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Quando ler jornal faz mal ao fígado... (1)
O
argumento de que não pode haver discernimento da realidade sem a leitura também
pode conter uma injusta soberba acadêmica para com esta grande maioria de
brasileiros, hoje ainda proibida da leitura de jornais e livros por razões
fundamentalmente sócio-econômicas
BETO ALMEIDA*
Ao declarar à Revista Piauí de
janeiro que não lia jornal porque sofre de azia, Lula talvez tenha deixado
muitos jornalistas perplexos e desapontados. E também intelectuais
inconformados. Roberto Damatta, por exemplo, reagiu num típico “pito acadêmico”
proclamando, em artigo publicado no Estadão, que não se pode ter discernimento
da realidade sem a leitura, mas parece tomar uma crítica informal de Lula a um
certo jornalismo como se fosse uma aversão à leitura em geral. Ao repreender
Lula porque este parece “estar seguro de que é mesmo possível saber das coisas
por tabela e em segunda mão, por meio de olhos alheios”, Damatta talvez polemize
mais com Schopenhauer do que com o presidente. O célebre filósofo alemão também
já havia causado muita celeuma, há mais de século, quando levantou dúvidas
acerca da possibilidade de uma correta compreensão da realidade unicamente a
partir da leitura, pondo em dúvida a qualidade dos textos, inclusive nos
jornais. Questionando aqueles que absolutizam a leitura, Schopenhauer afirma que
“assim como a leitura, a mera experiência não pode substituir o pensamento”. E
para aqueles, como Damatta, que deploram os que não lêem e porque aprenderiam
por tabela, o pensador germânico sustenta ainda que “um livro nunca pode ser
mais do que a impressão dos pensamentos do autor”, alertando que “quando lemos,
somos dispensados, em grande parte, do trabalho de pensar” e que, “a nossa
cabeça é, durante a leitura, uma arena de pensamentos alheios”. Citá-lo não
significa defender suas posições históricas, mas adicionar elementos na polêmica
atual, quando vivemos na “idade mídia” sob intenso dilúvio informativo, com
variadas possibilidades de informação. A celeuma levanta também reflexões
interessantes, não só comentários injustos, já que Lula não fez nenhuma apologia
da não-leitura, e sim uma crítica ao jornalismo atual. E o fez ao seu modo, com
um raciocínio nada convencional, porque é o raciocínio simples e direto
sintonizado e compreendido pela grande massa da população, que durante toda uma
vida também foi praticamente proibida da leitura. Assim, poderíamos partir do
princípio de que, tal como a esmagadora maioria do povo brasileiro, o presidente
Lula também não lê jornal. E confessa. As razões são múltiplas e até diferentes
em cada caso.
O argumento de que não pode haver
discernimento da realidade sem a leitura também pode conter uma injusta soberba
acadêmica para com esta grande maioria de brasileiros, hoje ainda proibida da
leitura de jornais e livros por razões fundamentalmente sócio-econômicas. É
injusta porque ignora ou despreza outras modalidades de discernimento,
interpretação e ação transformadora das grandes massas sobre esta mesma
realidade. Segundo estatísticas da UNESCO - talvez não sejam as mais atuais - a
taxa de leitura de jornais e revistas no Brasil é inferior à da Bolívia, país
mais pobre da América do Sul, mas que acaba de realizar uma façanha que exige
reconhecimento de todos nós: a Bolívia foi declarada, no dia 20 de dezembro
último, pela mesma UNESCO “Território Livre do Analfabetismo”. Segundo a Agência
da ONU, enquanto no Brasil são lidos apenas 27 exemplares de jornais ou revistas
por cada grupo de 1 mil leitores, na Bolívia, são 29 exemplares. Talvez, o que
devesse merecer mais a preocupação da academia é o fenômeno da leitura-proibida,
um sistema que torna difícil o acesso dos brasileiros à leitura, que não educa
leitores, que não democratiza livros, ao invés de uma quase
indignada/desconcertada reação diante da evidente crítica feita pelo presidente
Lula à qualidade do jornalismo praticado no Brasil.
