, cada vez mais, em tecnologias desenvolvidas no Brasil, por um centro
de pesquisas criado justamente para isso: o Centro de Pesquisas Padre Landell de
Moura, ou simplesmente CPqD, localizado em Campinas (SP).
Do ponto de vista
tecnológico, o CPqD foi um êxito. Em seus quase vinte anos de existência e
empregando cerca de mil profissionais de formação superior, o Centro desenvolveu
76 produtos novos, destacando-se o primeiro telefone brasileiro, um sistema de
telefonia pública mundialmente inédito (operado por cartão indutivo), tecnologia
de produção de fibra ótica inteiramente nacional e centrais digitais de
comutação de tipo CPA-T, competitivas em preço e qualidade com as fabricadas
pelos tradicionais fornecedores estrangeiros. Suas pesquisas conduziram a 246
pedidos de patentes no Brasil e 11 em 22 outros países. Até 1996, 68 patentes já
haviam sido concedidas no Brasil e três em oito países. O CPqD também firmou 142
acordos de transferência de tecnologia com empresas brasileiras e 29 contratos,
com 19 empresas, para exploração de suas patentes (Interativa, 1996),
tornando-se um lócus efetivo de geração de valor-informação no Brasil.
Do ponto de vista
industrial, a estratégia não avançou tanto assim. Percebendo que, como estava
acontecendo nos países centrais, num futuro relativamente próximo toda a base de
comutação do sistema brasileiro (analógica) seria substituída por uma nova
(digital), o seu ponto nodal consistia em projetar centrais de comutação digital
no CPqD para adotá-las nas futuras encomendas da Telebrás. Ou seja, este
previsível mercado ficava antecipadamente reservado para as empresas que viessem
a industrializar as centrais do CPqD, batizadas “Trópico”. Logo, quando viesse a
iniciar a digitalização da sua rede, a Telebrás não seria mais um mercado
reservado para as centrais digitais que a Ericsson, Siemens, NEC e outras
corporações estavam projetando e desenvolvendo em seus países de origem. Aliás,
para garantir a futura evolução dos produtos derivados do CPqD e a própria
continuidade das pesquisas, as portarias 661 e 622 previam transferir para
empresas efetivamente nacionais as tecnologias geradas no Centro.
Este programa,
conforme seria previsível, viria a sofrer toda sorte de boicotes, esbarrando nas
relações de dependência do capitalismo brasileiro e nas próprias limitações
políticas do governo Geisel – um governo autoritário, apoiado numa elite
industrial e financeira subinformada, pouco interessada num genuíno projeto de
desenvolvimento autônomo.2 Não
foi difícil para as montadoras multinacionais, aliadas a capitalistas
brasileiros e articuladas pela burocracia do Ministério das Comunicações,
encenar verdadeiras farsas, tornando-se formalmente “empresas nacionais”.3
Ericsson, Siemens e ITT associaram-se, respectivamente, aos grupos Hering,
Monteiro Aranha e Pereira Lopes. Além de não terem qualquer tradição industrial
nas telecomunicações e não demonstrarem condições de absorver ou desenvolver
tecnologias, estes sócios nacionais possuíam, de fato, 17% a 30% do capital
local daquelas corporações, o suficiente apenas para se apresentarem como
“donos” de 51% do capital votante mas não para exercer efetivamente poder sobre
as decisões estratégicas.
Passado o governo
Geisel, a aliança burocrático-empresarial que controlava o Minicom rapidamente
reafirmou a reserva do mercado brasileiro para as tecnologias e produtos
estrangeiros do cartel Ericsson/ Siemens/ NEC, mais facilmente agora que ele se
apresentava “nacionalizado”.4 Em
1981, pela portaria 215, o Minicom reduziu para 50% das futuras compras da
Telebrás a reserva de mercado para as CPAs que o CPqD desenvolvia. Em 1985, no
governo Sarney e ainda sem estar pronto o produto do CPqD, começam as encomendas
ao cartel. A Telebrás pagou US$ 800 por linha, em dezembro de 1987; US$ 950, em
dezembro de 1988; US$ 1.100, em dezembro de 1989.5 As
“Trópico RA” entraram pela primeira vez na disputa, oferecidas por quatro
empresas genuinamente nacionais, em 1990. Preço médio: US$ 400 por linha.
