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Crônica de burrices anunciadas
Apenas
a subserviência aos monopólios da indústria cultural não é suficiente para
explicar a nova queda nos espectadores de filmes brasileiros: 8,7 milhões em
2008, contra 9,8 milhões em 2007. Em termos percentuais perdemos ainda mais,
ficando com 9,72%
VALÉRIO BEMFICA
Desculpem os leitores pelo título
pouco sutil, parafraseado de Garcia Marquez. O mais correto, do ponto de vista
jornalístico, talvez fosse: “Público do Cinema Brasileiro Diminui”. Mas já
usamos tal título no meio do ano, falando do primeiro semestre de 2008. E no
começo do ano, falando de 2007. E formulações parecidas foram usadas outras
vezes - a notícia virou rotina. Optamos por uma mais agressiva dessa vez, pois
apenas a subserviência - seja ela remunerada ou não - aos monopólios da
indústria cultural não é suficiente para explicar a nova queda nos espectadores
de filmes brasileiros: 8,7 milhões em 2008, contra 9,8 milhões em 2007. Em
termos percentuais perdemos ainda mais, ficando com 9,72%, uma vez que o número
geral de ingressos vendidos teve um pequeno aumento. E, como não poderia deixar
de ser, o preço médio dos ingressos e a renda dos distribuidores e exibidores
também aumentou.
Para que se tenha uma idéia do que
isso representa, gostaríamos de lembrar que em 2003, primeiro ano do governo
Lula, o número de espectadores dos filmes brasileiros foi de 22, 1 milhões. Há
30 anos, em 1978, quando havia a Embrafilme, chegou a 60 milhões.
Antes de comentar as burrices
anunciadas façamos, porém, uma breve síntese dos argumentos que temos defendido.
O setor do audiovisual é extremamente monopolizado. Como apontou Anita Simis, em
artigo publicado na edição 2732, esse processo começou nas primeiras décadas do
século passado, quando os grandes estúdios de Hollywood começaram a estender
seus tentáculos sobre o ramo de distribuição e exibição. Hoje não temos no
Brasil um mercado, mas um cartel, dominado por meia dúzia de distribuidoras
norte-americanas que abocanham quase 80% dos ingressos vendidos no país e duas
redes exibidoras - também estadunidenses - que detém cerca de 50% do público.
Todas as decisões sobre o que, quando e quanto exibir são tomadas no exterior.
Para essa turma, o cinema nacional é apenas um estorvo, um item que deveria ser
excluído de suas planilhas.
Diante de tal quadro, só através
da ação firme do Estado o cinema brasileiro pode se desenvolver. E, por ação
firme, entenda-se: uma elevada cota de tela (que inclua não só o cinema, mas
também a TV aberta e a TV paga), uma distribuidora estatal, salas públicas de
cinema (já que os monopólios desprezam as periferias e cidades menores),
ingressos baratos. Nenhuma dessas medidas sequer passa pela cabeça dos luminares
instalados no Minc e na Ancine. Pelo contrário, optam por despejar dinheiro na
produção de filmes que não serão vistos, tentando comprar o silêncio dos
realizadores e garantindo a reserva de mercado para o audiovisual estrangeiro.
Vejamos as estultices recentemente anunciadas.
PRIMEIRA BURRICE ANUNCIADA
No início de dezembro do ano
passado foi armado um circo para, pomposamente, anunciar a criação do Fundo
Setorial do Audiovisual. Na realidade, trata-se da regulamentação do uso das
taxas criadas junto com a Ancine. A única novidade real é que a FINEP -
Financiadora de Estudos e Projetos, empresa pública ligada ao Ministério da
Ciência e Tecnologia - passa a realizar a chamada pública e lançar os editais, a
exemplo do que a-contece com outros fundos setoriais. O dinheiro já não é mais
um patrocínio, mas um “investimento”, que deverá retornar aos cofres públicos
com receita de bilheteria. Talvez os atuais ocupantes do Minc e da Ancine não
saibam, mas o financiamento via FINEP já existiu nos tristes anos de FHC. Foi um
retumbante fracasso. Dezenas de empresas do setor ainda devem e não fazem a
menor idéia de como pagar. E por quê? Simplesmente porque naquela época - assim
como agora - os editais ofereciam dinheiro, mas não havia nenhuma política
pública que garantisse a exibição.
