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O ataque à
Telebrás e a destruição da indústria de telecomunicações do país
O trecho que
hoje publicamos de “A Lógica do Capital-informação”, de Marcos Dantas (Ed.
Contraponto, 2ª edição, 2002, págs. 62-66), descreve como, a partir da segunda
metade da década de 80, e particularmente durante o governo Fernando Henrique
Cardoso, o Brasil, que obtivera um espetacular êxito tecnológico e comercial na
área das telecomunicações, teve a sua indústria do setor destruída.
O autor relata,
por exemplo, que, com o desenvolvimento das centrais Trópico, do telefone
público a cartão indutivo, da fabricação de fibras óticas e outros produtos de
tecnologia nacional, o déficit comercial na área de telecomunicações caiu de US$
770 milhões em 1975 para US$ 67 milhões em 1986. Com a devastação de um dos
setores mais decisivos, senão o mais decisivo, da indústria contemporânea, esse
déficit aumentou dos US$ 67 milhões de 1986 para US$ 2 bilhões e 300 milhões em
1998.
Especialmente
importante é a observação do autor de que uma “substituição de importações”
baseada em filiais de multinacionais somente serviria para transformar a
indústria de telecomunicações em algo parecido ao lastimável quadro que hoje
temos na indústria automobilística.
MARCOS DANTAS*
Nada mais previsível, entre tantos outros resultados negativos
previsíveis, do que a destruição da indústria e da tecnologia brasileiras em
seguida ao esquartejamento e privatização da Telebrás.
Tudo dentro do script. Como
o modelo de privatização não levou em conta qualquer política industrial, até
porque o setor desde a virada da década não contava com política industrial,
beneficiando-se apenas do modelo definido na política de informática,1 era
previsível que o espaço dos fornecedores nacionais começasse a encolher.2
Em meados de 1999, dois marcos da
indústria brasileira foram desnacionalizados: a Batik e a Zetax, adquiridas pela
norte-americana Lucent que, a partir das instalações industriais dessas duas
empresas e de uma base instalada de 4 mil centrais com tecnologia Trópico,
tornar-se-ia um dos principais fornecedores da Telemar.3 No
início de 2000, a Xtal, empresa que fabricava fibras óticas com tecnologia
genuinamente brasileira, tecnologia absorvida do CPqD, foi vendida para um grupo
concorrente dos Estados Unidos.
A Trópico S.A., uma associação
entre Promon e o CPqD, criada para dar sobrevida às centrais de comutação
Trópico, conseguiu contratar, em 1998, após “muita pressão política”,4 o
fornecimento de um conjunto de centrais que, no total, suportariam cerca de 500
mil linhas, justo quando o número de linhas a ser instaladas, recorde-se, iria
saltar de 28 milhões para 48 milhões... Não surpreende que, em um tempo muito
curto, a fatia de mercado ocupada pela tecnologia Trópico caísse de 32% para
algo em torno de 10%.
Desenvolvendo algum software
– com chances, no máximo, insignificantes de ser aceito pelas operadoras
estrangeiras no Brasil ou de penetrar no exterior -, o CPqD, por seu lado, e a
Trópico S.A., por outro, tentam sobreviver marginalmente em um cenário
completamente dominado por grandes fornecedores globais.5 É
junto a esses fornecedores que as operadoras instaladas no Brasil adquirem a
maior parte dos seus equipamentos e serviços, não raro via importações. A
consequência é o aumento, verdadeiramente extraordinário, do déficit comercial
do setor nos últimos anos.
Na verdade, abandonou-se qualquer
política industrial e de desenvolvimento tecnológico desde a segunda metade da
década de 1980. Na implantação e evolução da sua rede celular, a Telebrás não
cuidou – como cuidara nos anos 1970, quando da expansão da telefonia fixa (do
que resultou a tecnologia Trópico) – de atribuir ao CPqD alguns projetos
estratégicos de desenvolvimento tecnológico que resultassem em produtos
brasileiros capazes de substituir os estrangeiros. Pelo contrário, comprou tudo
de fornecedores internacionais, importando, ou deixando montadores locais
importar, boa parte das estações, sistemas e até componentes para os aparelhos
terminais.6 Antes mesmo da
privatização e do governo Cardoso, já estava em curso um programa generalizado
de desmontagem do CPqD e da indústria levantada à sua volta.
O êxito da política
industrial-tecnológica baseada no CPqD e no poder de compra da Telebrás,
praticada até a primeira metade dos anos 1980, é demonstrado não apenas pela
quantidade de produtos tecnologicamente brasileiros então gerados, fabricados e
comercializados (centrais Trópico, telefone público a cartão indutivo,
fabricação de fibra ótica etc.), como pela redução constante e consistente do
déficit comercial, entre 1975 e 1986. Ao abandono dessa política, a partir do
governo José Sarney, seguiu-se um crescimento constante e consistente do déficit
setorial. Em dólares deflacionados, o Brasil importava cerca de US$ 770 milhões
em 1975, valor igual ao do déficit total, já que não tínhamos nenhuma indústria
aqui instalada, logo nenhum produto ou serviço para exportar. Em 1986, o déficit
comercial caíra para meros US$ 67 milhões (em moeda constante) e as exportações
já correspondiam a quase metade das importações. Então, a política foi
abandonada. Em 1992, o déficit, sempre em dólares deflacionados, voltara quase
aos mesmos níveis de 1977 e, desde então, explodiu.
