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Só a garantia
de cotas de exibição pode salvar o audiovisual brasileiro
A nova alteração
na Lei do Audiovisual, alardeada pelo Minc e pela Ancine como início do reino da
fartura para o cinema nacional, é mais uma panacéia para encher as burras dos
monopólios televisivos. A verdade pura e simples é que a solução para o
audiovisual brasileiro é a garantia de seu espaço impondo cotas aos exibidores,
sejam eles cinemas ou TVs
VALÉRIO BEMFICA
Nem
bem terminamos de analisar as últimas estultices anunciadas pelo Ministério da
Cultura e pela Agência Nacional de Cinema (Edição 2736, de 23/1/09) e já
apareceu outra para ser comentada. Na arte de inventar subterfúgios para
beneficiar sempre os mesmos, não resolver o problema do audiovisual nacional,
mas ganhar algum espaço na mídia, esse pessoal sempre se supera. Pedimos
paciência ao leitor, pois nem sempre é fácil demonstrar o quão atoleimado – e
subserviente - é o discurso que parece proclamar o início do reino da fartura
para o cinema nacional.
Nos tempos do
neoliberalismo galopante, quando a Lei do Audiovisual foi criada, foi incluído
um artigo (o 3º) que previa incentivo fiscal às distribuidoras estrangeiras.
Elas poderiam abater até 70% do imposto devido pela remessa de lucros se
investissem em produções independentes nacionais. Não resultou em grande
coisa, pois as majors não estavam – e continuam não estando – interessadas em
bancar o desenvolvimento do cinema nacional. Alguns anos atrás, no final da era
tucana, os grandes estrategistas do aparato cultural resolveram alterar o
referido artigo (Lei 10.454, de 13/05/02). Foi incluída, então, a possibilidade
de utilizar o dinheiro que deveria ser pago como imposto em “co-produções”.
Aí a coisa poderia mudar de figura: as distribuidoras passariam a dar dinheiro
para elas mesmas, e não a patrocinar terceiros. Seriam sócios, não
patrocinadores. Seria exigir demais que os então mandatários da cultura
respondessem a uma singela questão: uma co-produção com uma major não
deixa de ser independente?
O fato é que, apesar
da alteração, o artigo permaneceu pouco utilizado até 2006, quando o tucano
Weffort já havia sido substituído pelo pavão Gil. Após sucessivas quedas na
bilheteria do cinema brasileiro a Ancine resolveu injetar mais dinheiro na
produção e trombeteou a Instrução Normativa 49, que facilitava o uso do artigo
3º. Aconteceu o óbvio: o espaço de cerca de 10% para os filmes nacionais
reservado pela cota de tela foi invadido por (co)produções das
distribuidoras estrangeiras. Ao invés de aumentar o espaço dos nossos cineastas
no nosso mercado, criou um espaço para as majors na cota de tela.
Mas a bilheteria
continua caindo, o cinema brasileiro continua alijado das principais telas, a
crise continua aumentando. E o jogo dos burocratas continua o mesmo: ao invés de
enfrentar os problemas, fazem um novo anúncio bombástico. Então, além do já
comentado Fundo Setorial do Audiovisual, para parecer que estão fazendo algo
para ajudar a classe, os preclaros dirigentes da Ancine anunciaram mais uma
alteração no artigo 3º. No jargão burocrato-cinematográfico, o artigo 3ºA, que
nada mais é do que a extensão do privilégio dado às majors também às TV’s
abertas e por assinatura. Ou seja, a partir de agora essas empresas poderão usar
70% do que deveriam pagar de imposto sobre o que remetem ao exterior para
financiar (co)produções nacionais. Segundo a Ancine tal generosidade
abrirá as portas da TV ao audiovisual independente e injetará milhões de reais
nas mãos dos pequenos produtores. Parece bacana? Se fosse verdade, seria. Mas
não é... Assim como aliviar os impostos das múltis da distribuição só serviu
para aumentar o lucro delas e colocar a produção independente brasileira ainda
mais no gueto, a atual medida não vai criar mais mercado e vai encher mais ainda
as burras dos monopólios televisivos.
A própria Ancine
admite que o audiovisual brasileiro (excluídos os telejornais, novelas, jogos,
programas de auditório, reality shows e outras baboseiras) ocupa apenas 6% da
grade nas TV’s abertas e 0,5% nas pagas. Isso não se deve à baixa qualidade ou
ao alto custo da produção independente. Deve-se, isso sim, a opções políticas,
ideológicas e estéticas da indústria cultural. Quanto mais alienante,
dominadora, embotadora forem os programas, mais eles gostam. Quanto menos a
programação desenvolver a identidade e a cultura do povo, melhor. Querem, diante
de suas telas, consumidores submissos, manipuláveis, não cidadãos pensantes. E é
por isso que dificilmente algo de saudável, verdadeiro ou culturalmente
significativo aparece lá. Como a indústria cultural americana especializou-se em
produzir tal tipo de programação, é de lá que importam a maior parte dos
programas.