É verdade que os gênios
estabeleceram quatro linhas de financiamento: duas para a produção (R$ 22
milhões) e duas para a circulação (R$ 15 milhões). As duas para a produção (uma
para longas-metragens e outra para produtos destinados à televisão) exigem que o
produtor já tenha um contrato prévio de distribuição ou exibição. Não por acaso
é a tese defendida por Rodrigo Saturnino Braga, capo da Columbia Tristar no
Brasil: só devem ser feitos os filmes que os distribuidores querem. As duas para
circulação (comercialização e aquisição de direitos de distribuição) dão
dinheiro direto para empresas distribuidoras para que assumam filmes em
produção. Caso algum habitante de outro planeta chegasse aqui e deparasse com os
editais, poderia pensar que a coisa é séria. De um lado, financiam-se filmes,
que já têm garantida a distribuição. De outro, financia-se os distribuidores,
para que possam colocar os filmes no mercado. E depois, produtores e
distribuidores devolvem o dinheiro ao Estado, com a renda da bilheteria.
Mas, ao que tudo indica, os
comandantes do Minc e da Ancine são terráqueos. E devem saber, portanto, que,
dos 82 títulos lançados no mercado brasileiro, só dois ou três conseguiram dar
lucro - aqueles associados aos monopólios. Existem, portanto, apenas duas
possibilidades: as empresas independentes do setor, sempre na luta para
sobreviver, pegam o dinheiro sabendo que não conseguirão pagar, e tentam “dar um
jeitinho” no futuro (não seria a primeira vez...) ou o dinheiro vai parar,
indiretamente, na mão dos monopólios. A segunda alternativa nos parece mais
provável. As multinacionais da distribuição já estão autorizadas, faz tempo, a
usar o imposto devido por suas remessas de lucros para produzir filmes aqui -
filmes que elas mesmas distribuem. É só colocarem esses filmes para concorrer
nos editais do FSA, em nome de uma produtora nacional, para conseguir uma
produção a custo zero. E, nas linhas de distribuição e comercialização, o
dinheiro ou acabará no bolso da Globofilmes, versão tupiniquim dos monopólios,
ou será tomado por pequenas distribuidoras que, para conseguir honrar seus
compromissos, acabarão se juntando com as majors na hora de colocar os filmes
nos cinemas. Em suma, muito lero-lero para dar mais dinheiro - público - para os
mesmos. Não é à toa que o Presidente Lula, convidado a participar da cerimônia
de lançamento do Fundo, não achou a exposição do tema muito inteligente...
SEGUNDA BURRICE ANUNCIADA
Poucos dias depois do lançamento
do FSA, outro anúncio da Ancine: a cota de tela. E, assim como no caso do Fundo,
na verdade não há novidade alguma, pois a cota é a mesma de 2008, que por sua
vez repetiu 2007. Descobriram a fórmula do fracasso e não se cansam de
reproduzi-la. Grosso modo, os cinemas brasileiros são obrigados a preencher
menos de 10% de sua programação com a cinematografia nacional. Não é preciso ser
muito esperto para descobrir porque o mercado de nossos filmes é de 9,72%. As
majors, que lançam menos de uma centena de títulos por ano, têm nove vezes mais
espaço para exibi-los do que os cineastas brasileiros, que produzem oitenta
filmes. Em um setor dominado totalmente por multinacionais, que evidentemente
preferem passar os seus próprios produtos, a cota de tela será sempre o teto,
não o piso da exibição de nossos filmes.