Derrotado em sucessivas concorrências, o cartel transnacional começou a baixar
os seus preços, até chegar a US$ 330, em dezembro de 1991 (Vianna, 1993; AFCPqD,
1992). Com a ascensão de Collor, toda essa política foi definitivamente
desmontada, as empresas nacionais absorvidas pelas transnacionais (junto com a
tecnologia “Trópico”) e o CPqD – a única instituição do gênero fora do eixo
Estados Unidos-Europa-Japão – foi reorientado para tornar-se um mero centro de
estudos e análises.6
Notas:
(1) – Ainda falta um
estudo amplo que reconheça e explique a especificidade do governo Geisel no
conjunto dos governos militares, sobretudo no que toca às suas políticas
industriais e tecnológicas. Com efeito, suas iniciativas no setor das
telecomunicações correspondem a outras, às vezes mais incisivas, nos setores
energético, petroquímico etc., bem como a programas de fortalecimento da base
científica do Brasil, consubstanciados no II PADCT. Um dos raros trabalhos que
avança corretamente uma discussão sobre a particularidade do período Geisel é o
de Castro e Souza (1985). Esses autores reconhecem que, diante da crise do
petróleo, Geisel “negou-se a delegar ao mercado a condução das decisões
econômicas” (p.42), adotando um plano no qual há “manifesta vontade política e
um grande desencontro com os “interesses” (p.45) – isto é, com as forças
econômicas e políticas que davam sustentação estratégica ao regime. Com efeito,
datam daí as primeiras fortes manifestações, via imprensa, contrárias à
“intervenção do Estado na economia”, como Castro e Souza registram e qualquer
contemporâneo de boa memória pode lembrar. Os autores, reconhecendo e
descrevendo o abandono nos anos seguintes das políticas implementadas entre 1974
e 1979, inclusive pelos governos civis (o que só reforça a natureza particular
daquelas políticas), não aprofundam uma análise histórica maior que possa
explicar a ascensão e queda do projeto Geisel, dentro das forças contraditórias
que integravam o regime militar. A falta dessas análises faz com que as
esquerdas geralmente identifiquem os sucessos da época com um projeto militar
contínuo e uniforme, ao qual chegam a atribuir um conteúdo “nacionalista”. Nada
mais falso. A ditadura, no geral, foi entreguista – como sempre foram
“entreguistas”, no Brasil, os conservadores e a direita. Geisel foi o único dos
governantes militares que, embora evitando rupturas mais dramáticas (a exemplo
do que fez o general Alvarado, no Peru), chegou a implementar um programa
tendencialmente “nacionalista” cujas consequências se prolongaram ao longo do
governo Figueiredo, malgré lui, e sobreviveram, aos trancos e barrancos,
até a ascensão à Presidência do aventureiro Fernando Collor. Os restos mortais
desse programa foram incinerados e lançados ao vento pelo “socialdemocrata”
Fernando Henrique Cardoso, cujas forças básicas de sustentação eram as mesmas
que suportaram, enquanto lhes interessou, a ditadura militar: o grande capital
transnacional e seus sócios locais, os meios de comunicação, a classe média
consumista e a oligarquia rural atrasada, com seus currais eleitorais.
(2) – Como
reconhecem Castro e Souza (1985: 45,47), “o que há de condenável no período em
foco não decorre das diretrizes econômicas estabelecidas em 1974, e sim do
regime político vigente. É claro, no entanto, que as taras do regime
contaminaram, em maior ou menor medida, tudo o que ocorreu no período. No que se
refere ao plano propriamente dito, o II PND (nome do programa econômico do
governo Geisel) cumpriu toda a sua conturbada trajetória como um produto de
gabinete, incapaz de obter o apoio (e muito menos a mobilização) de uma
sociedade que não participou de sua elaboração e não tinha como controlar a sua
execução. Esta falta de respaldo político e participação social deve ter custado
muito”. Este custo revelou-se, afinal, nas reformas constitucionais de
1995-1996.
