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O
testemunho do mais eminente ministro da Agricultura soviético
Benediktov: A
URSS na época de Stalin e depois dele - (1)
Em 1980, o
jornalista soviético V. Litov preparava alguns programas radiofônicos sobre a
Índia com Ivan Alekssandrovitch Benediktov, ex-embaixador da URSS naquele país.
Porém, em suas conversas com Benediktov, conta o jornalista, “não consegui
conter-me e comecei a colocar para Ivan Alekssandrovitch questões sobre um tema
que me interessava mais”.
O tema era
o passado e o presente da URSS. Benediktov havia sido ministro (comissário do
povo) da Agricultura de 1938 a 1943 e, depois, de 1946 a 1955; ministro dos
Sovkhozes (as fazendas estatais) de 1955 a 1957; outra vez ministro da
Agricultura de 1957 a 1959, antes de ser nomeado embaixador na Índia (1959-1967)
e na Iugoslávia (1967-1970). Portanto, convivera pessoalmente com Stalin,
Molotov, Kaganovitch e outros dirigentes da época em que a URSS construía o
socialismo, assim como Kruschev e algumas figuras que ficaram conhecidas
posteriormente.
Operário
têxtil na época da Revolução Russa, Benediktov formou-se em engenharia
agronômica e economia agrícola em 1928 e foi um dos pioneiros da coletivização
da agricultura no Usbequistão, onde exerceu a vice-presidência da república. No
cargo de comissário do povo, foi o responsável pela formação dos estoques
agrícolas soviéticos que alimentaram o país durante a II Guerra Mundial.
A partir de
1953, ficou conhecido por suas divergências com Kruschev, que assumiu a
primeira-secretaria do PCUS após a morte de Stalin, sobre a condução da
agricultura. Já nesse ano, seu plano de aumentar a produtividade das áreas
agrícolas é rejeitado por Kruschev, que prefere o aumento extensivo da produção
– através da exploração nas então chamadas “terras virgens”.
Porém,
somente seis anos depois Benediktov é afastado do ministério. Começa, então, sua
trajetória na diplomacia.
Em 1981,
Litov terminou suas entrevistas com Benediktov, que morreria em 1983. Porém,
essas entrevistas somente foram publicadas em 1989, na revista “Molodaya Gvardia”.
Como explica Litov, “Ivan Alekssandrovitch não se opôs à publicação das suas
declarações, apesar de duvidar fortemente que tal fosse possível. Nisto
verificou-se que tinha toda a razão: todas as minhas tentativas de ‘colocar’ a
entrevista numa revista literária, mesmo na versão mais truncada, resultaram num
fracasso. No entanto, apesar de ter perdido uma esperança real, continuei a
insistir: pretendia demonstrar ao antigo comissário do povo que as suas
apreciações pessimistas eram inconsistentes e, eventualmente desse modo, fixar
um alicerce para o prosseguimento ulterior do tratamento literário das suas
memórias. Passados alguns meses após ter recebido mais uma rejeição por parte da
redação de uma conhecida revista, Ivan Alekssandrovitch faleceu... As motivações
para continuar a luta caíram por si próprias e entreguei o original ‘à crítica
roedora dos ratos’”.
Naturalmente, como Benediktov esclarece em suas entrevistas concedidas a Litov,
os revisionistas acusavam Stalin daquilo que eles próprios faziam – no caso,
tentar abafar um testemunho de inestimável importância histórica. Ao não
conseguir responder ao tranquilo depoimento do ministro da Agricultura de
Stalin, uma demolidora denúncia dos falsificadores da História – mais demolidora
ainda porque seu entrevistador está em posição oposta ao entrevistado – eles o
suprimiam, como se isso apagasse a verdade dos fatos. Sobre esta, o leitor
poderá julgar por si mesmo.
A tradução
das entrevistas de Benediktov pode ser encontrada no excelente site “Para a
história do socialismo” (http://hist-socialismo.blogs.sapo.pt). O texto
que hoje iniciamos a publicação foi adaptado ao português do Brasil.
C.L.
