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Monopólios internos recebem 47% e externos 30% dos recursos do BNDES
Três
empresas públicas receberam apenas 3,06% do total liberado no mesmo período
Frequentemente, nas declarações de líderes
empresariais brasileiros – sobretudo na área de máquinas e equipamentos, mas
também na CNI – temos a sensação de que as empresas nacionais se dividem em duas
categorias: aquelas que têm acesso ao BNDES e aquelas que não têm acesso ao
BNDES. Mas, se é assim, quais são as empresas que têm acesso ao banco público
que foi fundado, exatamente, com a missão de suprir as empresas nacionais de
recursos para investir na expansão de sua capacidade produtiva?
Muito poucas. Neste quinto artigo de nossa série
sobre os financiamentos do BNDES, consideraremos o total dos recursos liberados
entre outubro de 2008 e março de 2009 nas áreas “industrial”, “de infraestrutura”
e “de insumos básicos”, tanto sob a forma de operações diretas (empréstimos
feitos no próprio BNDES) quanto sob a forma de operações indiretas (empréstimos
do BNDES feitos através de um intermediário, um banco credenciado, ou através do
Cartão BNDES).
Nesse período, o BNDES liberou, ao todo, R$
26.857.404.696 (26 bilhões, 857 milhões, 404 mil e 696 reais).
Não é pouco dinheiro. Sobretudo considerando um
período de cinco meses. Bem aplicados, isto é, bem distribuídos, esses recursos
seriam um fator poderoso para impulsionar a indústria nacional com base no
mercado interno, impedindo a contaminação do país pela crise norte-americana, ao
manter o crescimento.
PIB
No entanto, não foi isso o que aconteceu. O
investimento das empresas foi estrangulado. O bloqueio do crédito, antes que a
ação dos bancos públicos se fizesse sentir, os juros altos e a sobrevalorização
do real completaram o serviço. Em suma, ao mesmo tempo que nossas exportações
eram travadas, a produção para o mercado interno não foi devidamente estimulada.
O resultado são as atuais perspectivas para o crescimento em 2009, divulgadas
pelo governo, nada animadoras – anuncia-se que o crescimento do PIB poderá ser
negativo, ou seja, que poderá haver retrocesso na economia.
Ainda que sejamos partidários decididos do
crescimento, ou por isso mesmo, é forçoso reconhecer que estes problemas não são
surpreendentes quando descobrimos que 77,66% desses quase 27 bilhões que o BNDES
liberou durante o período em que a crise eclodiu nos EUA e espalhou-se pelos
países centrais, ficaram com 19 grupos monopolistas estrangeiros e 7 grupos
monopolistas internos. Ou seja, 26 grupos, alguns deles entrelaçados, ficaram
com quase todos os recursos destinados ao investimento das empresas.
Os empresários nacionais têm, portanto, toda
razão. Só não sabíamos – e, provavelmente, nem eles – que os grupos que ficam
com o dinheiro do BNDES, dinheiro que tem origem no Fundo de Amparo ao
Trabalhador (FAT) e no Tesouro, eram tão poucos.
Os 19 grupos monopolistas estrangeiros levaram
R$ 8.205.910.795 (8 bilhões, 205 milhões, 910 mil e 795 reais), ou 30,48% do
total (v. tabela 2).
Os 7 grupos monopolistas internos levaram R$
12.680.529.701 (12 bilhões, 680 milhões, 529 mil e 701 reais), ou 47,18% do que
o BNDES liberou no período (v. tabela 3).
ESTATAIS
Para que o leitor possa fazer uma comparação
mais precisa: apenas 3 empresas públicas, estatais, receberam financiamentos do
BNDES no mesmo período - a Companhia Mexilhão do Brasil, que é uma subsidiária
da Petrobrás, a Copel e a Cemig. As três juntas receberam 3,06% dos recursos (v.
Tabela 4).
E, se considerarmos os empréstimos mais
importantes (acima de R$ 100 milhões – v. tabela 1) a concentração dos
financiamentos do BNDES em poucas empresas e pouquíssimos grupos empresariais é
mais lastimável ainda.
Ressaltamos que, ao classificar os grupos
monopolistas internos, nós retiramos da categoria todos aqueles que, apesar de
sua evidente e sôfrega tendência monopolista, bastante açulada pela atual
diretoria do BNDES com sua estúpida e estéril política de formar “multinacionais
brasileiras”, são ainda aspirantes a esse duvidoso título. Por isso não foram
considerados monopólios os grupos Independência, Bertin, Equipav, Alusa,
Tejofran e outros.