Será que a informalidade da
crítica de Lula - preciosa característica do presidente, sobretudo quando a
cultiva no exercício do cargo - a um certo jornalismo que já chegou a entrar de
modo desrespeitoso e arrasador na vida pessoal e familiar do presidente em sua
primeira campanha, ao mesmo tempo que preservou obedientemente outros
presidentes do mesmo desconforto, não tem razão de ser? Estaria, afinal, acima
de críticas um jornalismo que tem reiteradamente operado mais como desinformação
da sociedade do que como a instrumento de comunicação social, tal como
estabelecido pela Constituição Federal?
OUÇA UM BOM CONSELHO
Tomemos alguns casos recentes de
“jornalismo que faz mal ao fígado”, alguns já argumentados pelo próprio
presidente, para alargarmos este debate.
Quando o governo brasileiro propôs
à Unasul, em sua primeira reunião, a formação de um Conselho de Defesa
Sul-americano, praticamente todos os jornais estamparam, com fartura, que a
proposta havia sido derrotada, rejeitada, um fiasco, afinal. Pouco tempo depois,
a proposta do Conselho, debatida e examinada com tempo pelos governos, foi
oficialmente aprovada e é hoje uma realidade. Mais do que isso, tem a
importância histórica de ser uma entidade sem a presença dos EUA, que sempre
tutelaram a região com ferro e fogo das ditaduras, mas também, de representar um
esforço coordenado de recuperação da indústria bélica regional, com a relevância
intrínseca - ainda mais destacada por vivermos num mundo de sombras, tensões e
violência - de promover independência tecnológica setorial. Afinal, um país sem
defesa não tem soberania! Será que os jornais que manchetaram “o fracasso do
Conselho” estariam agora dispostos a confessar seu equívoco e reavaliar a
informação defeituosa que difundiram? E a esclarecer, com informações verazes, o
significado de reorientação estratégica que a nova entidade tem, sobretudo
quando os países emergentes foram praticamente obrigados a aceitar a demolição
de suas políticas de defesa e de suas indústrias bélicas? Alguém sabe informar
se o Procon também cuida de informação com defeito???
A FAZENDA QUE NÃO FOI VENDIDA
Um segundo caso diz respeito
também à família do presidente, sempre alvo de comentários preconceituosos, como
de resto os que se lançam também contra o presidente Evo Morales, por ser
indígena, ou ao presidente Hugo Chávez, por suas características étnicas e sua
origem militar. Refiro-me à “notícia” de suposta compra de uma grande fazenda
por um dos filhos do presidente Lula. Até mesmo o portal da Central de Mídia
Independente reproduziu a suposta transação, acompanhada de inúmeros comentários
insultantes e ofensivos ao presidente Lula. E mesmo depois que, numa
pequeníssima nota da Agência Estado, o proprietário da referida fazenda
esclarecia que já estava cansado de atender jornalistas ao telefone e desmentir
cabalmente que tenha vendido o imóvel para o filho do presidente ou para
qualquer outro, mesmo assim, nem a Central de Mídia Independente dignou-se a
corrigir seu erro de difundir versões de um “jornalismo que faz mal para o
fígado”, mantendo, até bem pouco tempo no portal, a falsa notícia da compra da
fazenda, e a mesma coleção de insultos ao presidente. Nem os outros veículos
cuidaram de divulgar as declarações do verdadeiro proprietário do imóvel
desmentindo a transação. Qual o nome que deve ser dado a este “jornalismo”? Ou
melhor, será isto jornalismo? Mas que dá azia... isso dá.
