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Das dificuldades de Obama (2)
O falecido senador norte-americano William Fullbright,
durante mais de 30 anos um dos melhores parlamentares dos EUA, disse uma vez que
“criamos uma sociedade cuja principal ocupação é a violência. A maior ameaça
para o nosso país não é uma qualquer força exterior, mas o nosso próprio
militarismo. Temos a amarga impressão de que nós, os americanos, estamos
habituados à guerra. Já há muitos anos que, ou bem estamos em guerra ou então
prestes a desencadear uma, não importa em que região do mundo. A guerra e o
militarismo tornaram-se uma parte inseparável do nosso quotidiano, e a violência
o produto principal da nossa economia” (V. seu livro “The Arrogance of Power”).
Realmente, a
história dos EUA são uma série tão grande de atropelos e agressões a outros
países, promovidos por uma casta dominante que já era imperialista antes do
surgimento dos monopólios capitalistas (v. nossa edição anterior), que às vezes
demanda um esforço que não é pequeno perceber em que aspectos do passado o povo
norte-americano pode se basear para construir uma nação irmã - e não algoz - das
outras nações e justa para com seus próprios cidadãos.
No entanto, esses
aspectos, de que o povo norte-americano pode se orgulhar, existem. Por exemplo,
em relação a seus presidentes, é verdade que os norte-americanos tiveram na Casa
Branca uma quantidade incomum de fariseus (Quincy Adams, Herbert Hoover),
trogloditas (James Polk, Theodore Roosevelt) e/ou meras mediocridades (citar um
exemplo aqui seria cometer alguma injustiça). Também existiram alguns
presidentes que quase poderiam ter sido extraordinários (Woodrow Wilson, John
Kennedy), não fossem limitações pessoais ou porque não os deixaram ser.
Mas os
norte-americanos, apesar disso, tiveram dois grandes presidentes - Abraham
Lincoln e Franklin Delano Roosevelt.
A esse propósito, é
muito positivo que o atual presidente, Barack Hussein Obama, tenha tomado esses
dois, justamente os maiores de seus antecessores, como modelo. Mas, para isso, é
necessário ser coerente com o que de melhor existe na história dos EUA. Não se
podem misturar alhos democráticos com bugalhos imperialistas - sob pena de
renunciar à herança dos primeiros.
Por exemplo, em seu
discurso de posse, Barack homenageou os que “por nós, combateram e morreram, em
lugares como Concord e Gettysburg, Normandia e Khe Sanh”.
Tudo bem em relação
a Concord, Gettysburg e a Normandia. O problema é: o que está Khe Sanh fazendo
nessa lista?
Concord, no Estado
de Massachusetts, foi, em 19 de abril de 1775, o lugar da primeira batalha da
guerra de independência contra o domínio inglês. Nessa cidade foi organizada a
guerrilha dos “minutemen”, que, apesar da desigualdade de forças, fez o exército
britânico recuar para Boston, logo em seguida sitiada, na primeira fase da
Revolução Americana.
Em Gettysburg, na
Pennsylvania, foi travada, durante os três primeiros dias de julho de 1863, a
batalha mais gloriosa da história dos EUA e a mais sangrenta da Guerra Civil.
Nela, o Exército do Potomac, depois de uma série de derrotas para os
escravagistas confederados, com um histórico de generais vacilantes e/ou
incompetentes, e com um comandante nomeado, por decisão pessoal de Lincoln,
apenas três dias antes - George Meade, o melhor caráter entre todos os generais
dessa guerra - barrou a invasão do Norte por parte do general sulista Robert
Lee. A batalha de Gettysburg foi a virada na guerra civil, onde até então o
exército sulista estava em ofensiva - com a capital do país, Washington,
localizada dentro do estado sulista da Virgínia, em perigo. Depois de Gettysburg,
nunca mais os sulistas conseguiram sair da defensiva - o que, após a nomeação de
Grant, que estabeleceu seu comando geral junto às tropas de Meade, possibilitou,
dois anos depois, a vitória da União e o fim do escravismo nos EUA.
