A terceirização escravagista

Em artigo publicado na “Folha de S. Paulo”, da última quarta-feira, o senhor Jan Wiegerinck, presidente do Sindeprestem (Sindicato das Empresas de Prestação de Serviços a Terceiros) advogou que a terceirização da mão-de-obra na atividade-fim das empresas necessita ser legalizada porque, em sua opinião, não é possível definir qual é a atividade-fim de determinados setores, a exemplo das “indústrias automobilística, eletrônica, de informática, de telecomunicações”.

A “atividade-fim” é a razão de existir da empresa. Por isso, não nos parece tão difícil defini-la – ou perceber qual é ela, seja que empresa for. Para ficar em um dos exemplos citados por Jan Wiegerinck, uma montadora de automóveis tem esse nome porque sua atividade-fim é montar automóveis. Parece demasiado simples – mas apenas porque realmente é simples. Se a empresa terceiriza a mão-de-obra em sua atividade-fim, isso somente pode ter um objetivo: eludir as leis trabalhistas, isto é, sua responsabilidade para com os trabalhadores, além, evidentemente, de outras leis, por exemplo, de caráter tributário, e escapar à fiscalização do Estado.

MONOPÓLIOS

A dificuldade, portanto, não é descobrir qual é a atividade-fim de uma empresa. A dificuldade é que existem algumas empresas – em geral, monopólios, sobretudo multinacionais – que não querem respeitar os direitos trabalhistas, nem pagar impostos. E para isso querem recorrer à terceirização da mão-de-obra, inclusive na atividade-fim das empresas. Foi por esta razão que o Tribunal Superior do Trabalho, em seu enunciado 331, proibiu, porque é ilegal, a terceirização da mão-de-obra na atividade-fim das empresas.

Isso, evidentemente, nada tem a ver com a contratação de serviços especializados de terceiros, como realmente é feito em muitos setores, inclusive nas montadoras. Misturar as duas questões como se fossem a mesma, é bem característico da esperteza que certos executivos de monopólios chamam, erradamente, de “business”.

A lei, por consequência, tem que ser específica e detalhada, determinando quais os setores que podem ser objeto de terceirização e quais não podem. Mas é evidente que a questão mais essencial é que não pode haver terceirização da mão-de-obra na atividade-fim, ou a empresa deixaria de ser uma empresa para tornar-se uma fachada sob a qual a lei não vigoraria. Uma empresa não é um galpão ou uma senzala. Uma empresa é um empreendimento com determinado objetivo – e esse objetivo determina a atividade-fim.

Nesse sentido, o sr. Jan Wiegerinck não tem razão, na sua defesa da terceirização, em levantar que “a Constituição não poderia ser mais clara: ‘É livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão’ (artigo 5º)”. Ninguém discute tal dispositivo. Mas dele não se depreende que alguém seja livre para desrespeitar as leis – muito menos desrespeitar as leis para atentar contra a liberdade de trabalho que é garantida pelas leis trabalhistas.

Porém, continua o sr. Wiegerinck: “Quanto aos serviços terceirizados, o país reclama por um modelo, como o que vigora no Japão há mais de 20 anos, o qual garante ao trabalhador os mesmos direitos dos quadros efetivos das empresas. O projeto 4.302/98, que tramita na Câmara dos Deputados, inspira-se nesse escopo”.

ILEGAL

Quanto ao Japão, se lá os trabalhadores terceirizados têm a mesma falta de direitos dos trabalhadores não-terceirizados, isso não nos serve de consolo nem de modelo. Quanto ao projeto 4.302/98, o maior problema dele é que não define claramente que a terceirização é ilegal – e, portanto, deve ser proibida – na atividade-fim das empresas. É essa a questão, ou seja, é essa a discussão em torno do projeto. Não por acaso, o sr. Wiegerinck maldiz “as intermináveis discussões sobre o tema, muitas vezes motivadas por interesses corporativos não raro inconfessáveis, [que] condenam à informalidade milhões de trabalhadores, desprotegidos de direitos e da oportunidade de alcançar o mercado formal de trabalho, justamente por falta de instrumento legal”.

Não são os interesses dos sindicatos que são “inconfessáveis”. Inconfessáveis são os interesses monopolistas que se escondem atrás da terceirização – e o sr. Jan Wiegerinck sabe bem disso, pois quem determina o que é pago a essas empresas de terceirização são os monopólios; não são essas empresas, algo parecidas com os “gatos” que forneciam bóias-frias à lavoura, que fazem seu preço. Portanto, é essa tentativa de passar por cima das leis que condenam trabalhadores à informalidade. As discussões são exatamente porque tenta-se, no momento, passar como lei um texto que, ao não proibir a terceirização da mão-de-obra na atividade-fim das empresas, é uma tentativa de estupro à legislação.

Essa legislação existe. Não é um “avanço” (como diz Wiegerinck) que as empresas passem a cumpri-las. Isso é uma obrigação delas, e para isso não se necessita de qualquer nova lei. As leis atuais são feitas para proteger o lado mais fraco (o trabalhador) da exploração imposta pelo lado mais forte. O que se quer, de forma embuçada, é aprovar uma lei que proteja o lado mais forte. Natural que os trabalhadores sejam contra.