ONDE ESTÃO OS PROFETAS DO
CALOTE
Mais recentemente, o Globo
estampou em primeira página manchete sobre a preparação de um calote do Equador
contra o Brasil, insinuando que até mesmo funcionária da Receita Federal
brasileira havia sido cedida para trabalhar nesta operação, cujo intuito seria o
de evitar que os financiamentos feitos pelo BNDES ao país andino fossem
saldados. Gravíssima acusação: o governo cederia uma funcionária para preparar
calote contra ele. Mas, o jornal não publicou o pedido de direito de resposta da
funcionária da Receita informando objetivamente que não tinha prestado qualquer
consultoria técnica relativa a financiamentos brasileiros ao Equador, mas sim à
Auditoria da Dívida Privada que está curso naquele país, uma decisão de Estado
inscrita na Constituição, tal como consta das Disposições Transitórias de nossa
Constituição a realização de uma auditoria da dívida. No fundo, este é o temor
dos banqueiros refletido por este jornalismo que dá azia. Um jornalismo que
cuida de preservar os indecentes privilégios que o setor financeiro tem no mundo
da economia, da especulação, que despreza o valor do trabalho, transformando o
sistema bancário mundial numa bancocracia ou verdadeiro cassino, como também
lembrou o presidente. Há quanto tempo não temos um presidente que chama as
coisas pelo verdadeiro nome!!!! Pois bem. Especulou-se no jornal, depois no
rádio, depois na tv, sobre o calote equatoriano ao Brasil. O jornalismo aziago
teve todo o espaço do mundo, consultores ligados aos bancos foram
hiper-entrevistados, repetiram-se, anunciaram o caos. Mas, quando na semana em
que o Governo Equatoriano pagou a parcela de 243 milhões de dólares da dívida
para com o BNDES, os profetas do calote se calaram, os consultores desapareceram
e o Globo não informou aos seus leitores, com a mesma importância que havia dado
inicialmente ao tema, que não houve calote. Eis aqui um exemplo de como a
leitura de jornal também pode não conduzir a um correto discernimento da
realidade...
JORNALISMO DA DESINTEGRAÇÃO
Muitos exemplos justificam uma
maior reflexão e elaboração sobre o que vem a ser um jornalismo de
desintegração, aquele que desconsidera ou não informa sobre a implementação de
medidas reais, de Estado, visando a integração regional latino-americana. A este
jornalismo da desintegração, que também pode causar azia, que decreta
editorialmente que a integração é apenas retórica diletante do Itamaraty,
deve-se contrapor com um jornalismo de integração, ainda por ser elaborado, mas
que tem como sustentação teórica, histórica e política nada menos que a
Constituição, na qual está consolidado que a construção de uma integração
latino-americana baseada na solidariedade, na economia, na cultura, na
informação é um objetivo da República Federativa do Brasil. Claro, o jornalismo
que faz mal ao fígado prefere apenas cultuar e pôr em prática o artigo 166 da
Constituição, aquele que sacraliza a gastança com os serviços da dívida,
tornando-os mais importante do que merenda escolar, saúde pública, habitação
popular, previdência social etc. Contra esta gastança, esta verdadeira
esterilização de recursos públicos nos juros da dívida, o jornalismo aziago nada
informa. Quando o Brasil realizou com sucesso o teste do Veículo Lançador de
Satélites, em dezembro, a mídia não noticiou, ignorando a dimensão deste fato,
quando apenas um clube fechado de países tem acesso ao mundo da estratégica
economia satelital. Tal como ignorou quando a Venezuela, recentemente, lançou o
satélite Simon Bolívar, preferindo ironizar que Chávez tenha declarado que é um
satélite socialista. Sim, será colocado à disposição de países pobres para a
cooperação. Onde cabe a ironia? Ambos os casos são de avanço da independência
tecnológica.
Aliás, foi necessário um
“presidente que não lê”, conforme define o acadêmico Damatta, para que o idioma
espanhol tenha se transformado em matéria obrigatória nas escolas básicas
brasileiras, com indiscutível impulso à integração latino-americana, como também
para que o Brasil assumisse a construção da Unila (Universidade da Integração
Latino-Americana), assim como a Universidade da África, em Redenção, cidade
cearense, pioneira na abolição da escravatura. Mas, para o jornalismo da
desintegração tudo isto é apenas retórica itamarateca terceiro-mundista. Até
mesmo a retirada do dólar nas operações comerciais Brasil-Argentina, a
cooperação entre os dois vizinhos na construção de um carro de combate, na
indústria aeronáutica e na esfera nuclear, ou a participação brasileira na
construção de um gasoduto na argentina, ou nas obras de infra-estrutura no Peru
e Bolívia, na construção da estrada que ligará finalmente o Atlântico ao Oceano,
a presença da Embrapa na Venezuela ou no Timor Leste, da Petrobrás em Cuba, tudo
isto, apenas retórica. Farta-se de repetir o jornalismo que faz mal ao fígado.
Mas, quando aquele chanceler de sobrenome judeu tirou o sapato ante as ordens de
um guardinha da alfândega dos EUA, este mesmo jornalismo tangenciou a simbologia
do gesto. Como qualificar? Vocação para a vassalagem???
