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Brasil
rechaça apreensão de fármaco pela Holanda
Governo dos Países Baixos se presta a ação ilegal para acoitar patente
do monopólio americano Merck
O
governo brasileiro rechaçou a retenção, na semana passada, de uma carga
do medicamento genérico Losartan no porto de Roterdã, na Holanda, que
tinha como destino o Brasil. O medicamento, produzido na Índia, havia
sido importado pela farmacêutica nacional EMS. Após intervenção do
Brasil, com apoio de países da América Latina, Caribe, e Ásia, na
Organização Mundial de Saúde (OMS), a carga foi liberada, mas teve que
retornar a seu país de origem.
O medicamento, utilizado contra a hipertensão,
foi retido na Holanda a pedido da transnacional Merck Sharp & Dohme, que
detém a patente do medicamento no país europeu. Brasil e Índia não
reconhecem a patente.
“O governo brasileiro estima que a decisão das
autoridades holandesas de reter um insumo estratégico para a Saúde
Pública de um país em desenvolvimento, exportado em conformidade com as
normas internacionais vigentes, assinala um grave retrocesso no trato da
questão do acesso universal aos medicamentos”, diz trecho da nota
oficial assinada pelo Itamaraty e pelo Ministério da Saúde.
“No Brasil, como na Índia”, segue a nota, “o
produto não é protegido por patente e pode ser importado livremente,
respeitada a legislação sanitária aplicável. Há, hoje em dia, no mercado
brasileiro, inúmeros produtos genéricos produzidos a partir desse
princípio ativo”.
A alegação do laboratório transnacional para a
retenção da carga na Holanda é de que se tratava de medicamento
falsificado. O governo brasileiro ressaltou que “a fabricação do
Losartan na Índia dá-se ao abrigo dos dispositivos legais internacionais
que protegem a propriedade intelectual no setor de medicamentos, em
particular aqueles previstos no Acordo TRIPS (Acordo sobre Aspectos dos
Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio, da
Organização Mundial do Comércio)”.
Ainda segundo o Itamaraty, o “governo brasileiro
deixará claro, perante a comunidade sanitária mundial, seu
descontentamento com a ação no Porto de Roterdã, que põe em dúvida o
compromisso dos países europeus com o acesso das populações dos países
em desenvolvimento aos medicamentos”.
Junto à OMS, Estados Unidos e Europa tentam
alterar a definição do que seria remédio falsificado, para assim
permitir a apreensão de genéricos. Na reunião do organismo, realizada na
sexta-feira, o Brasil conseguiu impedir a revisão da definição. “O caso
deve ser visto ainda à luz dos rumos que tem tomado a iniciativa IMPACT
(Força Tarefa Internacional contra os Produtos Médicos Falsificados)
quando, a pretexto de combater os medicamentos falsificados, tenta impor
a revisão da definição da Organização Mundial da Saúde na matéria, de
modo a inibir o comércio legítimo de medicamentos genéricos, de
qualidade e preços competitivos”.
A alteração da definição pleiteada pelos EUA e
Europa tem como objetivo classificar medicamento genérico como
falsificado, fazendo com que cargas de genéricos sejam apreendidas
quando passarem por portos de países que reconhecem as patentes, como
ocorreu na Holanda.
O Losartan é usado no tratamento de pacientes
que sofrem de hipertensão e, segundo a nota da chancelaria brasileira,
“no Brasil, a hipertensão é uma das principais causas de doença e morte,
e a maioria dos pacientes depende do Sistema Único de Saúde para se
tratar”. Além do Losartan, o Brasil importa da Índia outros medicamentos
vitais, como o Efavirenz e o Abacabir, utilizados no tratamento da Aids.
“O Brasil defende a primazia da saúde sobre o
comércio, como prevêem as próprias regras da OMC. A Declaração de Doha
sobre TRIPS e Saúde Pública deixa claro que a proteção dos direitos de
propriedade intelectual não pode e não deve impedir a adoção de medidas
para proteger a saúde pública. A Declaração também afirma o direito de
os países usarem plenamente as flexibilidades do Acordo TRIPS para
garantir o acesso universal aos medicamentos”, diz a chancelaria
brasileira.
A EMS
agradeceu o empenho do governo no caso. “O Itamaraty e o Ministério da
Saúde, cientes da situação, prontamente adotaram as iniciativas cabíveis
nesse âmbito, com a reconhecida competência e capacidade diplomática”,
diz nota divulgada pela farmacêutica. “Estamos certos de que, em um
curto espaço de tempo, irregularidades como essas serão reparadas”,
concluiu. De acordo com o Ministério da Saúde, o incidente não ameaça o
abastecimento do mercado brasileiro de genéricos para tratamento de
hipertensão arterial. |