Votorantim leva a Aracruz com verba do FAT cedida pelo BNDES

O banco colocou R$ 2,4 bilhões para que a família Ermirio ficasse com a empresa falida

A compra da Aracruz Celulose pelo Votorantim, em boa e clara linguagem, foi um presente do BNDES a grupos que se arrebentaram na especulação com derivativos. E, pior, um presente pago com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) a empresas que vinham demitindo funcionários – somente nos últimos dias, a Votorantim Celulose e Papel (VCP) demitiu 200 trabalhadores de suas plantações de eucalipto; a Aracruz demitiu 700, é verdade que todos eles trabalhadores “terceirizados”.

PREÇO

A Aracruz era uma empresa falida, desde que perdeu US$ 2,13 bilhões no maior trambique da história do chamado mercado financeiro – os derivativos. Note-se que o patrimônio líquido da Aracruz, de acordo com o último balanço, e convertido pela cotação do dólar da última quarta-feira, era de US$ 2,3 bilhões. Assim, o rombo com a vigarice financeira era do tamanho do patrimônio da empresa que foi declarado antes do estouro dos derivativos, já descontadas as outras dívidas (patrimônio “líquido”). Em termos contábeis-financeiros, a empresa valia quase nada. A ganância e a irresponsabilidade, invariavelmente, conduzem a essas coisas.

No entanto, foi para que o Votorantim comprasse essa empresa que o BNDES gastou R$ 2,4 bilhões do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) – dinheiro que, por enquanto, não tem volta, pois foram passados através de debêntures, empréstimos que serão convertidos em ações minoritárias da nova empresa que o Votorantim fundará para controlar a resultante da “fusão” entre a VCP e a Aracruz. O BNDES só poderá converter essas ações em dinheiro – ou seja, vendê-las - após o ano de 2.014.

A Aracruz Celulose era, originalmente, uma sociedade entre a Anglo-American, o grupo norueguês Lorentz e os banqueiros Safra. Em 2001, a Anglo-American cedeu lugar ao Votorantim. Os noruegueses e os Safra estabeleceram, nessa época, um acordo para controlar a companhia com 56% das ações com direito a voto.

Na última terça-feira foi anunciado que o Votorantim, através da VCP, comprou os 28% de ações votantes do grupo Lorentz – e, na quarta-feira, especulava-se que iria comprar os 28% do grupo Safra. A Votorantim Celulose e Papel (VCP) pagou um preço acima do preço de mercado pelas ações que estavam nas mãos dos noruegueses e promete fazer a mesma coisa com as ações em mãos dos Safra.

Desde setembro, o Votorantim não fazia outra coisa senão vender ativos para tapar o rombo deixado por sua própria especulação com derivativos. Entretanto, agora comprou, por preço acima do mercado, a Aracruz, uma empresa ainda mais arrombada pelo crack desses papéis sem valor e sem pudor.

Quem realizou a mágica foi o BNDES, que entrou com os R$ 2,4 bilhões para alavancar o Votorantim. Isso, inclusive, impediu que o Votorantim tivesse que pagar uma multa de R$ 1 bilhão por não cumprir uma promessa de compra de ações feita em setembro ao grupo Lorentz.

O motivo da não efetuação da compra em setembro foi, exatamente, o estouro dos derivativos. Tanto o Votorantim quanto a Aracruz estavam especulando pesadamente na pirâmide de títulos, que, de repente (nem tanto assim...), desabou.

O Votorantim perdeu, com esse ouro de otário, pelo menos US$ 2,2 bilhões, talvez US$ 3 bilhões, talvez mais – o total ainda não foi inteiramente divulgado. A Aracruz, na prática, perdeu tudo – o equivalente ao patrimônio líquido declarado no último balanço.

Ao Votorantim salvou o Banco do Brasil, que adquiriu 49,99% das ações votantes do Banco Votorantim por R$ 4,2 bilhões (cf. HP, 14/01/2009).

À Aracruz Celulose salvou o BNDES. Com o negócio fechado, a Aracruz conseguiu parcelar com os bancos seu bilionário débito de papel.

Disse o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que liberou o dinheiro para que a Aracruz não caísse sob domínio de grupos estrangeiros. Muito louvável. Mas por que essa preferência pelo Votorantim, que além de especular com o conto do paco dos derivativos - que qualquer administrador de bom senso sabia que eram insustentáveis, que iam estourar a curto prazo -, demite trabalhadores sem a menor inibição, mesmo recebendo recursos públicos, e recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador? Desde quando quem deixa trabalhadores no desamparo deve receber recursos de um fundo cuja função é amparar o trabalhador?