Muito ainda precisa ser feito para
que o Brasil supere seus níveis indigentes de leitura, sobretudo no campo das
políticas públicas. É motivo de preocupação a monopolização do setor editorial,
sobretudo a do livro didático, bem como sua desnacionalização e controle por
editoras estrangeiras muito próximas da Opus Dei. Mas, são salutares e devem ser
expandidas fortemente as políticas públicas já implementadas pelo governo Lula e
governos como o do Paraná para assegurar o livro didático público e gratuito aos
milhões. Estamos na era das mudanças e na mudança de eras também quando o país
mais pobre da América do Sul, a Bolívia, consegue extirpar a praga do
analfabetismo ou quando a Venezuela, também declarada território livre do
a-nalfabetismo pela Unesco, distribui gratuitamente 1 milhão de exemplares do
livro “Dom Quixote”, de Cervantes, “Os miseráveis”, de Vitor Hugo, “Contos”, de
Machado de Assis, este com uma distribuição gratuita de 300 mil exemplares.
Basta informar que a tiragem padrão de livros no Brasil é de apenas 3 mil
exemplares. Segundo a Unesco, Cuba chegou a publicar, em 1986, 480 milhões de
exemplares de livros num ano, quando sua população era de apenas 10 milhões de
habitantes. Ainda temos muito que aprender, muito por fazer nesta área.
A DIALÉTICA DO RETIRANTE
Mas, esta dívida
informativo-cultural despejada pelas elites sobre o povo brasileiro, proibindo-o
da leitura, não deve ser mecanicamente dimensionada como um obstáculo
intransponível para que os milhões e milhões que não leem jornal ou qualquer
coisa não tenham um discernimento adequado da realidade. Talvez não tenham o
“discernimento” que segmentos das elites, econômica ou cultural, gostariam que o
povo tivesse, sobretudo para uma escolha eleitoral sintonizada à linha editorial
do jornalismo que faz mal ao fígado. Realmente, a maioria do povo, tal como o
presidente Lula na sua dialética de retirante, foi obrigada a desenvolver uma
interpretação realista do mundo para salvar a própria vida. Lula declarou
recentemente que quando um nordestino, nem ele consegue vencer a pena de morte
da elevada taxa de mortalidade infantil no nordeste “torna-se um encrenqueiro”.
Para os que admiram o fato de que ele tenha levado 13 dias de viagem num
pau-de-arara para ir de Garanhuns a São Paulo, dormindo ao relento e cozinhando
com as águas barrentas do Velho Chico, ele lembrou que seus tios, que também não
liam jornal, já tinham feito o mesmo percurso, mas em seis meses, porque o
fizeram a pé!!!! São atos heróicos que apontam para uma outra leitura do mundo,
a partir da dialética do retirante, tão capaz de permitir um real discernimento
da vida como capaz de permitir que salvassem suas próprias vidas e
permitindo-lhes progredir na mobilidade social, superar os estágios de
sobrevivência vegetativa quase animalesca a que estavam condenados no nordeste
sem água, sem terra, sem trabalho e sem nada!!! E sem jornal para ler...
Talvez, alguns círculos acadêmicos
irritem-se ainda mais com esta abordagem e a condenem como elogio à não-leitura.
Mas, o que se trata de argumentar aqui é que para aqueles milhões de brasileiros
condenados à não-leitura, por razões do elitismo sócio-econômico, não há outra
saída que não inventar uma forma nova de ler o mundo, de caminhar na vida, de
discernir, sim, a realidade e de uma forma tão eficiente que lhes permitiu, no
caso de Lula, sair da indigência do sertão, preparar a si próprio para escapar
da pena de morte da fome, preparar coletivamente a classe trabalhadora para
fazer política, construir instrumentos como o PT e a CUT para que viabilizar o
protagonismo dos próprios trabalhadores na política e alcançar a Presidência da
República. E o fez não exatamente a partir da leitura de jornal, mas
informando-se profundamente sobre o funcionamento da sociedade. Afinal, nem
sempre ler jornal é informar-se. Em muitos casos, como vimos acima, é exatamente
o contrário. A provocação de Schopenhauer ainda está bailando por aí. E ele
acrescenta: “há eruditos que ficam burros de tanto ler”.
*Presidente da TV Comunitária
de Brasília |