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As barbeiragens do BC
LUIS NASSIF (*)
A
redução da taxa Selic em um ponto foi pouco e chegou atrasada. Em dezembro
havia sinais claros de que a economia estava em queda livre. E mesmo assim o
Copom (Comitê de Política Monetária) manteve a taxa de juros inalterada.
A
incapacidade do Banco Central de perceber o que estava acontecendo em tempo
real na economia foi completa.
Em
relação à atividade industrial, o Relatório de Inflação de dezembro enxergou
um “relativo arrefecimento”, mas destacou que “se manteve em crescimento no
trimestre encerrado em outubro”. A autoridade monetária apontou, ainda, que
a atividade deverá seguir em desaceleração nos próximos meses.
Os dados
da Confederação Nacional da Indústria (CNI) referentes a novembro do ano
passado mostraram um tombo de 9,9% frente a outubro e de 7% na comparação
com igual mês de 2007.
Em
relação ao emprego, o Banco Central foi “traído” pela defasagem dos números.
O Relatório de Inflação apontou que “As condições do mercado de trabalho não
evidenciaram de forma expressiva, até outubro, os impactos da intensificação
da crise nos mercados financeiros internacionais, persistindo as trajetórias
de redução na taxa de desemprego, substituição de empregos informais por
postos com carteira assinada e continuidade da incorporação de ganhos reais
aos rendimentos.”
Dados do
Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de dezembro apontaram
para o fechamento de 654,9 mil vagas formais no Brasil no mês de dezembro, o
dobro da média para o mês.
Esses
dados já seriam suficientes para justificar o início da queda da Selic.
Havia outros, bastante concretos.
O pior
impacto da Selic é sobre as contas públicas e sobre o câmbio. Quando as
taxas internas estão muito mais elevadas que as externas, há um aumento do
ingresso de dólares apreciando o real e tornando as exportações mais caras e
as importações mais baratas.
Mas sobre
o nível de atividade o efeito é indireto.
Teoricamente, a alta dos juros aumenta o custo do dinheiro na ponta,
reduzindo as vendas a prazo, a formação de estoques e o nível de atividade.
O custo do dinheiro é formado pela taxa básica mais um spread - em geral tão
elevado que acaba fazendo com que a taxa final seja pouco sensível aos
movimentos da Selic.
A exceção
eram as grandes empresas. Nos meses imediatamente anteriores à crise, o
spread era quase negativo. Depois, da crise, aumentou substancialmente.
Logo, já havia um efeito adicional de aumento de juros na ponta do spread,
permitindo reduzir na ponta Selic.
Desde
outubro, sinais claros de que a atividade estava desabando. Em dezembro, o
BC continua insistindo em atividade econômica robusta, no momento em que
ocorria a maior leva de demissões dos últimos anos.
Os
estoques aumentaram substancialmente e caiu o Nível de Utilização da
Capacidade Instalada (NUCI), dois indicadores que serviam de álibi para a
manutenção de Selic elevada.
É
possível que a economia possa começar a se recuperar a partir do segundo
trimestre. Mas houve mais uma dose adicional de sacrifício inútil por conta
das barbeiragens do BC.
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Texto extraído do blog do jornalista
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