É por isso que, quanto mais a
indústria cinematográfica internacional se monopolizava, mais aumentava a cota
de tela. E foi essa política que fez com que o nosso cinema se desenvolvesse e
criasse público. Ela só foi interrompida quando as políticas neoliberais
começaram a imperar, primeiro com Collor e depois com FHC. Mas, ao contrário de
outros setores da economia, onde o governo Lula tem revertido as nefastas
medidas entreguistas de governos anteriores, na área da cultura - e,
particularmente, na área do audiovisual - tais medidas vão sendo mantidas,
quando não aprofundadas. Na prática, temos hoje um espaço menor para a exibição
de filmes nacionais do que no governo tucano, uma vez que a cota de tela caiu e
a produção é muito maior. E, por falar neles, é justamente do principal ninho
tucano que vem a última parvoíce que queremos comentar.
TERCEIRA
BURRICE ANUNCIADA
Como quem houvesse descoberto a
pólvora, a Secretaria Estadual de Cultura, na pessoa do dublê de exibidor,
distribuidor e funcionário público, André Sturm, anuncia que suas políticas
acrescentaram 1,9 milhão de espectadores ao público do cinema nacional em 2008 e
que, em 2009, serão 2,5 milhões. Como a notícia saiu em um jornal que não faz a
menor questão de esconder o seu puxa-saquismo para com o governo de São Paulo,
ficamos desconfiados. Mais ainda quando, nas primeiras linhas, vemos o
famigerado Saturnino (ou seja, a Columbia Tristar) comemoran-do o fato. Quem
ouve falar do programa, com muita inocência, pode até achar a idéia boa.
Trata-se de distribuição de vale-ingresso para alunos da rede pública de ensino.
Tais vales, quando efetivamente trocados por entradas de cinema para filmes
brasileiros, rendem R$ 3,00 ao exibidor credenciado.
Nossa primeira impressão foi a de
que o grosso do dinheiro iria para os mesmos (quer dizer, as múltis da
distribuição e da exibição). Tanto é que Saturnino declara que vai abraçar
“furiosamente” a tese de que o dinheiro não deve ir para a produção (senão os
cineastas brasileiros vão querer fazer filmes), mas para o consumo - dos filmes
que ele distribui, naturalmente. A empresa que ele dirige, aliás, tem 4 dos 10
filmes mais vistos no programa. E as outras múltis mais 3, o que já significa
mais da metade dos ingressos.
Mas desconfiamos que havia mais
sacanagem na área. E foi só ler a declaração de André Sturm, Coordenador da
Unidade de Fomento da Secretaria de Cultura (e também, não esqueçamos, dono de
empresa distribuidora de filmes e de salas de cinema), que a coisa ficou clara.
O programa é, segundo ele, “uma forma de subsidiar o cumprimento da cota de
tela”! Ou seja, assumidamente, a iniciativa do governo de São Paulo não visa
ampliar o público, formar platéias, proteger o cinema nacional. Isso é coisa
para nacionalistas retrógrados. A verdadeira intenção é dar uma remuneração para
que o “mercado” cumpra a lei! Não é sem motivo a alegria do gerente da
multinacional. Receber uma grana para cumprir a lei. Já imaginou se a moda pega?
O governo do Estado terá de pagar aos cidadãos de bem que não ultrapassam o
limite de velocidade nas estradas, que colocam seus filhos na escola, que
cumprem a lei do silêncio, etc. Os exibidores e as distribuidoras
multinacionais, além de atentar contra o nosso cinema usando todas as formas de
concorrência desleal já inventadas, agora exigem dinheiro para cumprir a lei. E
uma lei que, como já vimos, estabelece percentuais de exibição muito aquém do
razoável. E alguns ainda comemoram...
A essa altura, o leitor já deve
estar concordando com o nosso título. O HP tem feito um esforço bastante grande
para defender o cinema nacional. Contamos com ótimos profissionais, com grandes
criadores. Temos uma boa tradição na área e, temos certeza, um povo sedento de
cultura, com vontade de se ver nas telas dos mais variados tamanhos. Sabemos que
os inimigos da cultura nacional são poderosos, mas não invencíveis. Estamos,
aliás, acostumados a combatê-los em diversas frentes, assim como somos
especialistas em detectar os quintas-colunas e os vendilhões assumidos. Mas,
confessamos, para tratar com apedeutas temos uma certa dificuldade. |