Gettysburg é também
conhecida pelo discurso de Lincoln, o mais notável (e mais ignorado) discurso da
história dos EUA, proferido na homenagem aos mortos da batalha, em novembro de
1863. Numa cerimônia para a qual não havia sido convidado - foi promovida pelo
governador do Estado - e na qual teve de aguentar mais de duas horas de arenga
por parte do orador oficial, um acadêmico contratado pelo governo da
Pennsylvania, o presidente Lincoln, em menos de dois minutos, definiu a Guerra
Civil como o ponto de partida para uma democracia verdadeira nos EUA: “Somos,
antes, nós, os vivos, que devemos consagrar-nos à tarefa inacabada que aqueles
que aqui lutaram fizeram avançar tanto e tão nobremente. Somos, antes, nós, os
que devemos consagrar-nos aqui à grande tarefa que ainda permanece diante de
nós: que, destes mortos aos quais honramos, tomemos e aumentemos nossa devoção à
causa pela qual eles deram até a última medida plena de devoção; que resolvamos
aqui, firmemente, que estes mortos não morreram em vão; que esta nação, sob
Deus, terá um novo nascimento da liberdade; e que o governo do povo, pelo povo,
para o povo, não sucumbirá nesta terra”.
A Normandia,
naturalmente, é a parte da França onde os norte-americanos e os ingleses
desembarcaram em 1944, para abrir, finalmente, a segunda frente contra os
nazistas. Até então a luta contra Hitler havia sido sustentada, à custa de
milhões de mortos, pelo Exército Vermelho - apesar dos vários apelos soviéticos,
em especial de Stalin, pela abertura da segunda frente na Europa. É justo
observar que o dirigente ocidental mais sensível aos apelos soviéticos foi o
presidente dos EUA, Franklin Delano Roosevelt, que, entre ingleses e americanos,
realizou o principal empenho para o desembarque e pela abertura da segunda
frente.
Nada disso - nem
Concord, nem Gettysburg, nem a Normandia - têm algo a ver com Khe Sanh e a
agressão ao Vietnã, onde os invasores norte-americanos mataram, segundo seus
próprios números (as estatísticas vietnamitas são maiores), 1 milhão e 400 mil
vietnamitas, mutilaram 1 milhão e 800 mil - sem contar as vítimas de anomalias
genéticas devidas ao “agente laranja”, e outras barbaridades -, apesar de, nem
por isso, conseguirem submeter um povo que havia decidido ser livre.
Khe Sanh foi, além
disso, uma derrota humilhante dos imperialistas, onde o general Giap atraiu os
invasores, que esperavam que ele usasse a mesma tática com que, em 1954,
derrotara os franceses em Dien Bien Phu. Com a atenção dos norte-americanos
concentrada em Khe Sanh, Giap desfechou a ofensiva em todo o sul do Vietnã - que
ficou conhecida como “a ofensiva do Tet”, o ano novo lunar da tradição
vietnamita, a maior e mais desastrosa derrota militar dos EUA desde a guerra da
Coréia.
Em Concord,
Gettysburg e na Normandia os norte-americanos estavam, realmente, lutando pela
liberdade, antes de tudo pela sua liberdade, ainda que também tenham contribuído
para a liberdade de outros povos.
No Vietnã, as tropas
norte-americanas (meio milhão de soldados, uma esquadra inteira e o maior
contingente de bombardeiros até então reunido) estavam perpetrando uma agressão
imperialista das mais covardes que já houve na história do mundo. Eram hordas
que não estavam “combatendo e morrendo” pelos norte-americanos, mas tentando
escravizar um país pobre e pequeno, situado a dezenas de milhares de quilômetros
dos EUA, e, como esse país não se submetia, tentando apagar seu povo da face da
Terra.
Naturalmente,
levaram o troco - aliás, bastante modesto, comparado ao que sofreu o povo
vietnamita para expulsá-los de lá: morreram 60.159 norte-americanos e 300 mil
foram feridos. Mas foi uma agressão tão covarde, criminosa - e tão mal sucedida
- que o próprio povo norte-americano levantou-se contra ela. Uma agressão,
inclusive, ilegal até do ponto de vista dos EUA, pois a Casa Branca, para obter
a aprovação parlamentar, mentiu ao Congresso, falsificando o chamado “incidente
do golfo de Tonkin”.
Tal como na questão
da “liderança dos EUA”, abordada em nossa última edição, é impossível que Obama
não saiba o que significou a guerra do Vietnã. No entanto, em seu discurso de
posse, optou por fazer uma concessão ao belicismo imperialista, misturando
coisas que não se podem misturar. Muitas vezes é justo fazer alguma concessão.
Porém, há concessões e concessões. E, sem dúvida, não será possível recuperar os
EUA fazendo concessões de princípio aos verdadeiros inimigos do país.
C.L. |