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Busatto:
‘Ficou claro com essa crise que o mercado não é capaz de se auto-regular’
O economista Cézar Busatto, ex-deputado e
ex-secretário municipal de Porto Alegre e do Estado do Rio Grande do Sul, lançou
recentemente o livro Um Voluntário na Campanha de Obama, onde apresenta sua
experiência vivida na recente campanha eleitoral norte-americana. Em entrevista
à sucursal de Porto Alegre da Hora do Povo, Busatto comenta as perspectivas dos
EUA após a eleição de Obama e a situação econômica brasileira.
Hora do Povo – O que podemos esperar
do novo presidente norte-americano?
Cézar Busatto – Em primeiro lugar, há uma
mudança de pensamento em relação ao mundo, à economia e à sociedade. Em relação
ao mundo é uma mudança de pensamento no sentido de compreender que os Estados
Unidos já não são mais uma nação que tem condições de praticar uma política
hegemônica, como tentou fazer o governo Bush nos últimos oito anos, mas, diante
da nova correlação de forças que existe hoje, com o fortalecimento da China, da
União Européia, da Rússia e de outros países importantes – entre os quais o
próprio Brasil –, os Estados Unidos têm que passar a ter uma nova atitude
multilateral baseada na negociação, não pela imposição. Isso não significa que
não possa haver problemas em algum lugar do mundo, mas significa que nós teremos
um período em que vai predominar uma ação voltada para construção de relações
baseadas na negociação.
HP – E na economia, o que esperar de
Barack Obama?
Busatto – O Obama, ao ganhar a eleição,
vai começar a implantar uma nova concepção econômica baseada na necessidade de
regular o mercado, que impõe ao mercado restrições, porque ficou claro com essa
crise que o mercado não é capaz de se auto-regular, ele não gera equilíbrio.
Pelo contrário, ele gera desequilíbrios cada vez maiores e vai tender a crises
mais profundas.
HP – E quanto ao funcionamento
político da sociedade?
Busatto – Há claramente por parte do
Obama uma visão de aprofundamento do processo democrático, dando muito mais
possibilidades da sociedade, do cidadão, influenciar nos rumos das decisões
políticas que vão ser tomadas. Então, é uma aposta na mobilização e na
organização das pessoas, das comunidades, para que sejam os verdadeiros
artífices, a força motriz de uma nova etapa de desenvolvimento e de democracia
nos Estados Unidos.
HP – Como será possível aos EUA sair
da atual crise?
Busatto – É preciso que o Estado entre no
processo econômico com massivos investimentos, de tal maneira a retomar a
dinâmica econômica pela linha do aumento do investimento público produtivo, que
é um investimento em pontes, em estradas, em hospitais, em escolas, em asilos
para os idosos, em aumento dos investimentos em novas tecnologias, em
investimentos em novas fontes de energia. Isto também é uma ruptura de cento e
oitenta graus com a visão neoliberal de que o Estado tem que ficar fora da
economia, que o mercado se auto-regula, etc... Deixadas as coisas como estão, a
tendência é crescer ainda mais o desemprego nos Estados Unidos, causando não só
uma brutal crise social, mas também o aumento da violência, desestruturação
familiar, e outras consequências absolutamente perversas para a sociedade – e
que são muito mais caras para a sociedade do que gastar o recurso público em
investimento produtivo para conter esse desemprego.
HP – O Brasil se mantém com a mais
alta taxa de juros reais do mundo. Existem justificativas para a manutenção
dessa taxa de juros?
Busatto – Absolutamente nenhuma. É um dos
episódios mais incompreensíveis da situação econômica brasileira o fato de um
país com as dimensões continentais do Brasil, com o mercado consumidor e com as
potencialidades de crescimento e desenvolvimento que tem o Brasil, sustentar até
hoje as taxas de juros mais altas do mundo. É um caso que mereceria um exame
mais profundo, uma investigação da sociedade, do Congresso Nacional para saber
quais são as razões que levam um país como o Brasil a ter que sustentar taxas de
juros de 13% ao ano. Se você desconta a inflação, nós temos taxas de juros reais
de cerca de oito por cento ao ano. O segundo país com taxas de juros mais altas
hoje me parece que é a Turquia com algo em torno dos 6,5%, depois vem o México
com cerca de 2,5%. Enfim, é uma situação insustentável. O mais incrível disso
tudo é que claramente nós vemos que o Banco Central, a política monetária, está
completamente de costas para a política de expansão e desenvolvimento que o
presidente Lula está praticando. Ou seja, temos de um lado um presidente que
quer expandir a economia do país, que faz investimento público no máximo das
suas possibilidades com o PAC, que tem compromisso com a classe trabalhadora
para evitar níveis de desemprego maiores no Brasil e, no entanto, diante dessa
crise que está aí, é incompreensível que se mantenha uma política monetária tão
restritiva e tão conservadora. Se hoje os países desenvolvidos praticam taxas de
juros de zero por cento nominal, ou seja, taxas de juros negativas em termos
reais, com que justificativa nós temos aqui taxas de juros reais de oito por
cento ao ano? Só para poder estimular a atração de capital financeiro
especulativo para o país? Atração de capital financeiro especulativo para o país
não garante que nós tenhamos um desenvolvimento mais intenso nem redução do
nível de desemprego. Mas se você baixa substancialmente as taxas de juros, reduz
o custo do dinheiro, você tem um grande estímulo à expansão econômica, não só
nas grandes empresas, mas também nas pequenas, não só no investimento produtivo,
mas no consumo das famílias, pois vai baixar o custo do crédito em geral. Então,
o preço do dinheiro no Brasil é o maior entrave ao desenvolvimento brasileiro
neste momento.
HP – Você defende, então, a
intervenção do governo brasileiro na política de juros do Banco Central?
Busatto – Fortemente. O desenvolvimento é
uma questão política. Tem quem diga que tem que deixar as livres forças do
mercado atuar. Olha o que aconteceu com as livres forças do mercado atuando.
Olha a crise que geraram! Se não é a entrada do governo para salvar os bancos
estava tudo quebrado. Se não é o governo entrar com um pacote de expansão do
investimento nós vamos ter índices de desemprego insuportáveis do ponto de vista
da sociedade dos Estados Unidos. Então é hora de nós politizarmos a questão do
desenvolvimento. O desenvolvimento é uma questão que tem que ser resolvida pela
sociedade, pelo governo, pelas forças democráticas, discutindo profundamente as
estratégias a cumprir. A economia tem que estar a serviço da sociedade e não a
sociedade a serviço dos interesses dos grandes grupos econômicos nacionais e
internacionais. |