LITOV - Desde o final dos anos 70 que se
observa uma queda evidente na nossa economia. Nos documentos oficiais ela é
explicada quer por dificuldades objetivas, quer por falhas subjetivas. A maioria
dos cientistas e especialistas considera que a raiz do mal está na ausência de
um autêntico mecanismo econômico de desenvolvimento e gestão da economia e, em
especial, da introdução dos avanços científico-tecnológicos... Gostaria de
conhecer a opinião de um homem que ocupou um importante cargo na nossa economia
num período em que esta registrava das maiores, se não as mais elevadas taxas de
crescimento do mundo...
BENEDIKTOV -
Temo decepcioná-lo com o meu “conservadorismo” e “dogmatismo”. Considero que o
sistema econômico vigente em nosso país até os anos 60 poderia ainda hoje
garantir elevadas e estáveis taxas de crescimento, uma orientação firme para a
eficácia e qualidade e, como consequência natural, a elevação constante do
bem-estar de largas camadas de trabalhadores. Claro, a vida é a vida, algumas
coisas teriam de ser mudadas e renovadas. Mas isto refere-se apenas a alguns
estrangulamentos e pormenores porque, em geral, o amaldiçoado, pelos
economistas, “sistema stalinista”, como você corretamente observou, demonstrou
uma alta eficácia e vitalidade. Foi graças a ele que, no final dos anos 50, a
União Soviética era em termos econômicos e sociais o país mais dinâmico do
mundo. Um país que partiu convictamente do seu atraso, aparentemente insuperável
face às potências capitalistas mais desenvolvidas, mas que em alguns
setores-chave do progresso científico-tecnológico catapultou-se à frente. Basta
recordar as nossas realizações no espaço, o desenvolvimento para fins pacíficos
da energia atômica, os êxitos nas ciências fundamentais.
Enganam-se aqueles
que pensam que nós conseguimos tudo isto à custa de fatores extensivos e
quantitativos. Nos anos 30 e 40, e mesmo nos 50, a tônica, quer na indústria
quer na agricultura, colocava-se não na quantidade mas na qualidade; os
indicadores mais importantes e decisivos eram o crescimento da produtividade do
trabalho mediante a introdução de novas máquinas e a redução dos custos de
produção. Estes dois fatores foram colocados na base do crescimento econômico,
eram eles que determinavam a avaliação e promoção dos dirigentes econômicos, era
exatamente isto que se considerava como o mais importante e como uma decorrência
direta dos ensinamentos do marxismo-leninismo. Claro que, hoje, tal “rigidez” e
linearidade parecem um pouco ingênuas e também é verdade que naquela altura
produziram determinados efeitos negativos. Mas no conjunto a orientação foi
tomada de forma inteiramente correta, o que é demonstrado pela experiência das
atuais empresas americanas, da Alemanha Ocidental e japonesas, muitas das quais
já planificam não só o crescimento da produtividade do trabalho, mas também a
redução dos custos de produção num horizonte de vários anos...
O mesmo pode ser
dito sobre a esfera social e o clima político-ideológico na sociedade. A massa
fundamental dos cidadãos soviéticos estavam satisfeitos com a vida e olhavam
para o futuro com otimismo, acreditavam nos seus dirigentes. Quando Khruschev
lançou o objetivo de alcançar a mais alta produtividade do trabalho no mundo e
atingir as mais avançadas fronteiras no campo do progresso
científico-tecnológico, poucos duvidaram do êxito final, tão grande era a
convicção nas suas forças e na capacidade de alcançar e ultrapassar a América.
Mas Khruschev não era Stalin. Um mau capitão
é capaz de fazer encalhar o melhor navio. Foi o que aconteceu. Os nossos
capitães primeiro perderam o rumo, falhando nos ritmos estabelecidos, depois
começaram a saltar de um extremo para o outro e a seguir deixaram mesmo escapar
o leme das mãos, deixando a economia num impasse. Como não desejavam reconhecer
abertamente a sua incapacidade, claramente incompatível com [seus] altos cargos,
lançaram a culpa no navio, no “sistema”, montando uma ininterrupta linha de
produção de decisões e resoluções sobre o seu “desenvolvimento” e
“aperfeiçoamento”.