Embora o desenvolvimento
industrial-tecnológico conste como um dos objetivos da Política de
Telecomunicações, nos termos da Lei Geral de Telecomunicações, é fato que esta
nunca foi uma preocupação do governo Cardoso. O discurso e os instrumentos
constantes na lei resultaram tão-somente de pressões de alguns segmentos
empresariais e da absoluta impossibilidade política de o governo afirmar, de
modo explícito, não ter compromisso maior com a pesquisa e a tecnologia. Aliás,
sequer constava do projeto de lei inicial algum dispositivo criando o Fundo de
Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (FDIT), bem como era vago e
pouco comprometido o enunciado referente à defesa e evolução da capacitação
tecnológica-industrial já alcançada pelo país.7
Não podendo, pura e simplesmente,
mandar fechar o CPqD - que, aliás, já vinha sendo esvaziado em suas atividades
de pesquisa desde o governo Collor, se não antes -, o governo adotou uma solução
tão esdrúxula quanto todas as demais que compõem o modelo vigente: transformou o
CPqD em uma fundação de direito privado, cabendo-lhe, agora, buscar por seus
próprios meios o seu lugar no mercado, tentando sobreviver. Mais uma vez, o
Brasil “inovou”. Em nenhum país líder nas telecomunicações um centro de pesquisa
estratégico subsiste desconectado de uma operação dominante ou de uma grande
empresa fornecedora multinacional. Assim funcionam o CNET francês, o NTT
Research japonês, o TI+D espanhol, o Bell Labs da At&T etc. O êxito do centro de
pesquisas industrial reside na sua íntima relação com alguma empresa, operadora
ou industrial, que investe nas suas tecnologias e as utiliza em seguida. Não
contando com uma tal parceria estratégica, o CPqD pode até, aqui e ali,
desenvolver e negociar alguma solução tecnológica, sobretudo em software,
mas muito dificilmente conquistará fatia sequer visível de um mercado que
despende alguns bilhões de dólares na compra de equipamentos e serviços
importados.
No cenário atual, as condições
necessárias para recuperar a indústria e a tecnologia nacionais limitam-se aos
incentivos fiscais previstos na Lei de Informática, abarcando todo o complexo
eletrônico; aos recursos do FDTT, cuja aplicação ainda carece, em meados de
2002, de maior definição político-estratégica; e à cláusula 15.8 dos
contratos-padrão de concessão, cuja regulamentação, no entanto, foi torpedeada
pelas operadoras,8 pois as
obrigaria, nas suas compras, a dar preferência ao fornecedor brasileiro, quando
houvesse igualdade de condições.
Sem maior poder de barganha, exceto o tamanho do déficit
comercial que obriga qualquer governo responsável a tomar as medidas adequadas,
os formuladores econômicos voltaram subitamente a falar de “substituição de
importações”, expressão que parecia banida do vocabulário político-econômico:9 produzir,
dentro do país, a maioria dos componentes e partes necessários ao fornecimento
de um equipamento qualquer. Incentivos de IPI, créditos baratos do BNDES e,
talvez, algum recurso do FDTT seriam concedidos para empresas multinacionais
instalarem unidades de montagem no Brasil, nas quais completariam a produção dos
bens que fornecem às operadoras. Há 50 anos, com esta mesma estratégia, o Brasil
deixou-se iludir com a ideia de que viria a ter uma poderosa indústria
automobilística. Há 50 anos, o Japão e, 20 anos depois, a Coréia decidiram
dotar-se de uma autêntica indústria automobilística autóctone. Basta comparar a
indústria automobilística “brasileira” com a japonesa ou a coreana e conferir os
resultados...
Notas:
(1) – Referência à Lei 8.248, de 23/11/1991, que substituiu
a lei anterior, da reserva de mercado. Por esta nova lei, ainda em vigor, as
empresas são estimuladas a desenvolver produtos tecnologicamente brasileiros,
por meio de isenção do IPI e outros incentivos fiscais.
(2) – “As primeiras baixas na indústria nacional”,
Telecom, set. 1999, p. 28.
(3) – Ibid.
(4) – Ibid.
(5) – O CPqD conseguiu colocar em operação, nos Estados
Unidos, um exemplar do seu software CRM de nome “FlexFlow”. No Brasil,
vendeu à Telefônica e para algumas empresas de telefonia celular o SGE,
software de gerência de força de trabalho. A Trópico S.A. comemorava, em
junho de 2000, a primeira venda, no valor de US$ 7 milhões, de centrais de
comutação para uma pequena empresa transportadora estadunidense, apostando que
seu mercado se situa nesse perfil de empresa (Telecom, jun. 2000).
(6) – “A implantação da telefonia celular de banda A no
Brasil, do ponto de vista dos equipamentos, foi majoritariamente, se não
integralmente, suprida pela importação. Com a iminente implantação da telefonia
celular de banda B, as expectativas eram de que o mesmo fato se repetisse, até
porque nenhuma nova fábrica de estação radiobase (ERBs) havia sido instalada no
País, naquele intervalo de tempo” (P.R. Souza Melo e R.M.V. Gutierrez,
“Telecomunicações pós-privatização: perspectivas industriais e tecnológicas”,
BNDES Setorial, set. 1998, p.90).
(7) – Artigo 187 do projeto: “A reestruturação e
desestatização devem prever mecanismos que assegurem a preservação da
capacitação em pesquisa e desenvolvimento tecnológico existente na empresa
(Telebrás)”.
(8) – David Friendland e Célia G. Franco, “Projeto da
Anatel irrita os estrangeiros”, Folha de S. Paulo, 13/6/1999.
(9) – Ver as propostas de política industrial de todos os
quatro principais candidatos à Presidência da República, neste pleito de 2002.
* É doutor em Engenharia de Produção, professor da PUC e
estudioso da área de telecomuicações. |