Copom reduz juro em um ponto após nove meses de escalada

Juro básico cai de 13,75% para 12,75%

Sob manifestações de trabalhadores, empresários e políticos contra os juros altos, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa Selic de 13,75% para 12,75% ao ano. O corte de apenas 1 ponto percentual ainda mantém o país com a maior taxa de juros reais do mundo (7,8%), seguido da Hungria (5,8%) e muito longe dos outros países – alguns deles, com taxas próximas de zero ou mesmo negativas.

Na terça e na quarta-feira, dias da reunião do Copom, as centrais sindicais realizaram mobilizações em 13 Estados (v. matérias na pág. 4 e 5) exigindo a redução dos juros. Na segunda-feira, os dirigentes das seis centrais sindicais reuniram-se com o presidente Lula. O corte de apenas 1 ponto percentual - “tímido” e “insuficiente”, segundo classificaram as centrais - revela a insistência do presidente do BC, Henrique Meirelles, em manter os juros altos. A redução é insuficiente para a expansão do crédito, fundamental para o crescimento industrial e a geração de empregos, embora seja sinal de que o BC não consegue mais impor juros à despeito de toda a sociedade.
Segundo o economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rogério César de Souza, já era claro em outubro que “os preços internacionais estavam caindo e o BC poderia ver isso. Ficou muito claro que a inflação não seria problema. O governo vinha tomando ações para fomentar a economia e a postura do Copom parecia uma contradição dentro do próprio governo”.

É digna de registro a ata do Copom sobre a reunião dos dias 28 e 29 de outubro, com a ridícula justificativa para manutenção da taxa de juros em 13,75%: “Os dados disponíveis referentes à atividade econômica indicam que o ritmo de expansão da demanda doméstica continua bastante robusto, respondendo, ao menos parcialmente, pela tendência de aceleração da inflação”... No entanto, a inflação era descendente.
O índice oficial de inflação, medido pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), registrou em 2008 uma variação de 5,9%, estritamente dentro da meta (entre 2,5% e 6,5%). Já no fim do primeiro semestre do ano passado a elevação de preços localizada em alguns produtos alimentícios, fruto de especulação no mercado internacional, já tinha recuado. Porém, o BC elevou, em abril, os juros de 11,25% para 11,75% ao ano. Em junho, para 12,25% e no mês seguinte, para 13%.

Finalmente, em setembro, com o preço das “commodities” (cuja alta era a suposta justificativa do BC) caindo, os juros básicos foram para 13,75%. Alguns dias depois, com a falência do Lehman Brothers, irrompia a crise americana. Essa irrupção não fez com que o BC diminuísse os juros em suas subseqüentes reuniões até o fim do ano.
Esses aumentos de juros não tiveram efeito algum sobre a inflação, cujas causas – tanto de alta, aliás, muito modesta, quanto de queda – nada tinham a ver com fatores internos, mas com a bolha especulativa do mercado financeiro americano, em particular a especulação com produtos agrícolas na Bolsa de Chicago. Não foi a inflação que esses aumentos de juros atingiram, mas o crescimento do país, especialmente a partir do momento em que a crise americana provocou escassez no crédito internacional. Junto com a evidente ganância dos bancos internos, que retraíram a oferta de crédito, preferindo especular com títulos públicos, os juros altos impediram que os empresários obtivessem internamente o crédito que lhes faltava lá fora.

O resultado foi a queda na produção industrial: -7,9% entre setembro e novembro. Em dezembro, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), houve uma queda nos empregos formais, com uma perda de 654.946 postos de trabalho. A indústria de transformação foi o setor mais afetado.

No momento em que a crise criada pelos monopólios começou a rondar o país, a atuação do BC se mostrou mais deletéria. Além de restringir o crédito com os juros altos, o BC assistiu de camarote os bancos comprarem títulos públicos com o dinheiro liberado do depósito compulsório, medida que tinha como finalidade, supostamente, a ampliação do crédito.

Na tentativa de se eximir da responsabilidade de sua nefasta política monetária, Meirelles cobrou dos bancos a redução do spread que, segundo ele, se descolou da trajetória da Selic. “Vamos falar seriamente, o problema não é a Selic, é o spread bancário”, disse Meirelles, em reunião com empresários e banqueiros. O Iedi, ao defender uma redução mais agressiva da taxa de juro, afirmou: “a Selic alta incentiva spread alto, uma vez que o risco relativo do empréstimo sobe, se comparado com o ganho que os bancos têm com títulos públicos”.

O presidente do IPEA, Marcio Pochmann, defendeu um corte de 5 pontos nos juros básicos para que o país pudesse ampliar os investimentos, fortalecer o mercado interno e seguir na trajetória de crescimento. É a demanda que se apresenta para a próxima reunião do Copom, que acontecerá nos dias 10 e 11 de março.

VALDO ALBUQUERQUE
 


Primeira Página

 

Página 2

Votorantim leva a Aracruz com verba do FAT cedida pelo BNDES

PDT decide votar em Temer e Tião Viana

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Ajuda não deve ter garantia de emprego, defende Serra

Líderes de 6 partidos registram candidatura do senador petista

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Expediente

Página 3

Copom reduz juro em um ponto após nove meses de escalada

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Para centrais, queda de 1 ponto “é pouco”

Iedi: governo deve condicionar acesso dos bancos à liquidez ao aumento do crédito

Sem nova lei do Petróleo, multinacional Esso diz que vai continuar exploração do pré-sal

A terceirização escravagista

 

Página 4

Metalúrgicos declaram guerra contra demissão e corte salarial

Vendas de veículos estão em crescimento

Demissões nas montadoras “são inexplicáveis”, afirma Carlos Lupi

Governo retoma participação na Avibras

Brasil incrementará comércio com países do norte da África

Prédio da Renascer será demolido

CARTAS

Página 5

Centrais fazem atos em frente às sedes do BC por corte nos juros

Taubaté: Metalúrgicos garantem 650 empregos e diminuição da jornada sem redução de salário

Protesto em Brasília exige a redução  drástica da Selic e “Fora Meirelles!”

Trabalhadores de Minas Gerais rechaçam os mais altos juros do mundo: “tiro no pé”

Manifestantes nas ruas de Porto Alegre “contra juros nas alturas”

Ismael e Friaça: vida e morte

 

Página 6

Crônica de burrices anunciadas

Página 7

Israel faz de Gaza campo de provas com armas proscritas

Fósforo branco provoca feridas que dilaceram corpo das vítimas

Devastação deixou mais de 50 mil sem teto

 “Só com forte pressão internacional Israel vai parar agressão a palestinos”

Turquia questiona: “Como um país assim pode entrar pela porta da ONU?”

A AIEA e o ‘problema nuclear’ na Península

Governo sul-coreano detém Yun Jin, líder estudantil que luta pela reunificação do país

Página 8

Obama convoca povo a sacudir a poeira e reconstruir os EUA

Presidente dos EUA inicia processo de fechamento da prisão de Guantánamo

Relator especial da ONU pede a EUA que Bush seja processado por tortura

El Salvador: Frente Farabundo Marti vence em 10 de 14 estados

Cristina Kirchner conclui visita de três dias a Cuba

A conversão das lambisgóias
 

 

Leia

Centrais fecham com Lula ofensiva contra os juros, demissões e redução dos salários

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