Por seu lado, os
“teóricos” e cientistas começaram a justificar esse carrossel de papel com
“inteligentes” considerações sobre um alegado “modelo econômico otimizado”, que,
por si próprio, asseguraria de forma automática a resolução de todos os nossos
problemas. Aos dirigentes bastaria sentar na cabine de comando desse “modelo”,
apertando de tempos a tempos um ou outro botão. Uma ilusão absurda, puramente de
gabinete, acadêmica!
LITOV - No entanto, até Lenin incentivou
as experiências, a busca de soluções otimizadas...
BENEDIKTOV -
Não tem propósito a citação que você faz de Ilitch [Lenin], nenhum propósito. A
tendência para as reorganizações e reformas, o constante prurido reestruturador
foi classificado por Lenin como o mais infalível sinal de burocratismo,
quaisquer que sejam as roupagens “marxistas” de que se veste. Não se deve
alvoroçar o povo com “rupturas de sistema” e reorganizações, avisou Vladimir
Ilitch ainda no início dos anos 20, recrutem-se pessoas e controle-se a execução
real das tarefas, isto será valorizado pelo povo. Este importantíssimo, talvez o
mais importante ensinamento leninista sobre como governar, o qual atravessa
literalmente todas as últimas obras, notas e documentos de Ilitch, na prática
(em palavras é claro que todos estão a favor) está hoje esquecido. Por que nos
surpreendemos então que, apesar da avalanche de “amadurecidas” resoluções e
reorganizações, as coisas vão de mal a pior em nosso país?
Durante o tempo de
Stalin, a palavra de ordem “os quadros e o controle resolvem tudo” era aplicada
à vida de forma consequente e firme. Apesar de evidentes erros e falhas (quem
não os tem?), foram resolvidas todas as tarefas históricas maiores que se
colocaram ao país, seja a criação das bases econômicas do socialismo, a derrota
do fascismo ou a reconstrução da economia nacional. Nomeie-me nem que seja
apenas um problema, social ou econômico, que Khruschev e os seus sucessores
tenham conseguido, já não digo resolver, mas pelo menos atenuar. Por todo o lado
o que vemos é toneladas de papel e gramas de obra, não se vê avanço real. Pelo
contrário, estamos cedendo posições conquistadas...
Compreenda bem o que
lhe digo. Eu não sou contra as reformas ou reorganizações enquanto tais. Eu sou
contra que se concentrem nelas as atenções, esperando que mais uma resolução
produza resultados milagrosos. É preciso diminuir dez vezes o número de tais
resoluções e reorganizações e canalizar todas as forças para um trabalho
meticuloso, duro, rotineiro na realização de poucas mas rigorosas e concretas
tarefas. Então, sim, surgem os resultados milagrosos, reforça-se a confiança do
povo no partido, a qual, infelizmente, está mais abalada a cada ano que passa.
Refira-se que aqui não estou descobrindo a América. Era exatamente neste
espírito que trabalhava o aparelho estatal-partidário nos chamados anos do
“culto à personalidade”. Penso que não é em vão, mas antes com bastante sucesso,
que a experiência daqueles anos é estudada por dirigentes das maiores
corporações monopolistas do Ocidente.
LITOV
- Ivan Alekssandrovitch, perdoe-me pela franqueza, mas
as suas considerações parecem-me demasiado simplistas. Depreende-se das suas
palavras que, em última instância, tudo depende de quem está à frente do país...
Não se estará a atribuir dessa forma uma espécie de força demoníaca ao fator
subjetivo, o que, sem dúvida, contraria os pressupostos fundamentais do
marxismo-leninismo?...
BENEDIKTOV -
Lenin, segundo a sua lógica, “contrariou os pressupostos fundamentais do
marxismo-leninismo” quando, após o fim da guerra civil, declarou que para a
vitória do socialismo na Rússia era apenas necessário “nível cultural” dos
comunistas. Em outras palavras, aptidão para governar o País, em relação ao que
[os comunistas] eram “gotas d’água num mar de povo”. Isto era afirmado em
condições de uma terrível destruição, fome, de um atraso medieval no campo, numa
situação em que o País, citando as palavras de Lenin, lembrava “um homem
espancado até à morte”!