(3) – A estratégia
industrializante dos governos militares foi definida como “tríplice aliança”
(Evans, 1980): uma articulação entre o Estado, capitais nacionais e
multinacionais para promover a acumulação capitalista no país, constituindo
blocos de capital que se mostrassem, por um lado, internacionalmente integrados
e tecnologicamente atualizados (daí a presença das multinacionais) e, por outro,
dotados de razoável autonomia nas suas decisões estratégicas (daí a presença do
Estado e de capitalistas nacionais). Evans estudou-a em segmentos industriais
tradicionais, como o petroquímico e o minerometalúrgico, nos quais o
fornecimento da tecnologia e, mesmo, de boa parte dos equipamentos de produção
era deixado a cargo do capital estrangeiro. A força do “paradigma da tríplice
aliança” levou os formuladores do governo Geisel a tentarem estendê-lo às
indústrias de informática e telecomunicações, aceitando a criação de
joint-ventures que estariam supostamente sob o comando de capitais nacionais.
Porém, como a questão do controle deslizou para o suprimento local da própria
tecnologia e para a capacidade efetiva de fabricação, o modelo nestes
setores, descobrir-se-ia mais tarde, não funcionou.
(4) – Para Rômulo
Furtado, conforme escreveu num “aviso” enviado ao ministro da Fazenda Ernane
Galvêa em 11 de agosto de 1983, “a política do setor de telecomunicações
permitiu que se transferissem, sem qualquer trauma (sic), para o efetivo
controle de grandes empresários brasileiros empresas de grande porte, que são as
maiores fornecedoras do Setor”. Uma das mais grotescas dessas “nacionalizações”
foi a da NEC, em cujas articulações Furtado teve aberta participação, conforme
está documentado inclusive no noticiário jornalístico da época. A NEC ampliou
seus negócios em nosso país aproveitando-se da decadência mundial da ITT, em uma
rocambolesca operação pela qual ela, NEC, teria doado dinheiro para que o
testa-de-ferro Mário Garnero pudesse comprar sua pequena filial no Brasil e
ainda assumir o controle acionário da Standard Elétrica. O fato foi fartamente
noticiado, não sem ares de espanto, tanto na imprensa nacional quanto na
internacional (RNT, outubro de 1981; Businessweek, 2/11/1981; Gazeta
Mercantil, 29/9/1981). Posteriormente, a NEC descartaria Garnero para
associar-se com o Grupo Roberto Marinho, consolidando a sua posição no mercado
brasileiro.
(5) – No linguajar
técnico, o custo de uma central costuma ser dado num valor unitário, na forma de
custo ou preço por linha telefônica que possa suportar. Se este preço é US$
1.000, e a capacidade da central for de 36 mil linhas, significa que o
equipamento todo custou US$ 36 milhões.
(6) – Em depoimento
dado à “CPI do Atraso Tecnológico”, o então superintendente do CPqD no governo
Collor, Leôncio Resende Neto, declarou que as novas funções da instituição, a
partir da política geral de “inserção competitiva”, visariam a “resultados, como
especificações, assessoramento no crescimento da rede, topologia de redes,
arquitetura de sistemas etc.”. Em consequência, confessou, “de cerca de 67
projetos em andamento, decidimos encerrar cerca de 40”. A CPI concluiu que o
CPqD “quer deixar de ser um órgão de pesquisa e desenvolvimento, para ser apenas
um órgão de assessoramento ao STB (Sistema Telebrás)”, transformando-se numa
“consultoria de luxo, face à sua alta qualificação” (apud AFCPqD, 1992:4).
* É doutor em
Engenharia de Produção, professor da PUC e estudioso da área de telecomuicações.
|