Na realidade já
seria mais vantajoso para a TV comprar a programação independente. Não vamos nem
falar da maior capacidade que os artistas locais têm para refletir sobre a
realidade brasileira e para falar à alma de nosso povo, uma vez que isso pouco
importa à Globo ou à Net. Fiquemos apenas no aspecto econômico. Em primeiro
lugar, as produções nacionais são mais baratas: basta comparar os orçamentos de
Hollywood com os dos filmes nacionais. O produto estadunidense só é mais barato
quando pratica dumping. Além disso, quando as redes compram programações
internacionais, elas sempre vêm em “pacotes”. Ou seja, para comprar o grande
sucesso de bilheteria, precisa comprar junto um balaio de porcarias, o que eleva
significativamente os custos. E, finalmente, quando importa programação, a
emissora precisa pagar 15% de imposto em nome do vendedor. Quando compra
programação brasileira, não precisa. Até o Pedro Bó, fosse ele guindado à
presidência da Ancine, se daria conta de que não é por motivos econômicos que a
produção independente nacional não entra na TV. E até ele, com sua peculiar
inteligência, se daria conta de que a Ancine está voltando a afirmar que, para
as emissoras de TV veicularem o produto nacional, precisam ser remuneradas para
isso.
A estrutura
televisiva no Brasil, que sempre jogou pouco no campo nacional, mais do que
nunca é hoje um elo na cadeia da indústria cultural norte-americana. A principal
rede de TV aberta, a Globo, que já nasceu com obscuras ligações internacionais,
hoje é sócia assumida de um monopólio estrangeiro. As TV’s por assinatura, na
prática, são todas estrangeiras, com testas-de-ferro nacionais. Ou seja, seus
interesses são guiados de fora. Não compram a produção nacional não porque seja
mais cara ou de menor qualidade (ou por ser pouca, como alegam algumas antas),
mas porque não querem. Produzem aqui, elas mesmas, o que querem e importam a
maior parte do que exibem.
Mas, não podemos
negar, a medida da Ancine terá alguns efeitos práticos. Para sermos mais exatos
dois, ambos nocivos. O primeiro e mais evidente é o alívio fiscal ao monopólio
televisivo. De cada R$ 100,00 que recolhiam de imposto de importação, precisarão
recolher apenas R$ 30,00. Os outros R$ 70,00 serão utilizados para preencher a
sua grade de programação, com o dinheiro do contribuinte. Isso é particularmente
escandaloso se lembrarmos que a importação de produtos da própria matriz é uma
das formas mais tradicionais de evasão de divisas, de disfarçar a remessa de
lucros. A HBO “Brasil” compra produtos superfaturados da HBO matriz, e ainda tem
incentivo fiscal para isso! O segundo efeito, menos claro, será a terceirização
da programação (ou seja, precarização do trabalho dos profissionais do
audiovisual). A partir de agora, a Globo poderá terceirizar a sua produção de
mini-séries, reduzindo custos, cortando postos de trabalho e, melhor do que
tudo, com o nosso dinheiro! Vai aumentar seu lucro, sem precisar aumentar em um
segundo o tempo de programação realmente independente. Basta terceirizar seus
núcleos de produção. Aliás, já tem feito isso através da O2, de Fernando
Meirelles, assim como a Record tem feito com a produtora Casablanca. Computando
apenas os canais pagos, e sem contar os de programação esportiva, a generosidade
da Ancine injetará no bolso dos setores monopolistas cerca de R$ 50 milhões. E a
real produção independente brasileira continuará sem tela...
A verdade pura e
simples é que a solução para o audiovisual brasileiro não está em mirabolantes
artifícios legais e nem na aposta nos mecanismos de “mercado”, até porque, sob a
égide do monopólio, não existe mercado algum. A única forma possível de garantir
espaço para o audiovisual brasileiro – seja na telona ou na telinha – é impondo
cotas aos exibidores, sejam eles cinemas ou TV’s. Limita-se a importação,
limita-se a produção própria e cria-se um espaço que deve ser preenchido
obrigatoriamente com programação nacional independente, sem nenhum tipo de
incentivo fiscal aos exibidores. Parecemos radicais? Pelo contrário. São medidas
até conservadoras, adotadas em países como os Estados Unidos e a França. É claro
que os exibidores irão chiar: censura, intervencionismo, dirigismo! Afinal de
contas eles se consideram donos do que, na verdade, é uma concessão pública. E
se acham absolutamente descompromissados com conceitos como cultura, soberania e
identidade nacional. E não poderia ser diferente, pois são empresas
monopolistas. Que gritem. A função do Estado é justamente impor medidas que
coloquem freios à ação delas. E não inventar novas fórmulas para drenar recursos
do Estado para elas.
Isso tudo é
evidente, menos para os dirigentes da Ancine e do Minc. Qual seria o motivo?
Levantaremos algumas hipóteses. A primeira é que eles não se deram conta disso,
apesar de já ocuparem seus postos há seis anos. Nesse caso, tendo tomado tantas
e tão bombásticas medidas, tendo injetado tanto dinheiro público na mão de
conglomerados estrangeiros e, ainda assim, agravado a situação do audiovisual
brasileiro, deviam ter a humildade de dar o fora. Que tenham algumas aulas de
esperteza com o Pedro Bó e depois tentem voltar. A segunda é que eles sabem
direitinho o que fazer, mas não têm coragem. Nesse caso, deveriam tomar o rumo
de casa e nunca mais aparecer. E a terceira é que eles sabem o que fazer, mas,
na esperança de no futuro pegar alguma boquinha em uma das empresas integrantes
do cartel por eles beneficiado, dão uma de desentendidos. Mal sabem eles que o
grande capital costuma ser bastante ingrato com seus pequenos servos.
Espécie de síntese das duas primeiras, a
última parece ser a hipótese mais provável: uma mistura de pouca perspicácia,
muito servilismo e um tanto de oportunismo. E, nesse caso, é difícil que eles
saiam por conta própria: cabe ao setor, se quiser sobreviver, indicar-lhes a
porta dos fundos. |