A esmagadora maioria
dos cientistas e especialistas, tanto na Rússia como no exterior, hipnotizados
pelos chamados “fatores objetivos”, apelidavam publicamente o plano de Lenin de
“uma ilusão doentia”, uma aposta nas “forças demoníacas do partido bolchevique”.
Os demônios são demônios, mas o fato é que nós construímos o socialismo em
prazos curtíssimos, apesar de todos as “sábias corujas”, com os seus graus e
títulos acadêmicos.
Mas as analogias históricas não convencem
ninguém. É preferível falar do presente. Mesmo no atual sistema econômico, temos
dezenas de empresas, quer na indústria quer na agricultura, que estão ao nível
mundial e em certos aspectos até o superam. Veja, por exemplo, a unidade de
construção metalomecânica em Ivanov, dirigida por Kabaidze, ou o famoso
kolkhoz do presidente Bedulia.
A condição mais
importante, decisiva para o êxito dos setores mais avançados (navios-capitânea)
da nossa economia é o nível de direção, a competência profissional do diretor ou
do presidente. Se Kabaidze ou Bedulia não prepararem os seus sucessores, tudo
começará a descarrilhar, resvalando para o nível medíocre e cinzento que
predomina no nosso país. Daqui conclui-se que a raiz do mal não está no sistema
econômico existente, nas condições que oferece às pessoas com talento, capazes
de fazerem milagres (!), mas no que se costuma designar como “fator
subjetivo-pessoal”. Muito se fala entre nós sobre o aumento do papel deste fator
no socialismo. Trata-se de fato de uma constatação correta, só que o papel deste
fator não pode ser entendido de forma simplista e cor-de-rosa. Um dirigente
inteligente e competente acelera substancialmente o desenvolvimento de uma
empresa, de um ramo, de um país; da mesma forma que um fraco e medíocre o trava
e o atrasa gravemente. Por isso, os quadros dirigentes têm de ser submetidos a
uma exigência rígida e a um controle constante e global da sua evolução
profissional, ideológica, moral e política. Sem isto o socialismo não só não se
realiza como, pelo contrário, perde a sua superioridade histórica.
Falar da criação de
um “novo sistema” é falar de um sistema de grande escala, amplamente disseminado
e profundamente refletido, de revelação, promoção e estimulação da evolução de
pessoas talentosas em todos os escalões de direção, quer estatais quer
partidários. Se conseguirmos preparar e “munir” os altos objetivos com algumas
dezenas de milhares de Kabaidze e de Bedulia, o país realizará uma forte
arrancada. Se não, continuará a marcar passo ao som da fanfarra das habituais
resoluções e reorganizações. A principal tarefa partidária e, em grande parte,
do aparelho de Estado, deve consistir exatamente na descoberta e promoção de
pessoas com talento. Ora, neste momento só se pensa nisto quase em último lugar,
dedicando-se praticamente todo o tempo à preparação das habituais decisões e
resoluções e de sonoras iniciativas para as propagandear. Porém, mais do que
isso, as pessoas talentosas e brilhantes são preteridas em favor dos obedientes,
dóceis e medíocres que irrompem agora até em cargos ministeriais. E quando “em
cima” tudo está de pernas para o ar, “em baixo” as coisas não andam. Não me
surpreendo em nada com o aumento do descontrole nos processos econômicos e
sociais na sociedade, com o enfraquecimento da disciplina, da consciência e
responsabilidades dos trabalhadores comuns, com a disparada do que hoje se
costumam chamar de “fenômenos anti-socialistas”. Repito, a principal causa dos
nossos males está na baixa abrupta do nível da direção partidária-estatal, no
esquecimento dos geniais ensinamentos de Lenin sobre a seleção dos quadros e o
controle de execução como instrumento fundamental e decisivo de influência
partidária.
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