|
A retomada da
indústria da defesa - 1
A produção do material de
defesa aproxima a
sociedade civil e as
organizações governamentais,
principalmente militares,
nela envolvidas
OTHON LUIZ PINHEIRO DA SILVA *
Até as duas primeiras décadas do século passado
a estrutura produtiva do Brasil era primordialmente agrária; importávamos
praticamente todos os produtos industriais de que necessitávamos, até mesmo
vasos sanitários.
O crescimento demográfico urbano e a visão de um
segmento da elite pensante brasileira, onde estava presente boa parte da
oficialidade militar, deu inicio a um movimento posteriormente denominado
”tenentismo”. Este movimento muito contribuiu para a quebra da estrutura
vigente, que se satisfazia e privilegiava o “pacto colonial”. Naquela época
exportávamos somente produtos agrícolas e minérios enquanto importávamos
todos os produtos que necessitávamos com valor agregado.
Muito embora a “coluna vertebral” das grandes
transformações tecnológicas que o Brasil experimentou no século vinte tenha
sido as forças armadas e estas tenham investido bastante na formação de seus
quadros, o país continua a viver o que podemos rotular de “paradoxo
econômico-tecnológico-militar”, pois continuamos a importar determinados
tipos de pólvora, equipamentos de proteção individual para nossos soldados e
policiais, havendo inclusive casos de importação de ração para nossos
soldados.
Temos deixado de utilizar a enorme capacidade de
gerar tecnologia e negócios que a produção do material de defesa pode
ensejar, deixando de usar a grande capacidade de aproximação entre a
sociedade civil e as organizações governamentais (principalmente militares)
que a produção de material de defesa naturalmente propicia.
A lógica indica que devemos iniciar o esforço de
nacionalização com o desenvolvimento e a produção de materiais de grande
demanda e uso pelas forças armadas e polícias, tais como, coletes à prova de
balas, equipamentos de proteção individual, tecidos antiinflamáveis
confortáveis para uniformes de combate. Devemos ainda estabelecer um padrão
nacional de armamento portátil diferente em detalhes dos outros países e
equivalente aos mais modernos existentes. Os uniformes e equipamentos de
proteção individual e os armamentos adequados às operações na Amazônia devem
ter prioridade, inclusive os de utilização noturna.
A capacidade militar de defesa implica na
capacidade de inibir sobrevôo não autorizado em território nacional, na
capacidade de inibir a concentração de forças que possam vir a constituir
ameaças, da mobilidade e qualidade das Forças Terrestres lideradas pelo
Exercito Nacional e da capacidade de detectar ameaças.
Os mísseis de pequeno e médio alcance, são os
mais eficientes inibidores do sobrevôo tranqüilo sobre o território
nacional, podem ser o grande desafio inicial dos sistemas de pesquisa e
desenvolvimento de defesa.
Os mísseis de médio alcance terra-terra são
inibidores de concentração de forças. O seu desenvolvimento, prevendo o
transporte em “containeres” padrões utilizados nos transportes civis, podem
assegurar grande mobilidade e discrição.
Os mísseis de médio alcance sub-superfície que
trafegam em pequena altura sobre o nível do mar podem, com pequena
adaptação, ser utilizados pelo nosso sistema de defesa costeira. Os
submarinos de propulsão nuclear, que possam servir como plataforma para
esses mísseis, devem ser considerados elementos essenciais do sistema de
defesa e a única forma de bloquear a adução de recursos a um país que,
eventualmente venha a optar por “guerra por procuração” contra o Brasil.
Um país de dimensões continentais como o Brasil
não pode prescindir de uma rede de satélites de observação e da capacidade
de recompor esta rede quando necessário.
Não é do escopo deste trabalho enumerar todos os
programas de pesquisa e desenvolvimento necessários. Todavia, é importante
ressaltar que a integração dos sistemas de pesquisa e desenvolvimento das
três forças singulares ensejará a criação da maior instituição do gênero no
hemisfério sul e que a adoção de uma política de obtenção adequada muito
contribuirá para a criação de uma base política nacional de apoio às
atividades de defesa.
(*) Vice-Almirante (EN-RRM)
|