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Denúncias da fraude de Madoff foram ignoradas
por nove anos
A SEC, órgão de governo dos EUA que deveria fiscalizar as
operações com títulos,
fez vista grossa às denúncias das fraudes de Bernard Madoff durante 9 anos até
a sua falência e prisão
A pirâmide financeira com a qual Bernard Madoff realizou
operações fraudulentas que atingiram o montante de US$ 50 bilhões foi denunciada
nove anos antes de seus próprios filhos revelarem o esquema que levou à sua
prisão, no dia 10 de dezembro passado.
Madoff, ex-presidente da Nasdaq e um dos mais badalados em
Wall Street, confessou que seu negócio era um gigantesco ‘esquema Ponzi’. Uma
fraude piramidal em que a rentabilidade prometida é paga com o dinheiro obtido
com a entrada de novos clientes ou pelo reinvestimento daqueles que obtiveram
retorno inicial. Recebeu esse nome devido ao golpe aplicado por Charles Ponzi
criador de uma tramóia similar ao de Madoff, que envolveu 40 mil pessoas no
começo do século passado. Ponzi foi preso em 1920 pela polícia de Boston.
LUCRO LIGEIRO
Madoff causou perdas bilionárias aos seus clientes, entre
eles o Santander, o HSBC e outras centenas de financeiras e particulares
atraídos pela promessa de lucro ligeiro.
Michael Lewis, editor da Vanity Fair, e David Ein-horn,
autor do livro “Enganando Algumas Pessoas o Tempo Todo” descreveram - em matéria
publicada no New York Times - como o ex-diretor de investimentos da Rampant
Invesment Management, Harry Mar-kopolos, vinha denunciando às autoridades
monetárias dos EUA, desde 1999, que a “estratégia declarada de Madoff não era
somente improvável, mas matematicamente impossível”.
Seis anos após sua primeira denúncia - afirma a matéria
intitulada ‘O Fim do Mundo Financeiro Co-mo Conhecemos’ - Marko-polos elaborou
um relatório de 17 páginas para a SEC (Securities and Exchange Commission, órgão
de regulação do mercado norte-americanos), entregue em 7 de novembro de 2005, em
que ele afirmava categoricamente que a “a Seguradora Madoff é o maior esquema
Ponzi do mundo”.
Uma semana após a prisão de Madoff, em 10 de dezembro do
ano passado, a SEC acabou admitindo que “recebeu denúncias confiáveis e precisas
de maneira repetida desde 1999” e anunciou que realizaria uma investigação
interna para determinar como essas denúncias foram abafadas.
TIRANIA
Mas, porquê foram, persistentemente ignoradas? É o que
questionam Lewis e Einhorn em seu artigo, destacando o pequeno interesse em
expor o escândalo Madoff por qualquer um dos diretores da SEC, todos “insiders”
do sistema financeiro norte-americano. “A tirania do lucro no curto prazo se
estendeu assustadoramente para as entidades que deveriam, de uma forma ou de
outra, disciplinar Wall Street”, acrescentaram os articulistas.
Lewis e Einhorn também destacaram as relações de interesse
entre a agência reguladora SEC e as grandes corporações. “Não é difícil
compreender porque o SEC se comporta como tal. Se você mantiver boas relações
com Wall Street você pode em pouco tempo receber montanhas de dinheiro ao ser
empregado por lá”.
E exemplificam o argumento: “O mais recente diretor de
coação da SEC é atualmente conselheiro geral do JPMorgan Chase; seu antecessor
tornou-se conselheiro geral do Deutsche Bank; e um de seus predecessores
tornou-se diretor-gerente da Credit Suisse antes de ser contratado pelo Morgan
Stanley”.
“Nossa catástrofe financeira, como a que resultou no
esquema da pirâmide de Madoff, necessitou de todos os tipos de pessoas
importantes inseridas no sistema para sacrificar os interesses coletivos de
longo prazo em prol dos lucros de curto prazo. A pressão que existe para isso no
mercado é imensa, e, obviamente, quanto maior essa pressão maior é a necessidade
de uma fiscalização externa ao mercado para contê-la”, alertaram os
articulistas.
RODRIGO CRUZ |