ALESSANDRO RODRIGUES

 

 


Primeira Página

 

Página 2

Votorantim leva a Aracruz com verba do FAT cedida pelo BNDES

PDT decide votar em Temer e Tião Viana

Sarney “não altera trajetória” do PT em relação a Temer, diz Berzoini

Ajuda não deve ter garantia de emprego, defende Serra

Líderes de 6 partidos registram candidatura do senador petista

Lula felicita Obama e assinala os avanços da América Latina

Para Guerra, tucanos estão unidos para brigar entre eles

Expediente

Página 3

Copom reduz juro em um ponto após nove meses de escalada

Presidente do Ipea defende “queda drástica de 4 a 5 pontos” na Selic

Para centrais, queda de 1 ponto “é pouco”

Iedi: governo deve condicionar acesso dos bancos à liquidez ao aumento do crédito

Sem nova lei do Petróleo, multinacional Esso diz que vai continuar exploração do pré-sal

A terceirização escravagista

 

Página 4

Metalúrgicos declaram guerra contra demissão e corte salarial

Vendas de veículos estão em crescimento

Demissões nas montadoras “são inexplicáveis”, afirma Carlos Lupi

Governo retoma participação na Avibras

Brasil incrementará comércio com países do norte da África

Prédio da Renascer será demolido

CARTAS

Página 5

Centrais fazem atos em frente às sedes do BC por corte nos juros

Taubaté: Metalúrgicos garantem 650 empregos e diminuição da jornada sem redução de salário

Protesto em Brasília exige a redução  drástica da Selic e “Fora Meirelles!”

Trabalhadores de Minas Gerais rechaçam os mais altos juros do mundo: “tiro no pé”

Manifestantes nas ruas de Porto Alegre “contra juros nas alturas”

Ismael e Friaça: vida e morte

 

Página 6

Crônica de burrices anunciadas

Página 7

Israel faz de Gaza campo de provas com armas proscritas

Fósforo branco provoca feridas que dilaceram corpo das vítimas

Devastação deixou mais de 50 mil sem teto

 “Só com forte pressão internacional Israel vai parar agressão a palestinos”

Turquia questiona: “Como um país assim pode entrar pela porta da ONU?”

A AIEA e o ‘problema nuclear’ na Península

Governo sul-coreano detém Yun Jin, líder estudantil que luta pela reunificação do país

Página 8

Obama convoca povo a sacudir a poeira e reconstruir os EUA

Presidente dos EUA inicia processo de fechamento da prisão de Guantánamo

Relator especial da ONU pede a EUA que Bush seja processado por tortura

El Salvador: Frente Farabundo Marti vence em 10 de 14 estados

Cristina Kirchner conclui visita de três dias a Cuba

A conversão das lambisgóias
 

 

Leia

Centrais fecham com Lula ofensiva contra os juros, demissões e redução dos salários

Fiesp abre guerra contra os salários dos trabalhadores

BB paga R$ 4 bilhões para Votorantim ficar com o controle do BV

Juros e alarmismo midiático freiam a produção industrial

 Israel testa Obama com chacina contra palestinos em Gaza

Para Lula, juros têm que cair no começo de 2009

Para nababos da Vale, povo duro é a melhor receita contra a crise

“Toma o beijo da despedida, seu cachorro!”

Meirelles afronta o Brasil e não reduz taxa de juros para jogar país na crise

Alencar mantém BC sob pressão: “esses juros são anomalia”

Lula a Meirelles: “juro está além daquilo que o bom senso indica”

Montadoras almoçam os R$ 8 bi do crédito e mantêm ameaça de demitir trabalhadores

Meirelles diz que não aceita baixar juro para priorizar crescimento

Juro alto dissipa 29% da renda disponível no país, afirma Ipea

Procurador avalia que há provas para Daniel Dantas pegar um ano a mais que Al Capone

“Gasto público que precisa ser cortado é o juro”, diz Ipea

Meirelles quer que Brasil traia o compromisso com G-20 sobre redução do juro

China põe R$ 1 trilhão na infra-estrutura para crescer 9% em 2009

EUA responde à crise votando em massa na mudança

Fusão de Unibanco com Itaú torna mais anti-social sistema financeiro privado

Banqueiros põem o compulsório no bolso e dão uma banana ao crédito

Greve da Polícia Civil cresce e responde a Serra nas ruas de SP

Eleições em S. Paulo opõem integridade de Marta à dissimulação indecorosa de Kassab

Governador trai promessa e dá ordem para PM atacar policiais

Marta sobe porque é Lula. Kassab cai porque é oposição

Retratação de Gabeira reafirma preconceito contra “suburbanos”

Inauguração da P-51 é resposta do Brasil à crise

Eleições dão vitória aos aliados de Lula em todas as regiões

Lula pede a S. Paulo que vote em Marta: “temos as mesmas idéias e projetos”

Veto popular assusta republicanos e trava bailout de US$ 700 bi a especulador falido

Economia na mão de especuladores levou EUA à crise, diz Lula

Para Serra, Kassab é leal. Alckmin, não

Lula mobiliza PF para fechar nossa fronteira a terroristas da Bolívia

Kassab usa Ama para passar verba pública aos grupos privados

Com inflação em queda, BC eleva juro para afundar o Brasil em 2009

Comando do Exército desmente Jobim: “a maleta da Abin não serve para escutas”

Maleta não faz grampo, apenas a varredura, diz técnico da Abin

Quadrilha pró-Dantas acusa Abin de gravar seu truta no Supremo

Trabalhadores se unem e dão apoio unânime à Marta

China desbanca EUA da liderança olímpica

Tucanos vão ao STF para derrubar o piso salarial de professor

Magistrados armam barraco no Supremo

Lula convoca UNE a deflagrar campanha do ‘Pré-sal é Nosso!’

Kassab responsabiliza Alckmin por atrofia do Metrô-SP e vice-versa

BC faz do Brasil último peru com farofa em mesa de especulador, diz Delfim Netto

Alckmin tira o corpo fora e põe na conta de Serra o desastre da Linha 4 do Metrô

BC manipula previsão de crescimento para forçá-lo a despencar