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“Desoneração” leva a menos investimento na economia
O
presidente da Fiesp, Paulo Skaf, declarou sobre as demissões na General Motors,
logo após o governo ter concedido às montadoras um corte no Imposto sobre
Produtos Industrializados (IPI) - corte que fez com que, por exemplo, o IPI
sobre os carros 1.0 seja nenhum - que “não quero crer que isso signifique que
estão salvando empresas com recursos públicos”.
Realmente, a
desoneração – a redução de impostos - não “salvou” as filiais de montadoras
multinacionais. Apenas aumentou seus lucros à custa do dinheiro público, isto é,
de reduzir a arrecadação e de um maior desequilíbrio nas contas do Estado. Nem
por isso, evidentemente, elas pararam de demitir trabalhadores. Aliás, o próprio
Skaf foi o primeiro a declarar que não aceita que em troca da “desoneração” se
faça um acordo para manter empregos.
A questão
consiste em que o motor do crescimento não é, e não pode ser, a “desoneração”,
ou seja, a renúncia do Estado aos recursos com que poderia contar para investir
na economia. Pelo contrário: o principal dínamo do crescimento – em qualquer
país e, sobretudo, em um país com as características do Brasil – é o
investimento público, isto é, o dinheiro do Estado, empregado pelo governo em
obras e empreendimentos produtivos.
Portanto, a
lógica da “desoneração”, ao diminuir a arrecadação e os recursos do Estado, é
oposta ao investimento público. Leva, por consequência, a um enfraquecimento da
capacidade governamental de estimular o crescimento e garantir (ou aumentar) os
empregos. Não se resolverá problema algum da economia – muito menos os que se
referem ao crescimento da produção e do emprego – com “desonerações” sucessivas.
Mesmo sem levar essas “desonerações” às últimas consequências, seu resultado
será o agravamento da crise e do desemprego.
O que não
quer dizer que não seja possível uma estrutura de impostos mais justa, em que as
empresas maiores paguem mais do que as menores e os ricos paguem mais do que os
pobres. No entanto, são as multinacionais e demais monopólios (ou suas
marionetes, do tipo Skaf) que pregam hoje o corte nos impostos que devem pagar.
Ou seja, são aqueles que mais deveriam pagar impostos, pois têm mais poder
financeiro, que querem eximir-se de contribuir para os recursos coletivos da
sociedade, que são concentrados através do Estado - recursos, repetimos, que são
a fonte do investimento público, e, portanto, do crescimento da economia
nacional.
Durante o ano
de 2008, as multinacionais enviaram para suas matrizes quase 34 bilhões de
dólares somente em lucros declarados – sem contar o lucro embuçado em outras
remessas para o exterior. No entanto, são esses os pregadores da “desoneração”,
do corte de impostos – naturalmente, apenas dos impostos que eles são obrigados
a pagar.
É inútil
esperar que redunde em maior nível de emprego a permissão para que grandes
corporações e candidatos autóctones a monopólios caloteiem os impostos. Eles
sempre tentarão não pagar o que devem ao Estado ou não pagar o que devem aos
trabalhadores. Ou, simplesmente, demitir. Porque sua razão de ser está em
maximizar os lucros, seja arrancando o couro dos trabalhadores ou de toda a
sociedade – isto é, do Estado. A questão, repetimos, consiste em que não são o
Estado e os impostos que travam o crescimento das empresas e o aumento dos
empregos. Ao contrário, o Estado, com seus investimentos, é o elemento
estimulador da economia – inclusive, evidentemente, das empresas e dos empregos.
Se o Estado
não estiver em condições de exercer esse papel – se ele não dispuser de recursos
para exercê-lo – não há “desoneração” que faça a economia sair do pântano. No
entanto, é exatamente para isso que tende a “desoneração”. Essencialmente, ela
tem por consequência o enfraquecimento da capacidade de investir do Estado, ao
diminuir a arrecadação e, portanto, os recursos públicos disponíveis. Se o
governo cedesse a todos os corifeus da “desoneração” acabaria sem ter como
investir. Aliás, acabaria sem ter como governar. Mas isso teria como
consequência a catástrofe econômica. Sobretudo em caso de crise. Da mesma forma
que ninguém espera que um sujeito atolado na lama saia de lá puxando os próprios
cabelos, ninguém espera que as empresas saiam da recessão por si sós, sem a ação
do Estado, deixando-o sem ter como investir no crescimento.
A rigor, o
que se chama “desoneração” é uma privatização dos recursos coletivos da
sociedade, concentrados, através dos impostos, pelo Estado. Em suma, o dinheiro
que teria de ser passado ao Tesouro para que a sociedade possa investi-lo,
torna-se uma propriedade particular de poucos, muito poucos. A “desoneração”
equivale, portanto, a passar a alguns poucos monopolistas os recursos que são de
todos. Isso, que normalmente é a ante-sala da crise, quando esta já está
instalada, torna-se um fator de agravamento, causando mais desemprego e
conduzindo à recessão – pela escassez de investimentos públicos e pela
concentração dos recursos da sociedade na mão de um punhado de aproveitadores.
CARLOS
LOPES
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