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Obama leva multidões a
Washington
Presidente incorpora legado de Lincoln, Roosevelt e Martin Luther King e
galvaniza anseio de transformação do povo norte-americano e repúdio à guerra do
Iraque
“Ao longo de nossa história, só um punhado de gerações se
viram confrontadas com desafios tão graves como aqueles que atualmente
enfrentamos” e diante de “dias em que estaremos à prova como país”. Com os EUA
afundados na mais grave crise econômica desde o craque de 1929, e sob isolamento
internacional sem precedentes, dificilmente poderia ser mais apropriado o
diagnóstico do 44º presidente dos EUA, que tomou posse na terça-feira dia 20,
Barack Obama. Assim como as referências para a saída da crise, explicitadas
desde o roteiro de trem de Abraham Lincoln, aos “100 primeiros dias de Franklin
Roosevelt”, e às homenagens a Martin Luther King. Em sua convocação à superar a
crise e unir os EUA, Obama afirmou que é preciso “jamais subestimar o poder que
o esforço coletivo tem para produzir grandes feitos”.
ROOSEVELT
Curiosamente, muitos jornais conseguiram enxergar ali
Lincoln e Luther King, mas mal repararam em Roosevelt que, sem dúvida, é a
principal fonte de Obama quanto à crise econômica. Outro aspecto do simbolismo
inerente a essa vitória ocorreu porque a posse se deu exatamente no dia seguinte
ao feriado nacional em homenagem a Luther King, que faria 80 anos. As multidões
que irromperam em meio à profunda crise política provocada pelas guerras de W.
Bush e à pauperização da população e endividamento generalizado, acabando por
viabilizar a improvável vitória de Obama, voltaram às ruas – na posse
propriamente dita, ao longo do percurso do trem da vitória, no Memorial de
Lincoln e no show da posse. Manifestando que, no que depende delas, o novo
presidente pode avançar das anunciadas intenções às transformações. Foi no
Memorial de Lincoln que, em 1963, Luther King fez, perante uma multidão, o
famoso discurso “Eu tenho um sonho”, marco da luta contra a segregação racial
nos EUA e pela unidade do país.
Desde a vitória, no início de novembro, a situação
econômica se agravou enormemente, mas a posse de Obama provoca uma onda de
esperança, assim como se deu, na década de 30, quando Roosevelt assumiu o poder.
A saída de Bush, e o fracasso de John McCain liberaram uma enorme energia. Se a
esperança vai prevalecer, ou se será arrancado o couro das famílias americanas –
e dos países dependentes -, como exigem os monopólios (que com sua ganância e
exigência de lucro máximo jogaram o país à beira da depressão pela segunda vez
em menos de um século), é o que se verá nas próximas semanas, meses e anos. O
dinheiroduto para os bancos na bancarrota já ultrapassou US$ 1 trilhão, entre
empréstimos e “garantias” – mas os rombos continuam se estendendo, e a
quebradeira não cessa.
Assim, em três meses, mais 1,2 milhão de desempregados; só
na semana passada, em pouco mais de 24 horas, três corporações demitiram 50 mil
trabalhadores. Dois milhões de americanos perderam suas casas. As três
montadoras – GM, Chrysler e Ford – estão à beira da falência. O Bank of America,
que se tornou o maior banco do país por ingerir o falido Merrill Lynch, subiu no
telhado, e recebeu mais US$ 117 bilhões, entre empréstimo direto e garantias
adicionais. Já o Citibank, que confirmou perda de mais US$ 8 bilhões, comunicou
que irá se dividir em dois bancos, um menos arrombado, e outro completamente
arrombado.
PACOTE
Para tentar deter a derrocada econômica, o governo Obama
irá lançar um pacote de estímulo de US$ 850 bilhões, que terá como centro
investimentos públicos em infra-estrutura e serviços essenciais, manutenção e
criação de 4 milhões de empregos, preservação dos programas sociais de estados e
municípios e defesa da aposentadoria. O pacote terá de ser aprovado no
Congresso. Também é urgente socorrer as famílias que estão prestes a perder suas
casas. Mas será preciso ir além: a raiz mais de fundo da crise está na
estagnação dos salários reais desde a década de 70, contornada via
endividamento, afinal insuportável e insustentável, até não haver como realizar
a produção corrente, aos preços que querem cobrar, a começar pelas casas.
Agravada pelo confisco de renda da imensa maioria em prol dos magnatas, via
“corte de imposto” regressivo, e que retrocedeu a renda ao mesmo patamar de
concentração de 1929.
Ao mesmo tempo que luta para salvar o país do colapso
econômico, o governo de Obama irá buscar dar conta, no mais breve intervalo de
tempo possível, de outros componentes da herança maldita dos anos Bush. Como a
retirada das tropas do Iraque, Guantánamo, tortura e grampo. Afinal, a
transformação que se abre nos EUA teve como estopim o repúdio popular à invasão
do Iraque, processo no qual Obama se destacou como um dos poucos políticos do
país a se declarar, desde o início, contra a ocupação e as mentiras contra o
país árabe. Um repúdio tamanho que viabilizou que um negro, filho de um pai
africano e uma mulher branca americana, que passou parte da infância na
Indonésia, de sobrenome Hussein, o senador mais à esquerda do Senado dos EUA,
adversário da guerra ao Iraque e a favor de programas federais na educação e
saúde, fosse eleito presidente dos EUA.
ANTONIO PIMENTA |