Mesmo assim, considerando como monopólios
internos apenas àqueles sobre os quais não pairam dúvidas – Votorantim,
Odebrecht (só ou em associação com a Andrade Gutierrez), Vale, CSN e CCR – eles
levaram quase metade dos recursos emprestados pelo BNDES entre outubro e março.
Somente a associação Odebrecht-Andrade Gutierrez para explorar a hidrelétrica de
Santo Antônio ficou com 22,84% dos recursos (R$ 6.135.172.400).
[A propósito, o BNDES acaba de anunciar que
concedeu R$ 7,2 bilhões para o grupo franco-belga Suez explorar (não se trata
meramente de construir, mas de explorar sob concessão) a hidrelétrica de
Jirau... Na prática, isso significa que o investimento da multinacional na
hidrelétrica será feito com dinheiro do BNDES, isto é, com dinheiro do FAT e do
Tesouro, podendo pagar o empréstimo com o que extrair das tarifas da energia que
Jirau produzirá. Sim, leitor, é verdade: desse jeito qualquer um constrói
hidrelétrica. Resta saber, já que o Estado pagará por tudo, e antecipadamente,
por que ele não constrói e explora essa hidrelétrica, ao invés de depender de um
grupo estrangeiro notoriamente predador.]
Resumidamente: depois de contemplados os
monopólios internos, os externos e distribuído um óbulo para três estatais,
restaram pouco mais de 5 bilhões (mais exatamente: R$ 5.145.522.131) para todas
as outras empresas do país. A maioria delas (quase todas), evidentemente, não
viram a cor desse dinheiro.
Por exemplo, de todas as 4 mil empresas do setor
de máquinas e equipamentos, somente a Weg Equipamentos Elétricos S/A e a Weg
Automação S/A, ambas, obviamente, do mesmo grupo, conseguiram financiamentos do
BNDES no período (ao todo, R$ 266.130.296).
Mais uma vez, como já observamos em artigos
anteriores, avultam os financiamentos concedidos a empresas privatizadas,
aquelas que não tinham direito a recorrer ao BNDES, e que foram vendidas sob o
argumento de que o Estado não tinha recursos para investir nelas.
Só a Vale do Rio Doce levou 9,98% dos recursos
liberados pelo BNDES (R$ 2.682.615.740). A CSN versão Steinbruch levou R$
900.000.000 (3,35%). A Telefónica de Espanha, que açambarcou a Telesp, ficou com
R$ 794.294.000 (2,95%), provavelmente como prêmio pela tortura a que submete
seus usuários. A Nippon Steel, que se apropriou da Usiminas e da Cosipa, recebeu
R$ 695.970.509 (2,59%). A Iberdrola, matilha que assaltou a Coelba, na Bahia, a
Cosern, no Rio Grande do Norte, e a Celpe, em Pernambuco, além de ser uma
“associada” da Telefónica, pegou R$ 485.090.000 (1,81%) no BNDES. A Isa, que
tomou a CTEEP, coube R$ 329.137.380 (1,22%). Já a CCR, que fez a caridade de
ocupar as estradas paulistas com pedágios, ficou com R$ 267.353.000 (0,99%). E
por falar em pedágios, nem lembremos da Tejofran – que pegou R$ 210.004.838
(0,78%) no BNDES.
Se era para que o Estado passasse a sustentar as
mineradoras, siderúrgicas, teles, distribuidoras elétricas e estradas que foram
privatizadas, melhor seria que continuasse com elas. Pelo menos os lucros não
iriam para Bilbao, Madri ou Tóquio – e as despesas para o BNDES, isto é, para o
povo, que além de pagar as tarifas dessas empresas, ainda financia seus
nebulosos negócios.
PAC
Fora isso, não há Programa de Aceleração do
Crescimento que resista ao desvio por atacado dos recursos destinados ao
investimento para alguns tubarões – estrangeiros e nativos. E, como o leitor
pode ver nas tabelas desta página, é um desvio sistemático, ideológico (pois o
entreguismo real combinado com as fantasias “multinacionais” não passa de uma
ideologia, ainda que muito ordinária), isto é, um desvio que nada tem de
“técnico”, exceto a técnica de afundar um país.
CARLOS LOPES
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