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A lenda do Estado inchado
Cândido Vacarezza*
Uma das recorrentes acusações
da oposição contra o governo Lula refere-se ao suposto aparelhamento e
inchamento do Estado. A distorção é motivada pela guerra política, em que a
verdade é a primeira vítima. O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada) acaba de publicar pesquisa comparativa sobre as dimensões das
máquinas públicas de diferentes países. Os resultados desmentem a lenda de
que o Estado nacional tem excesso de pessoal.
O governo entende como
essencial o resgate do papel do Estado na promoção do desenvolvimento social
e econômico do país. A prática faz ainda mais sentido agora, com o
ressurgimento do neokeynesianismo. A defesa do Estado mínimo soa totalmente
antiquada, sobretudo depois das decisões tomadas na reunião do G20.
O dados do Ipea desmontam as
teses de quem defende o desmonte do Estado brasileiro.
No trabalho “Emprego Público
no Brasil: Comparação Internacional e Evolução Recente”, do Ipea, usou-se
metodologia em que se define o conceito de emprego público na sua forma mais
ampla, consagrada pelas publicações da OCDE. Isto é, no estoque do emprego
público, incluem-se não apenas os trabalhadores da administração direta em
todas as esferas de governo, mas também as ocupações da administração
indireta e os empregados de empresas estatais.
Por esse critério, em 2005, o
total da mão de obra empregada no serviço público era 39,2% na Dinamarca,
30,9% na Suécia, 24,9% na França, 14,8% nos EUA, 14,7% na Alemanha e apenas
10,7% no Brasil. Nossa máquina pode padecer de outros males, mas não está
inchada em comparação com esses países ricos. Tampouco em relação aos nossos
vizinhos da América Latina podemos ser considerados um Estado inchado:
estamos atrás de países como Costa Rica, Venezuela, Uruguai, Argentina e
Paraguai.
O governo FHC levou à demissão
milhares de funcionários de estatais, principalmente por meio da
privatização, e não recuperou vagas. Em seus oito anos de governo, por
exemplo, as escolas técnicas federais foram reduzidas e levadas ao
sucateamento.
O governo Lula as resgatou, a
educação passou a ser prioridade. Até 2002, o Brasil tinha 140 escolas
técnicas, instaladas ao longo de 93 anos. Desde a posse de Lula, foram
implantadas 75 novas escolas técnicas e, até o fim de 2010, terão saltado
para 354 unidades, expansão de 150%. Ninguém pode discordar de que é preciso
contratar professores e funcionários.
O Brasil contava, em agosto de
2008, com 1.007.226 servidores ativos civis e militares da União, pelo
critério da OCDE. Quando contabilizados apenas os servidores civis do Poder
Executivo federal na ativa, chegava-se a 533.434 servidores. É verdade que a
curva de redução de servidores federais ativos, iniciada em 1990, foi
interrompida em 2003. Mas o quantitativo de 2008 é semelhante ao total de
servidores civis do Poder Executivo federal ativos em 1997 (531.725) e
consideravelmente inferior aos 705.548 ativos de 1988.
Os gastos com pessoal ativo e
inativo da União de 1995 a 2008 (dados referentes apenas ao orçamento fiscal
e da seguridade social, ou seja, excluídas as despesas das estatais
federais) mostram que as variações foram pequenas e as despesas estão em
queda.
Com efeito, a União gastava,
em 1995, 5,34% do PIB. Em 2002, esse gasto representou 5,08% do PIB e, no
ano passado, 4,66% do PIB. Há uma tendência declinante, ainda mais
significativa ao considerar que o governo Lula restabeleceu a prática da
realização de concursos públicos, com substituição de terceirizados por
servidores efetivos, a fim de dar eficiência ao serviço público e
transparência aos métodos de contratação.
O quadro positivo não
demonstra, porém, inexistirem problemas no serviço público. Pelo contrário.
Muito tem que ser feito em matéria de aumento da eficiência dos serviços
prestados e de aumento da sua oferta. Em setores vitais como saúde, educação
e segurança novas contratações precisam ser feitas com urgência.
É necessário ressaltar que o
esgotamento do modelo neoliberal em todo o mundo impõe uma maior presença do
Estado na economia, desde que sejam evitadas as práticas do patrimonialismo
e da privatização do Estado, como ocorreu no governo do PSDB e PFL (atual
DEM). No período FHC, a máquina pública era extensão dos interesses
privados, tanto de membros do governo como de seus apoiadores.
O Brasil conseguiu sobreviver,
pelo menos em parte, à ofensiva da era Thatcher-Reagan. A sociedade reagiu e
evitou que o neoliberalismo nos levasse ao desastre completo. Por isso, o
país tem hoje instrumentos para enfrentar a crise internacional. O desafio
foi dar um salto do período em que o Estado mínimo era a ideologia dominante
para outro modelo, em que se busca recuperar a estrutura, com mais
eficiência à máquina pública.
*Líder da bancada do PT na
Câmara Federal. Texto publicado originalmente pela Fundação Perseu Abramo. |