É evidente que o BNDES – ou o governo – não deviam deixar a Aracruz ser desnacionalizada. Poder-se-ia transformá-la numa empresa pública – o BNDES poderia comprá-la ou entregá-la a um empresário nacional competente, a preço mais barato do que o dinheiro dado ao Votorantim.

AVAL

No entanto, optou-se por injetar dinheiro público (e, repetimos, dinheiro dos trabalhadores) no Votorantim. Em uma semana o Banco do Brasil injetou R$ 4,2 bilhões e o BNDES mais R$ 2,4 bilhões – talvez mais, pois ainda não se sabe como o Votorantim conseguiu o aval dos Safra para o negócio com os Lorentzen, aval que era necessário devido ao acordo assinado entre os últimos.

Há muito tempo já se sabia, desde que Hilferding, Lenin e outros estudaram o fenômeno, que uma característica atávica dos monopólios é sua propensão a assaltar o Estado, a drenar dinheiro público para os seus cofres, em suma, seu parasitismo em relação aos recursos coletivos da sociedade. No entanto, os donos de monopólios locais, tipo Votorantim, talvez por serem subdesenvolvidos em relação aos seus congêneres dos países centrais, parecem só ter aprendido essa parte do ofício. Além de roubar o Estado – ou sem roubar o Estado, ainda que por alguns segundos – eles parecem incapazes de fazer qualquer coisa. Sobretudo quando encontram um presidente do BNDES que acha isso muito bonito – e muito progressista. 

CARLOS LOPES
 


Primeira Página

 

Página 2

Votorantim leva a Aracruz com verba do FAT cedida pelo BNDES

PDT decide votar em Temer e Tião Viana

Sarney “não altera trajetória” do PT em relação a Temer, diz Berzoini

Ajuda não deve ter garantia de emprego, defende Serra

Líderes de 6 partidos registram candidatura do senador petista

Lula felicita Obama e assinala os avanços da América Latina

Para Guerra, tucanos estão unidos para brigar entre eles

Expediente

Página 3

Copom reduz juro em um ponto após nove meses de escalada

Presidente do Ipea defende “queda drástica de 4 a 5 pontos” na Selic

Para centrais, queda de 1 ponto “é pouco”

Iedi: governo deve condicionar acesso dos bancos à liquidez ao aumento do crédito

Sem nova lei do Petróleo, multinacional Esso diz que vai continuar exploração do pré-sal

A terceirização escravagista

 

Página 4

Metalúrgicos declaram guerra contra demissão e corte salarial

Vendas de veículos estão em crescimento

Demissões nas montadoras “são inexplicáveis”, afirma Carlos Lupi

Governo retoma participação na Avibras

Brasil incrementará comércio com países do norte da África

Prédio da Renascer será demolido

CARTAS

Página 5

Centrais fazem atos em frente às sedes do BC por corte nos juros

Taubaté: Metalúrgicos garantem 650 empregos e diminuição da jornada sem redução de salário

Protesto em Brasília exige a redução  drástica da Selic e “Fora Meirelles!”

Trabalhadores de Minas Gerais rechaçam os mais altos juros do mundo: “tiro no pé”

Manifestantes nas ruas de Porto Alegre “contra juros nas alturas”

Ismael e Friaça: vida e morte

 

Página 6

Crônica de burrices anunciadas

Página 7

Israel faz de Gaza campo de provas com armas proscritas

Fósforo branco provoca feridas que dilaceram corpo das vítimas

Devastação deixou mais de 50 mil sem teto

 “Só com forte pressão internacional Israel vai parar agressão a palestinos”

Turquia questiona: “Como um país assim pode entrar pela porta da ONU?”

A AIEA e o ‘problema nuclear’ na Península

Governo sul-coreano detém Yun Jin, líder estudantil que luta pela reunificação do país

Página 8

Obama convoca povo a sacudir a poeira e reconstruir os EUA

Presidente dos EUA inicia processo de fechamento da prisão de Guantánamo

Relator especial da ONU pede a EUA que Bush seja processado por tortura

El Salvador: Frente Farabundo Marti vence em 10 de 14 estados

Cristina Kirchner conclui visita de três dias a Cuba

A conversão das lambisgóias
 

 

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