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A democracia tucana no
Estado de São Paulo
EMERSON LEAL*
Mais uma vez os tucanos de alta plumagem paulistas
demonstram seu extraordinário ‘apreço’ pela democracia. Desta vez, o ‘facão’
cortou o pescoço de outro respeitado articulista brasileiro: Luiz Nassif (não
faz muito Paulo Henrique Amorim também foi ‘agraciado’ da mesma forma pela
censura tucana). É incrível a intolerância dos caciques do PSDB para com os
críticos de seus governos. Exagero? Acho que não. Vejamos alguns exemplos, apud
Altamiro Borges.
1. – Luiz Nassif – jornalista de renome e conhecido por sua coragem e
independência – não teve seu contrato renovado (ou seja, foi demitido) pela TV
Cultura, emissora controlada pelo governo do Estado. Qual o motivo de o
governador José Serra, sem nenhuma explicação, ter pedido sua cabeça? Simples,
diz o jornalista: “2010 já começou, este é o ponto!”. A gota d’água parece ter
sido a pergunta feita por Nassif: “Como pode uma empresa com atuação estadual,
como a Sabesp, patrocinar eventos de televisão no Brasil inteiro?”. Ou seja, a
campanha presidencial do Serra já começou e com vultuosos recursos públicos;
2. – Rodrigo Viana é aquele ex-jornalista da Rede Globo que, indignado com as
‘censuras internas e com as manipulações’ nas eleições de 2006, desligou-se da
emissora. Rodrigo comenta agora o episódio de demissão, em outubro passado, do
jornalista Sidney Rezende, da rádio CBN, por exigência do governador do Estado
José Serra. O Sidney era um jornalista que se esforçava em exercer sua
independência como jornalista. “Na sua demissão – diz ele – se percebem os
preparativos para a cobertura das eleições de 2010. Na CBN conheço um outro
âncora (não darei o nome porque ele me pediu sigilo) que teve sua cabeça pedida
pelo governador”;
3. – Rodrigo lembra também da demissão do jornalista Franklin Martins da Rede
Globo “porque ele não fechava com a linha oficial de ‘sentar a pancada’ em Lula
e dar uma ‘mãozinha’ aos tucanos. Depois, foram limados outros jornalistas que
se indispuseram com a emissora na cobertura das eleições, entre os quais eu, o
Luiz Carlos Azenha, o Carlos Dornelles e o editor de política Marco Aurélio
Mello”;
4. – Ao comentar sobre o ‘apoio total’ da grande mídia ao governador Serra,
Rodrigo Viana chama a atenção para o fato de que o diretor-executivo de
jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, não permite que saia publicado absolutamente
nada sobre o governador de São Paulo sem o aval prévio dele (Kamel). O mesmo
tipo de orientação ocorre na Folha de S.Paulo. A propósito, já chamei a atenção
em meus artigos para a declaração de Otávio Frias, de que ‘só morreria feliz
quando Serra fosse presidente’ do País. Daí a ‘generosidade da mídia hegemônica’
na cobertura da ‘guerra dos policiais’ – isentando o governador de qualquer
culpa – ou na desastrosa operação policial no caso do seqüestro e morte de Eloá
Pimentel;
5. – Se, por um lado, a mídia monopolista só fala maravilhas sobre as obras do
Rodoanel, sem criticar o seu ‘monumental’ atraso e seu altíssimo custo, por
outro, cala-se totalmente sobre as suspeitas de falcatruas nas licitações da
concessão das rodovias Ayrton Senna e Marechal Rondon ou sobre as
irregularidades denunciadas pelo TCE ocorridas no edital para as obras na
Marginal Tietê;
6. – A mídia tem feito ouvidos de mercador em outro assunto também: nas
suspeitas do Ministério Público de que teria havido superfaturamento nos quatro
contratos da Siemens alemã com o governo do Estado para a construção de três
linhas do Metrô, bem como de que políticos do PSDB teriam sido subornados pela
empresa. Idem sobre o pagamento de propina a políticos tucanos na questão da
Alstom, já comentado por mim neste espaço.
O incrível é que todo mundo se cala. Até mesmo os
jornalistas, colegas de Luiz Nassif, permitindo-nos ter uma idéia da dimensão
real de nossa frágil democracia. Lamentável!
* é Doutor em Física Atômica e Molecular e vice-prefeito de São Carlos. |